Douglas Souza Angeli

 

Os canais da mídia noticiaram, no dia 19 de maio, a coletiva de imprensa na qual o presidenciável Flávio Bolsonaro (PL) admitiu encontro com Daniel Vorcaro, do Banco Master, mesmo depois da primeira prisão do empresário – pilar do escândalo de corrupção que tem abalado Brasília. Entre os aliados presentes ao evento, ganhou destaque a imagem de Sérgio Moro, senador e pré-candidato a governador pelo PL no Paraná. O ex-juiz apareceu, em vídeos, olhando para baixo – ou para o nada – enquanto seu aliado nacional dissolvia a popularidade a cada palavra lançada ao contexto da maior crise já enfrentada pelo bolsonarismo. Por que este abalo sísmico?

Conforme a capa da revista Veja, na edição retrospectiva de 2015, Sérgio Moro havia sido o “salvador do ano”. Ganhou notoriedade no comando, em primeira instância, do julgamento dos crimes apurados na Operação Lava-Jato, cujos desdobramentos principais foram a erosão da governabilidade de Dilma Rousself e seu impeachment, em 2016, e a condenação e a prisão do então ex-presidente – e novamente candidato ao cargo – Luís Inácio Lula da Silva em 2018. A declaração de suspeição do juiz pelo Supremo Tribunal Federal (STF) e a crise no caso da interferência na Polícia Federal, que culminou na saída de Moro do governo Jair Bolsonaro, não abalaram a ficção que o bolsonarismo tomou para si: o combate à corrupção.

Moro e Bolsonaro fazem parte do mesmo fenômeno. O ambiente da Lava-Jato foi o da rejeição à política, do verde e amarelo nas ruas, cujo efeito mais deletério foi a eleição de um candidato despreparado e agressor da democracia em 2018. Naquela eleição, uma eventual derrota do PT para o seu tradicional antagonista, o PSDB, teria sido resultado facilmente explicado pelo antipetismo. O partido de Lula e de Dilma foi o que mais sofreu a associação aos casos de corrupção fartamente midiatizados. Mas Geraldo Alckimin, então candidato do PSDB, obteve menos de 5% dos votos. A Lava-Jato fomentou a rejeição ao arranjo político como um todo.

Nas ruas, entre camisetas da seleção brasileira de futebol e símbolos como o Pato Amarelo e o Pixuleco – boneco inflável representando Lula como presidiário – havia também cartazes que clamavam por intervenção militar e “novo AI-5”. O caldo bolsonarista ganhou corpo ao catalisar ressentimentos, preconceitos e discursos de ódio. Mas em meio a defensores da ditadura e aos homofóbicos de carteirinha, boa parcela dos que saíram às ruas em 2015 e 2016 para pedir o impeachment de Dilma tinha como resposta na ponta da língua o combate à corrupção. Esse mote constituía uma máscara de dignidade e os fazia andar de cabeça erguida no lamaçal de extremismos.

De 2016 a 2018, o “movimento contra a corrupção” fundiu-se ao lodo movediço da rejeição ao sistema político, impulsionou Jair Bolsonaro e, salvo exceções de cidadãos bem intencionados, mas profundamente equivocados, não abandonou o presidente em seus atos e falas que fustigavam a democracia. Em 2022, estavam lá, quase todos, de verde e amarelo, fazendo “arminha” com as mãos e votando para reeleger Bolsonaro nas urnas das quais passaram a duvidar. Lula, “o ladrão”, voltava ao poder ao recompor, em parte, o eleitorado que elegeu quatro vezes o PT e ao somar o apoio de políticos de centro e centro-direita que formaram um arco mais amplo em nome da preservação da democracia.

O impacto do escândalo Master/Vorcaro/Flávio na candidatura do herdeiro do bolsonarismo, afastando aliados, mobilizando a imprensa e causando um abalo sísmico nas pesquisas de intenção de votos demonstra a força da ficção do “contra a corrupção”. Não que a corrupção não deva ser combatida. Ao contrário, o fortalecimento das instituições democráticas deve ser acompanhado do incremento dos mecanismos de controle, investigação e punição. O “combate à corrupção” que saiu vencedor em 2016 e em 2018, no entanto, serve apenas de máscara para que a realidade do bolsonarismo não seja tão crua a ponto de ser insuportável aos “cidadãos de bem”.

Pensemos no “cidadão de bem” que aceitou votar em Bolsonaro na esteira do combate à corrupção e da rejeição à política. Pode ter ficado levemente constrangido, mas fingiu não levar a sério os atos antidemocráticos que pediam intervenção militar. Não retirou seu apoio nem mesmo diante da condução do governo na pandemia de covid-19, fatalmente desastrosa para centenas de milhares de brasileiros. Aceitou a farsa da Cloroquina e assentiu com o atraso deliberado e criminoso da compra de vacinas que salvariam vidas. Um tanto constrangido, viu antigos companheiros defecarem os corredores do Palácio do Planalto e do STF em 8 de janeiro de 2023. Aceitaram o bolsonarismo mesmo com tentativa de golpe. Mas Flávio chamando Vorcaro de “irmão” e pedindo alguns milhões, certamente foi demais. Sem a máscara e a legenda “contra a corrupção”, resta ao “cidadão de bem” o abraço malcheiroso da barbárie. Por isso o abalo nas pesquisas eleitorais. Não tomemos tais fatos por irreversíveis: fica demonstrado que a atmosfera de valores, ressentimentos e ficções que o bolsonarismo catalisou segue presente, apesar destes dias de desorientação, de constrangimento, de cabeça baixa e olhar pateticamente perdido.

 

 

 


Créditos na imagem de capa: Manifestação em São Paulo contra a corrupção e o governo Dilma (Wikipedia).