Percebi que sou presença,
nunca permanência.
Chegam até mim quando a mente deles desaba,
quando o mundo pesa,
quando o silêncio começa a morder.
E eu atendo
porque reconheço esse cheiro
de desespero escondido.
Eu entendo demais.
Sei como é quando os pensamentos se embaralham
como cartas jogadas no chão,
nada encaixa,
nada responde,
tudo lateja.
E sei também o quanto a dor interna
pode ficar tão funda, tão áspera,
que qualquer dor de fora
parece alívio
não pelo impacto,
mas pela pausa que ele dá na confusão.
As marcas,
os roxos,
os arranhões tortos…
ninguém pergunta.
Ninguém nota.
Mas eu noto.
Porque já vi esse mapa antes,
na pele dos outros,
e nas partes de mim que não mostro.
E mesmo assim,
sou porto.
Um porto improvisado,
cheio de rachaduras,
mas que ainda sustenta quem chega.
Mesmo quando não sei o que dizer,
mesmo quando as palavras somem
como se tivessem medo de sair.
Mas porto não é destino.
É pausa.
É intervalo.
E ninguém permanece num intervalo.
No fim, vou ficando com o que sobra:
o eco das coisas que não me disseram,
o peso das coisas que entenderam rápido demais,
e a estranha certeza de que
sustento o mundo dos outros
enquanto o meu permanece em ruínas
que ninguém vê.
Sou presença quando dói,
silêncio quando passa.
Sou abrigo na tempestade
mas nunca a casa quando o céu abre.
E essa é a parte que corta:
o mundo encosta em mim
só quando está caindo.
Depois, some.
E eu fico.
Com tudo o que foi derramado.
Créditos na imagem de capa: Inteligência artificial
Wivila Pereira
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História da Historiografia: International
Journal of Theory and History of Historiography
ISSN: 1983-9928
Qualis Periódiocos:
A1 História / A2 Filosofia
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