O Menor-deles permaneceu sentado durante a história. A menor delas durante horas:

– Posso brincar?

A menor voz partiu dele, do fundo, bem lá de baixo:

– Não atrapalho, jogo como quem não joga, de soslaio.

Só para você ter uma ideia, partiu dele que vendia balas. Partiu dela que as comprava: os dois uma fome repartiu.

Os Médios e os Maiores-deles somente o queriam lá embaixo. Ou no máximo de lado. À margem do pátio. Quando não vendendo, chupando. As balas. À margem dos parágrafos:

– Posso? Prometo que não falo. Desdigo. Falo. Não falo.

Ao prometer que não falava, a Menor-delas abriu as pernas, e a bola passou de mão em mão, a bala de canto a canto da boca, fazendo-se roda:

– Vem, choramingas … aqui você brinca, mas só se trouxer sua língua, sua saliva em xícaras, seu gemido em flautas, não em cítaras. Será você que consegue?

Ele cruzou o vale, vendeu as balas que não chupou e pensou que valeria a pena. Fechou os olhos, a ideia dita para você ter entre dois pontos cruzando a vassalagem:

– Se é no meio que me querem, sou mesmo bobinho, um botão de camisa. Sou o menor que a voz nem avisa. Canta quando entra na casa da camisa. Sou o menor que a vista nem avista. Sequer alcança.

Agora, segura a alça que o tabuleiro grita:

– Com quem eu brinco, se ninguém quer balas?

O Maior-deles era o dono da bola, das xícaras e da flauta-cítara do meio das pernas da menina: de noite fazia dia, de dia fazia dela noite, margarida. Outros olhos na janela. A dela. Os dela.

A menina era caravela: Santa, Pinta e Nina. No mato de quem já se viu sem camisa. Era a cara da Mata Atlântica sem camisola.

Um dos Médios culpou Choramingas de ter chupado as balas antes do almoço. Antes que a ausência do papel descobrisse o pescoço: a América de carne e osso. A América mais osso do que carne, carne de pescoço … duro de roer, só osso.

Choramingas, o vendedor que chupava balas, encolheu no maior encolhimento já visto, ouvindo:

– Você é manteiga. E derretida. Menino não chora, não conhece essa história?

A Menor-delas, depois das horas transpostas, expulsou o poço da vagina. Agora brinca, passa sua língua derretida no pão, que o lábio do menino grita:

– Quem quer bala? Quem quer que lhe tire o papel de bala?

Da roda, o menino saiu para encontrar as ruas com as casas cheirando a comida, saliva, língua, degustação. Dele para a fada. De José na calçada para Bela: você me convida?

José subiu as escadas. Aos pés da menina, depositou as balas nem chupadas nem vendidas. E na porta da entrada, perguntou:

– Aqui não tem saída? Já almoçou?

Cada terça-feira formava uma vez. Cada um formando das suas. Desenformando o encontro. Informando o desencontro: cada terça desfazendo a outra. Duas vezes ninguém almoçou.

– Eu tenho as balas. Meninofalou. Farol na fala demonstrou, desembrulhou.

E olhou para ela com cara de ter para dar aquilo que não chupou nem vendeu. De ter o que restou: o desejo de dar para ela. De ter a cara dele na dela. Cada um de um lado da janela. Cada terça o avesso dele, o avesso dela.

Avessa à janela, com balas de cristal, olhar de bolas de açúcar cândi, uma certa Mulher-das-eras dizia mordendo as lentilhas:

– O garfo no prato pede mais grãos. O giral pede mais giros do vento. De mais fundo, de um não raso, prato fundo no garfo, perde-se entre os dentes, no palito e no tempo.

Choramingas gozou a nafta da menina que de balão se transformou em bailarina: balão-menina subindo sem cortina. Ela declarou:

– Se fui cega, foram as flores que seu bico esfrega; se néctar, o pólen do pássaro que com o bico, sem umbigo, ainda cega e esfrega a pálpebra na ideia, a lâmpada em que o gênio se esfrega e realiza o desejo.

