Este ensaio propõe-se a examinar o período compreendido entre as duas guerras mundiais (1918–1939) sob três eixos articulados: a gênese e a consolidação dos projetos totalitários, a estrutura psicológica e propagandística do fascismo e, por fim, o papel da indústria cultural na produção de subjetividades conformistas. Para tanto, mobilizará os instrumentais teóricos de Theodor Adorno, Eric Hobsbawm, Arno Mayer, Benedict Anderson, Hannah Arendt e Elisabeth Roudinesco, entre outros, na esperança de que o entrecruzamento dessas perspectivas permita uma leitura mais matizada de um período que, como observou Hobsbawm, constitui o núcleo catastrófico do breve século XX (HOBSBAWM, 1995, p. 13).

É provável que eu estivesse incomodado se fosse vizinho do grande Gatsby; Nick, todavia, tornou-se amigo dele e de Daisy, bem como do marido desta — enfim, cada qual com a sua personalidade. A diferença fundamental reside em que Nick é um old money do interior dos Estados Unidos, ao passo que Gatsby é um new money que, como o seu país, enriqueceu consideravelmente durante a Primeira Guerra Mundial. Creio que boa parte das pessoas, como eu, não ficaria satisfeita com o barulho das grandes festas, porque não se encontra na mansão ao lado, mas nos “apartamentos higiênicos” que, segundo Adorno e Horkheimer, em A indústria cultural, transmitem a percepção de independência enquanto subjugam os seus moradores ao poder do capital (ADORNO; HORKHEIMER, 2009, p. 05). Porém, entre a Grande Guerra e a Segunda Guerra Mundial, nem tudo eram flores; dos dois lados do Atlântico, algumas pessoas começaram a nomear seus filhos de “Benito” e “Adolf”.

Em diversas regiões emergiam governos que se apresentavam como “fortes” e que tinham, sob esse véu, projetos, se não abertamente fascistas, ao menos com um pronunciado flerte com essa ideologia: Salazar em Portugal, Franco na Espanha, Mussolini na Itália, Hitler na Alemanha, Vargas no Brasil, Perón na Argentina. Grande parte desses regimes emergira em contexto de crise; Napolitano entende que o continente europeu encontrava-se sob considerável tensão geopolítica; um momento em que o ar estava impregnado com o cheiro da tinta dos papéis que planejavam o conflito, semelhante à paz armada anterior à Grande Guerra, um momento de paz-guerra (NAPOLITANO, 2020, p. 37–38). É provável, contudo, que muitos dos indivíduos e países que pressentiram a Segunda Guerra não pudessem conceber a matança em escala industrial e em tão curto espaço de tempo; as potências participavam de um perigoso cabo de guerra, cada qual buscando obter vantagens e apostando que o temor de um novo conflito catastrófico prevaleceria, mas Hitler conseguiu romper essa corda ao invadir a Polônia.

Estamos a nos adiantar; retornemos ao entreguerras. Antes, porém, cumpre estabelecer em que sentido o conceito de “nação” constitui um dos substratos ideológicos sobre os quais os projetos totalitários se edificaram. Benedict Anderson demonstrou que a nação não é uma entidade natural, mas uma “comunidade política imaginada”, limitada e soberana, cujo surgimento está indissociavelmente ligado ao capitalismo tipográfico e à difusão da imprensa em línguas vernáculas (ANDERSON, 2008, p. 32). O que os regimes do entreguerras fizeram foi apropriar-se dessa comunidade imaginada e recodificá-la: a autodeterminação cedeu lugar a um ideal patriótico que subjuga o indivíduo ao coletivo e, com isso, alimentou determinado sentimento de “superioridade” étnica e cultural. Hobsbawm, por sua vez, demonstrou como, por meio da “invenção das tradições”, sinais e objetos, como a bandeira nazista ou a saudação fascista, adquirem simbolismo e formam uma resposta emocional no espectador, criando uma continuidade artificial com um passado igualmente fabricado (HOBSBAWM, 1997, p. 9–12).

