Percebi que sou presença,

nunca permanência.

Chegam até mim quando a mente deles desaba,

quando o mundo pesa,

quando o silêncio começa a morder.

E eu atendo

porque reconheço esse cheiro

de desespero escondido.

 

Eu entendo demais.

Sei como é quando os pensamentos se embaralham

como cartas jogadas no chão,

nada encaixa,

nada responde,

tudo lateja.

 

E sei também o quanto a dor interna

pode ficar tão funda, tão áspera,

que qualquer dor de fora

parece alívio

não pelo impacto,

mas pela pausa que ele dá na confusão.

 

As marcas,

os roxos,

os arranhões tortos…

ninguém pergunta.

Ninguém nota.

Mas eu noto.

Porque já vi esse mapa antes,

na pele dos outros,

e nas partes de mim que não mostro.

 

E mesmo assim,

sou porto.

Um porto improvisado,

cheio de rachaduras,

mas que ainda sustenta quem chega.

Mesmo quando não sei o que dizer,

mesmo quando as palavras somem

como se tivessem medo de sair.

 

Mas porto não é destino.

É pausa.

É intervalo.

E ninguém permanece num intervalo.

 

No fim, vou ficando com o que sobra:

o eco das coisas que não me disseram,

o peso das coisas que entenderam rápido demais,

e a estranha certeza de que

sustento o mundo dos outros

enquanto o meu permanece em ruínas

que ninguém vê.

 

Sou presença quando dói,

silêncio quando passa.

Sou abrigo na tempestade

mas nunca a casa quando o céu abre.

 

E essa é a parte que corta:

o mundo encosta em mim

só quando está caindo.

Depois, some.

E eu fico.

Com tudo o que foi derramado.

 

 

 


Créditos na imagem de capa: Inteligência artificial