Anita por magia saiu na janela. O Bruxo, o néctar, o pregão do vendedor de balas e a fome de beijá-las fizeram frestas na possibilidade de chupar as balas. A menina colheu do chão as balas aos seus pés depositadas. Seus dedos viraram doces. Ordenaram o menino a embalá-los; calçar as meias em seus pés para depois, em balas, descalçá-las. A novela, o menino e ela na nova ideia que novenovela. Meio ele, meio ela. Meia nela, meia retirada por ele. Balas inteiras compartilhadas.

Moveram-se os braços, os dele aos braços dela e a outra face aos braços dela: dela pra mim. De Anita Bela:

– Quantos começos de histórias?

– Quantas histórias e os seus começos, quando seu olho no reconheço.

– Quantas pelo começo?

Quando marcar encontro às terças-feiras e seu olho achar que começo. Meço e recomeço. Arremesso. Pode deixar, choramingas já conheço. Vende balas. É José e é menino. Pergunta sempre na porta da entrada:

– Já comeu?

Dizem que a mecha não mexe os cabelos, mas a tocha acende de novo:

– Tá gostoso?

Se você ouvir o apito, o noturno acende um farol naquela estrada listrada. Um fósforo no seu estrado listrado de pijama. Depois, vai embora com sua cama, com Luciana, a narradora da história passada.

Gaguejavam pernas para que te vejo, pálpebras que se abrissem em beijo: parabrissassem o desejo. De José para Anita:

– Se você deixasse, transporia a janela. Transformaria balas em dedos, eu os confundiria papel e meia de bala. Arrancaria suas meias para beijá-la.

Ao dizer, a voz do menino ficou sem sapatos:

– Arrecadaria um aquário, o cinema dos olhos para olhá-la. E mudo daria para você pronomes pessoais e girinos intransferíveis, sapos em verbos, príncipes intransitivos. Todos os oblíquos que embrincassem meninos, guris e girinos. Porque as pernas dos guris não são as pernas das gurias. Eles são girinos. Elas gias. Contaria cada coisa na sua vez. Uma terça-feira de cada vez.

De Anita Bela para Anita Bonita. De dentro dela para o lado de fora dela:

– Contaria terceira vez. Dela pra ela: donzela. De Anita para José:

– Se você deixasse os peitos de antes parapeito não parariam os beijos de depois. Somente depois que o fim e o busto começassem, acabassem com o começo e com o depois sem fim nem começo que começa e acaba como se conhece, quando a gente se conhece.

Depois que a valsa viesse, os girinos se espalhariam e a história na língua do contador de línguas nos lamberia. Devolveria a fada, madrinha de casamento afastada. E o vendedor e a compradora de balas afiariam a faca: sinhá fada, conto que não pressupõe nada. Nadinha. Nadica de ninguém e de nada: ninguém se beijou. Então, levantaram a valsa. Ela levantou a saia e saiu. Ele virou as páginas onde a menina se deitava, se desembrulhava, desabrochava quando o menino a dedilhava tentando beijar as balas de seus pés. Marcaram um almoço, mas naquele dia ninguém almoçou, ninguém descalço ficou. 

Gaguejavam as falas, as fadas por facas. O menino na porta da entrada justificou ter sido culpa do engolidor de fadas quando o empurrou escada acima, sem balas. Só ele mastigou: Sinhá fada, depois de fotografada, fonemografada revelou que o mundo embruxara. Ninguém comeria mais nada, nem se beijaria.

Desgarrada, em ene-a-de-a, a visão olhava, paralisava, parabrisava no peito ausente e ofegante da menina. No restaurante, restaurados ficaram os pratos, os guardanapos, os talheres e a conversa, na fome que s’a fada deixou: ninguém se beijou, nem almoçou. Os dois acharam que só um faltou. Dois ou um, qual deles não foi? Dois ou um: qual deles, depois de ultrapassada a escada e a janela, não teve coragem e não beijou?