A Primeira Guerra suscitou grandes dúvidas a respeito de quanto as democracias liberais em formação poderiam suportar um momento de crise. Essa desilusão, todavia, não era exatamente uma “inovação”: Arno Mayer apresentou tese bastante polêmica ao afirmar que, já no início do século XX (1900–1914), a Europa era ainda Ancien Régime, isto é, conservava noções antidemocráticas e hierárquicas (MAYER, 1987, p. 267). Diante da possibilidade de ascensão política dos burgueses, que poderia reverberar em movimentação análoga advinda das camadas populares mais amplas, as antigas elites, apoiadas por outras categorias sociais que se entendiam igualmente ameaçadas pela urbanização e pela industrialização, buscaram “alternativas” de contenção. Dessa forma, o liberalismo europeu é, para Mayer, ao menos na primeira metade do século XX, um projeto político que não logrou consolidar-se antes de ser solapado por seus adversários. Cabe-nos refletir sobre o quanto desse mal-estar e dessa desesperança de fim de século se aprofundou com a Grande Guerra e com crises econômicas sucessivas, como a de 1929.

Há ideias que não surgem prontas, mas que, como sementes lançadas em solo fértil, revelam apenas com o tempo toda a extensão de seus frutos. Assim ocorreu com a noção de nação. Aquilo que outrora parecia ligado à autodeterminação dos povos foi gradualmente cedendo lugar a um ideal patriótico mais severo, no qual o indivíduo se via chamado a sacrificar-se em favor da coletividade. E não raro acontece que, quando uma comunidade passa a contemplar a si mesma com excessiva admiração, acabe por imaginar que sua condição é não apenas singular, mas superior; foi desse terreno que brotaram algumas das mais inquietantes pretensões de superioridade nacional do século XX (ROUDINESCO, 2010, p. 41, 46). Para Adorno, Hitler não assumiu o papel de pai amoroso, mas de uma autoridade que gerava medo e admiração, substituindo a noção de amor pela ideia abstrata de Alemanha (ADORNO, 2015, p. 162). Para Hobsbawm, por mais que corresse uma crença na melhoria social e material por intermédio da tecnologia, estava igualmente posto que alguns eram lidos como mais iguais que outros; nesse sentido, tornava-se necessária a criação de um Outro a ser culpado; mecanismo pelo qual a comunidade se define negativamente, pela exclusão, e não apenas pela afirmação de si mesma (HOBSBAWM, 1995, p. 118). Esse Outro por excelência, em grande parte da Europa, foi o judeu.

Em sentido psicanalítico, a constituição de uma figura destinada ao ódio não representa um acidente da vida coletiva, mas um de seus mecanismos mais recorrentes. Não raras vezes, os grupos parecem descobrir sua unidade menos naquilo que professam amar do que naquilo que elegem para rejeitar. O inimigo, real ou imaginado, converte-se em espelho invertido da comunidade; é pela sua negação que os vínculos internos se fortalecem e que os indivíduos passam a reconhecer-se como parte de um mesmo corpo social. Depreende-se, portanto, que a figura do adversário torna-se o receptáculo privilegiado das pulsões agressivas e destrutivas que a coletividade projeta para fora de si (FREUD, 2010, p. 81; FREUD, 2011, p. 52-53). Tal percepção encontra-se de modo particularmente elucidativo em O mal-estar na civilização (2010), livro no qual Sigmund Freud sustenta que a agressividade não constitui uma deformação ocasional da experiência humana, mas uma disposição permanente da vida em sociedade. Os homens, desejosos de paz entre os seus, frequentemente alcançam tal intento à custa da hostilidade dirigida contra os outros. Surge daí aquilo que o autor denominou “narcisismo das pequenas diferenças”, fenômeno pelo qual comunidades vizinhas ou semelhantes elegem distinções mínimas e as transformam em fundamento para antagonismos profundos. Reflexão semelhante aparece em Psicologia das massas e análise do eu (2011), obra na qual o autor investiga os processos psíquicos que permitem a formação e a permanência dos grupos. Segundo sua análise, a unidade coletiva não nasce espontaneamente; ela depende da identificação dos indivíduos com um ideal comum e da delimitação de fronteiras simbólicas que distingam aqueles que pertencem daqueles que permanecem fora. O adversário desempenha, portanto, uma função paradoxal: ao mesmo tempo em que ameaça a comunidade, contribui para sua existência, pois oferece um alvo para a agressividade compartilhada e um ponto de convergência para os sentimentos de pertencimento. Desse modo, aquilo que parece simples negação converte-se em elemento constitutivo da própria identidade grupal, como se a coletividade, para afirmar quem é, necessitasse antes determinar quem não é.

Elisabeth Roudinesco oferece uma análise particularmente apurada desse fenômeno. A Viena fin-de-siècle tornara-se, no imaginário antissemita, uma “capital judaica”, e durante a crise econômica da década de 1870 os judeus foram submetidos a profundas violências, acusados de degeneração do mercado e dos costumes (ROUDINESCO, 2010, p. 50–51). O antissemitismo na Europa assumiu formas muito diversificadas, e o alemão, em especial, tomou feição extremada ao longo do entreguerras, amalgamando ressentimentos econômicos, ansiedades de pureza racial e uma tradição de antijudaísmo religioso que remontava a séculos. Assim, somados a esse antijudaísmo e ao antissemitismo moderno, correu, ao longo dos séculos XIX e XX, uma série de projetos integrados a um programa político contestatório, antiliberal, xenofóbico, antiprogressista e antimarxista. Nesse caldeirão de questões oriundas do século anterior, o período entreguerras ainda tinha de lidar com as tensões mal resolvidas pela Grande Guerra; Hobsbawm sustenta que as implicações entre a Primeira e a Segunda Guerra são tão evidentes que poderíamos classificá-las como uma única guerra total, com um período de pausa entre elas (HOBSBAWM, 1995, p. 57).

Expostos esses elementos contextuais que permitem compreender como projetos totalitários lograram alçar-se ao poder entre 1918 e 1939, o passo seguinte é examinar dois aspectos que lhes são sobremodo notáveis: a estrutura psicológica do fascismo e o papel da indústria cultural na consolidação de uma mentalidade de massa.

Adorno, um dos principais expoentes da chamada Escola de Frankfurt, teceu considerações que valem a pena sublinhar acerca do fascismo. Segundo o autor de Teoria freudiana e o padrão da propaganda fascista, devemos compreender esse movimento tendo em lume uma perspectiva que havia sido, em sua época, ainda negligenciada: a psicanálise. No entendimento de Adorno, Le Bon foi um dos primeiros a pensar a análise da psicologia de grupo, sustentando que a massa, anônima, tendente ao extremismo e a salvo da responsabilização individual, constitui um rebanho que busca um líder forte e passível de ser “invejado”, admitindo-se para ela uma espécie de alma coletiva. Contudo, Le Bon ainda mantém certo preconceito contra as massas, diferentemente de Freud que, num processo que visa ao “esclarecimento”, pergunta-se “o que faz as massas serem massas?” e, após longa argumentação, conclui que elas se caracterizam pelo sentimento oceânico e que se mantêm coesas pela libido (ADORNO, 2015, p. 155–158). A natureza libidinal permite uma experiência prazerosa de pertença que não suscita, necessariamente, qualidades novas, mas desejos ocultos que estavam sublimados; um id que se vê, ao menos temporariamente, sobreposto ao superego por estar num eu coletivo que permite a suma desindividualização.

A imagem do líder está contida, especialmente, na propaganda, que promove o engrandecimento desse sujeito. Trata-se de uma libido narcísica: o líder fascista não pode amar, mas deve ser amado, e esse amor advém da projeção, nesse demagogo, de um ideal do eu que não pode ser alcançado pelo seguidor. Enquanto o líder se torna o ideal, há, para Freud, uma identificação com o ingroup e uma exclusão do outgroup. Paradoxalmente, o líder fascista, para obter identificação, apresenta-se também como mediano, alguém supostamente alcançável, o que Adorno designa como “pequeno grande homem” (ADORNO, 2015, p. 170). A propaganda exerce, para a construção da imagem do líder, papel fundamental; é preciso, na concepção fascista, não tocar na razão, mas na emoção: amedrontar, agitar, enraivecer, culpar.