O garçom anotou, onde fonte geradora era La Fontaine, que a mesa reservou. José dizia coisas bonitas e Anita as guardava em conserva no meio das pernas. Anita se guardava bonita e também se chamava Maria nas horas vagas. Era avessa à mentira. Vagamente transposta e transportada. Transbordava, transportava e era transportada. Maria à esquerda, pouco comportada. Maria Anita. Bonita.

Nenhum dos dois almoçou. A fada se disse Anita Bela, donzela. Anita Bonita, enquanto os dois pontos comiam na banguela:

– Como está sua berinjela? O que lhe cai melhor à goela?

Interrogavam-se as janelas, as gavetas com suas maçanetas e os papéis no ventilador da janela:

– Onde José estivera no horário marcado para almoçar com ela? Se visitara um rei, por que não levara Anita Bela? Maria com suas pernas?

Dizia o cardápio, uma tal de Mulher-das-eras, que a lentilha esfriava, porque os grãos eram a lentidão do tempo. Esfriava na panela. Os olhos da menina na janela. Aquele bolo mentira não era. Era uma vez, dizia a Mulher-das-eras.

A bela ficou na espera, sentada no vestido da janela, embrulhando olhos de espera, de fresta com papel de bala. Olhos em polióticos. José com os olhos seus esperava por ela para subir os degraus dela. Ficou a espera de tanto não a ver na janela. O desejo deles na espera:

– Sr., mais seriguela?

Outra terça-feira a sua espera. O macarrão beijou a janela com o aroma que dela se desprendia. Conversa de Anita Bela que disse guardar bolonhesa em sua travessa. José falando para ela, raspando a panela:

– Se lhe dei rosa, foi porque homens eu não os tinha. Se lhe dei flores, foram as minhas.

Depois, o que foi dela? Disse que saiu para brincar … quando voltar brinca de novo, brinca de almoço. E por falar nos noivos…

Ele era papel, ela bala. E por falar em noivos, de novo … aquele novelo novenovelou de novo. Dois pontos: o vermelho do batom, no molho dos lábios do batom no prato vermelho de molho, mordeu al dente os dentes quando as línguas nos dentes disseram:

– Se cato meninos e meninas, girinos e gias me deram. Se toco a história é com o meio das pernas, é com o meio da história onde a pálpebra estivera para vencer o rei, o engolidor que engoliu mais uma vez.

Coragem, coragem Anita não tomou, vai ver que foi por isso que ali não estivera. Só disse, porque foi pela Mulher-das-eras. Trocando de espada, José engoliu uma garrafa, um engolidor de fadas.

Ela devia estar contando um fato heroico, que se tornava Odisseu e mais heroico por não ter tomado coragem. Engolira a gola olímpica da goela – logo ela, com seus cachos na janela.

Assim era ela, sua língua: dois passos para trás e a lua beijava a boca da meia Lu que era Luzinha, que era Nara, narradora, que era Narinha. Assim era ela na terceira vez em que saiu na janela. Na vez em que era margem, vez nenhuma, dizendo que bonita não era ela, mas a sombrinha que seu chapéu refresca. Disse também que bonita não era Anita, mas a Rita de sapato boneca, vizinha de Anita e que nunca sai à janela. Bonita era a Mônica com acento na boca e câmera fotográfica, de cara sapeca e mania de fotografar fadas. Bonita era a Rita que quando dormia não era noiva: era novela. Morava ao lado de Anita e nunca saía na janela. Bonitas eram as meninas que quando dormiam almoçavam. Bonita era a boca que quando abria a boca contava: a novanovela que fechava.

 

 

 


Créditos da imagem da capa: Reprodução de “Mural” de Jackson Pollock.