Não se deve, contudo, supor que os seguidores estejam isentos de responsabilidade, pois, por mais que a maldade possa ser banalizada, nada lhes é imposto: as pulsões de morte são internas, e medidas coercitivas devem ser tomadas. Igualmente mister é sublinhar que o líder fascista não é um grande gênio do mal, mas alguém com capacidades geralmente limitadas, frustrado, que, lendo a cena de sua época, consegue gerar manipulações por meio da oralidade; Adorno chega a considerar uma espécie de hipnose, um encantamento pela palavra do ditador que fala incessantemente (ADORNO, 2015, p. 188). O líder compreende as carências de orientação e as necessidades psicológicas de seu tempo, gerando um processo pelo qual o que foi recalcado por frustrações internas e externas encontra, na cena política, uma via de expressão.

No que concerne à propaganda, Adorno aponta como é prescindível, para a compreensão de sua operacionalização, qualquer incursão aprofundada pelos seus conteúdos; trata-se de uma reiteração do narcisismo e da repetição de certas afirmações que visam à emoção e não têm nenhuma preocupação com a realidade concreta. Nesse sentido, a manipulação fascista é a tentativa de reproduzir, de maneira artificial, o vínculo libidinal narcísico, tal como pensado por Freud. A propaganda, assim, além de engrandecer o demagogo, promove a “venda” de um igualitarismo que é, em si, de extrema malícia, por passar a ideia de fraternidade e promover a vingança contra os que a impedem.

Os entendimentos de Adorno, no entanto, não são unânimes. Enquanto para ele e para Freud o papel do líder junto ao seguidor é o de fundir-se num único corpo, para Arendt tal papel está bem mais vinculado a supervisionar camadas de burocracia: o líder se coloca como responsável por um movimento que, no entanto, o ultrapassa (ARENDT, 1989, p. 410–415). Entre ambos os autores, contudo, há concordância sobre o fato de que a propaganda constrói algo que não é lógico nem organizado, mas afetivo e ritualístico.

Tratemos, então, da indústria cultural. Em termos gerais, até o início do século XX, eram relativamente escassas as tecnologias voltadas especificamente ao entretenimento de massas. A arte, a literatura, a música e outras expressões passaram a ser produzidas com objetivo mercadológico e industrial; a propaganda cria interesse e faz surgir necessidades, estabelecendo o que Adorno e Horkheimer denominam um “círculo de manipulação e necessidade retroativa” (ADORNO; HORKHEIMER, 1985, p. 114). A indústria cultural, por oferecer ao consumidor um prolongamento de seu cotidiano que gera identificação, é padronizada e homogeneizante, não requer grandes processos de reflexão e crítica, cria o indivíduo médio e incentiva uma mentalidade igualmente mediana. Vale ressaltar, ademais, que, assim como a indústria do entretenimento visa a dominar o consumidor, ela está igualmente dependente de outros monopólios, como os de energia — o que revela a imbricação entre os diferentes ramos do capital.

Não havendo, portanto, espaço para a fantasia e a reflexão, somos adestrados, com os pescoços enlaçados às “coleiras eletrônicas”, a assistir à gradual atrofia da imaginação e da espontaneidade. Adorno e Horkheimer (1985, p. 128), citando Tocqueville, compreendem que os que não se inserem nesses monopólios ver-se-ão cerceados nas demais áreas do convívio e da economia. 

Há algum tempo eles assinavam suas cartas, como Kant e Hume, com a expressão ‘seu mais humilde servo’, no entanto, minavam as bases do trono e do altar. Hoje chamam pelo nome os chefes de governo, e são submetidos, em todo impulso artístico, ao juízo dos seus governantes iletrados. A análise feita por Tocqueville há cem anos foi plenamente confirmada. Sob o monopólio privado da cultura sucede de fato que ‘a tirania deixa livre o corpo e investe diretamente sobre a alma’. Aí, o patrão não diz mais: ou pensas como eu ou morres. Mas diz: és livre para não pensares como eu, a tua vida, os teus bens, tudo te será deixado, mas, a partir deste instante, és um intruso entre nós. Quem não se adapta é massacrado pela impotência econômica que se prolonga na impotência espiritual do isolado. Excluído da indústria, é fácil convencê-lo de sua insuficiência. Enquanto agora, na produção material, o mecanismo da demanda e da oferta está em vias de dissolução, na superestrutura ele opera como controle em proveito dos patrões (ADORNO; HORKHEIMER, 2009, p. 15–16).

Uma diferença em relação aos tempos de Tocqueville é que a cultura de massas busca a exclusão do que é novo e, simultaneamente, a propaganda desempenha o papel de oferecer e privar: ela apresenta o objeto do desejo, mas nega a possibilidade de acesso; em suas palavras, “ela não sublima, mas reprime” (ADORNO; HORKHEIMER, 1985, p. 131). Gera-se, igualmente, a banalização e a ilusão de acesso: a arte como tal fica restrita a alguns, e uma faceta banalizada dela é disponibilizada aos demais.

[…] a pretensão da arte é, de fato, sempre ideologia. A arte “leve” como tal, a distração, não é uma forma mórbida e degenerada. Quem a acusa de traição quanto ao ideal de pura expressão, se ilude quanto à sociedade. A pureza da arte burguesa, hipostasiada à condição de reino da liberdade em oposição à práxis material, desde o início foi paga pela exclusão da classe inferior, à causa da qual — a verdadeira universalidade — a arte permanece fiel, mesmo em virtude da liberdade dos fins da falsa universalidade. […] a novidade consiste em que os elementos inconciliáveis da cultura, arte e divertimento, sejam reduzidos a um falso denominador comum, a totalidade da indústria cultural. (ADORNO; HORKHEIMER, 2009, p. 13, 17-18).

A análise aqui empreendida permite, em conclusão, identificar uma convergência estrutural entre o fascismo e a indústria cultural: ambos operam pela supressão da razão crítica e pela produção de subjetividades heterônomas, incapazes de resistir à autoridade ou de imaginar alternativas ao presente. O antifascismo, nesse sentido, não pode restringir-se à recusa política do totalitarismo; há de ser igualmente uma postura frente à cultura, uma recusa da mediania e da padronização. Efetuemos, como estudiosos da história e como cidadãos, uma ode em favor da razão reflexiva e contra a razão meramente instrumental, onde nem tudo se converta em mercadoria com valor de troca. Isso implica dizer não à banalização e sim ao acesso; não à substituição da obra pela sua adaptação empobrecida, mas ao oferecimento de meios que possibilitem a todos o acesso ao original e à sua compreensão efetiva. Lutemos para não nos tornarmos medianos, para não aceitarmos o mediano, para não produzirmos o mediano.

 

 

 


REFERÊNCIAS:

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ROUDINESCO, Elisabeth. A sombra dos campos e a fumaça dos fornos. In: ROUDINESCO, Elisabeth. Retorno à questão judaica. Rio de Janeiro: Zahar, 2010. p. 41–70.

 

 

 


NOTAS

[1]A alegoria em questão refere-se à obra O Grande Gatsby (2011 [1925]), de F. Scott Fitzgerald.

[2]Em História Contemporânea II (2020), Marcos Napolitano sustenta que a entrada dos Estados Unidos na

[3]Segunda Guerra Mundial resultou de um conjunto complexo de fatores. Além dos interesses estratégicos relacionados à ampliação de sua influência global, o país enfrentava resistências internas, evidenciadas pela presença de setores da sociedade que demonstravam simpatia pelo nazi-fascismo, circunstância que dificultava a consolidação de um consenso favorável ao envolvimento direto no conflito.

[4]Trata-se de uma referência a uma cena do filme La vita è bella (1997), dirigido por Roberto Benigni, observável aos 8min48s da narrativa cinematográfica.

[5]É próprio das épocas de aflição que os homens depositem suas esperanças justamente naquilo que mais tarde virá a lhes causar novos dissabores. Assim, não faltaram localidades que, ao menos nos primeiros momentos da guerra, acolheram a chegada das tropas alemãs com uma esperança que o desenrolar dos acontecimentos logo se encarregaria de desmentir. Julgavam alguns que a ocupação poderia abrir caminho para uma futura independência e libertá-los do jugo soviético; nesse sentido, movidos menos por afinidade ideológica do que pela expectativa de se verem livres de uma dominação já conhecida, receberam os invasores com disposições que, à primeira vista, podem parecer paradoxais (NAPOLITANO, 2020, p. 49).

[6]Segundo Roudinesco (2010, p. 53), era católica e nacionalista na França e biológica, racista e higienista na Alemanha. 

[7]Como observa La Boétie em Discurso da servidão voluntária, “sob os tiranos, os homens nascem necessariamente covardes e efeminados” (LA BOÉTIE, 2009 [1573], p. 35-36). Se nos fosse permitido traduzir essa afirmação para um vocabulário contemporâneo, talvez disséssemos que o tirano infantiliza. Não porque transforme seus súditos em crianças, mas porque os acostuma à dependência, à obediência e à renúncia da própria capacidade de escolha. A servidão prolongada não apenas limita a liberdade de agir; ela corrói, pouco a pouco, a disposição de querer ser livre. Nesse sentido, La Boétie antecipa um problema que a filosofia existencial viria a explorar séculos depois: a dificuldade humana de assumir o peso da liberdade e da responsabilidade que toda escolha implica.

[8]Como observa Adorno (2015, p. 171), as estruturas hierárquicas encontram terreno fértil na disposição sadomasoquista do caráter autoritário, pois oferecem ao indivíduo a dupla satisfação de obedecer e de comandar. Não é raro que aqueles que se submetem com maior zelo aos superiores sejam também os mais inclinados a exercer seu poder sobre os que se encontram abaixo. Nesse sentido, a fórmula difundida por Hitler, Verantwortung nach oben, Autorität nach unten (“responsabilidade para com os de cima, autoridade para com os de baixo”), exprime com clareza essa ambivalência; o mesmo sujeito que se curva diante da autoridade busca compensação na dominação de outrem, como se a servidão e o mando fossem duas faces inseparáveis de uma mesma condição (ADORNO, 2015, p. 171).

[9]Marcel Conche (apud GADOMSKI, 2007, tradução minha), um dos mais penetrantes intérpretes de Étienne de La Boétie, condensou  um dos mecanismos centrais da servidão voluntária. O poder do tirano não se sustenta apenas por sua força própria, mas pela multiplicação de sua vontade através daqueles que, embora submetidos, tornam-se agentes da mesma dominação que os oprime. Como observa o filósofo, “le tyran tyrannise grâce à une cascade de tyranneaux, tyrannisés sans doute, mais tyrannisant à leur tour”  (o tirano tiraniza graças a uma cascata de pequenos tiranos, tiranizados sem dúvida, mas que tiranizam por sua vez). Há, nessa imagem, algo de profundamente inquietante: a tirania não desce apenas do alto para a base, como uma ordem imposta por um único homem; ela se reproduz em sucessivos degraus, de modo que cada dominado, ao encontrar alguém abaixo de si, vê-se tentado a reproduzir a mesma violência que sobre ele recai. Nesse viés, a servidão deixa de ser apenas uma relação política e converte-se em hábito, costume e até mesmo desejo, perpetuando-se por meio daqueles que, coetaneamente vítimas e instrumentos da dominação, sustentam com suas próprias mãos a estrutura sob a qual permanecem curvados.

[10]Adorno e Horkheimer (1985, p. 114) ilustram esse processo com um exemplo que, por sua precisão, merece ser contemplado com algum vagar: ao passo que o telefone, por sua natureza bilateral, ainda reservava ao usuário o papel de sujeito, pois aquele que fala também escuta e, nessa reciprocidade, subsiste o vestígio de uma liberdade, o rádio a suprime inteiramente; proclamando-se democrático, iguala todos os ouvintes, não por elevação, mas por nivelamento, sujeitando-os, de modo bem pouco democrático, aos idênticos programas das diversas estações, uma igualdade que é, no fundo, a mais bem-acabada das desigualdades, precisamente porque não se apresenta como tal.

[11]Adorno e Horkheimer (2009, p. 39) apontam a publicidade como o elixir vital da indústria cultural.

 

 

 


Créditos na imagem de capa: Merda d’artista (1961), de Piero Manzoni. Obra composta por lata metálica hermeticamente fechada, supostamente contendo 30 g de fezes humanas; dimensões: 4,8 cm × 6 cm; integrante de uma série de 90 exemplares. Exemplares encontram-se em instituições como o Museo del Novecento, o Centre Pompidou, a Tate Modern, a Staatsgalerie Stuttgart, o Herning Museum of Contemporary Art e outras coleções. Fotografia de Jens Cederskjold, realizada em 20 fev. 2010. Fonte: CEDERSKJOLD, Jens. Piero Manzoni – Merda D’artista (1961). Fotografia digital. Disponível em: Wikimedia Commons.