Falar do mundo transatlântico de Beatriz Nascimento é falar das diásporas imaginadas dos acontecimentos históricos que ressoam na escravidão do tráfico negreiro que demarcou o Atlântico de forma racial – o que criou condições para que Paul Gilroy (2002) o chamasse de “Atlântico Negro”².  Nesse sentido, o que será observado e defendido no decorrer deste ensaio é que a representação historiográfica do Atlântico negro não revela somente uma área objetiva com recortes temporal e territorial, mas sustenta uma subjetividade Beafricada¹, relacionada não apenas com a possibilidade de se falar em voz alta, mas também com encontrar no corpo algo que se sente antes do texto e que, em contato com linguagem escrita, traduz sentimentos humanos em um sentido da história. 

Aventa-se aqui que, hibridizando sentimentos historicamente dados e indivíduos históricos, tem-se um processo que nos ajuda a interpretar o fato de que “todo camburão tem um pouco de navio negreiro”.  Imaginamos, então, que esses dois eventos estão ligados por um processo de longa duração no território que já foi colônia, império, tornou-se república e que é atravessado por diversos acontecimentos, como lutas quilombolas, abolicionistas e os movimentos sociais que procuraram e ainda procuram trazer cidadania para a população negra brasileira, através de lutas e combate ao racismo.

Ao falar da experiência humana no tempo, a poesia permite que a memória se apodere da letra fria da história e insira um sentido poético na narrativa.

A memória em transe desvela os nós da dor física e mental, revelando o desejo de liberdade e denunciando uma pedagogia fundada na violência. Ao reelaborar o acontecimento catastrófico que foi a escravidão, a linguagem poético-mítico-temporal insere nas marcas da dor e da violência simbólica e física que propiciaram a coisificação de corpos negros um novo sentido para história que torna memória e desejo ações intensas para um corpo histórico. Quando da visita de Beatriz a Angola, sua capacidade questionadora fez memória, história e corpo se filiarem, ocorreu uma distensão temporal: a memória percorreu o mar e fez o corpo físico se tornar um corpo histórico diante do êxtase dos acontecimentos. 

Eu queria entender Angola como momento de estar-lá. Como uma travessia de volta. Rompendo todos os meus referencias que pudessem me ligar a esta parte ocidental do mundo. Fez um corte meridional-hemisférico. Foi a explosão da repressão …. Oh como foi lindo ver o território -mãe e viver nele como um feto no útero. A todos instantes eu recorria ao êxtase para estar diante dos acontecimentos Caucuaco, Funda, N’Dalatando, Luena. Dembo, Macondo, Massngano. (NASCIMENTO, 2022, p. 208)

As narrativas sobre as experiências de vida da historiadora e intelectual Beatriz Nascimento nos auxiliam a entender sua produção de categorias interpretativas sobre a questão da escravidão no Brasil e, ao mesmo tempo, podemos nos aprofundar na análise das experiências de sujeitos historicamente marcados pelo discurso que é clivado por um regime temporal violento que inaugura o colonialismo. Ao entender sua própria condição temporal, Nascimento alinha corpo físico e corpo histórico para que atuem juntos, uma conciliação entre memória e história para a produção de linguagem que crie elos do antigo com o novo. Um corpo exiliado pode encontrar o caminho de volta para casa tanto na memória como na história, um corpo aprisionado só encontra a liberdade através da temporalidade do desejo.

Entre luzes e sons, só encontro o meu corpo antigo. Velho companheiro das ilusões de caçar a fera. Corpo De repente, aprisionado pelo destino dos homens de fora. Pelo desejo de uma história que hoje conta sem culpas como fui desatento no instante de conquistar. Corpo mapa de um país longínquo que busca outras Fronteiras. Que ele me tem a conquista de mim. Quilombo mítico que me faça. Conteúdo das sombras das Palmeiras, contornos irrecuperáveis. Que minhas mãos tentam alcançar. Como a dos meus pais, caçadores. Tudo isso não resgata a dor. A um corpo histórico. A escravidão a um corpo histórico. /ele pode resgatar um corpo físico. Aquela matéria se distende mais ao mesmo tempo e justamente por isso traz com muita mais intensidade a história, a memória, o desejo. Desejo de não ter partido da África, por exemplo. O desejo de não ter vivido a experiência do cativeiro é o desejo de se libertar da história, ou seja, o sonho de superar a condição humana. Isso traz mais dor. (NASCIMENTO, 2022, p. 229-230)

A capacidade mediadora da categoria se extrai do entendimento interpretativo das noções de memória de Beatriz Nascimento, dado que a autora entende que exista uma memória específica que se manifesta em rituais afro-brasileiros, a memória do transe, e que o processo vinculado ao transe faça expandir a linguagem em compulsão por desejo. Nesse sentido, a história e a memória são articuladas pela pulsão do desejo que se expande para o cotidiano e se pronuncia nas relações sociais de tempo e de espaço como formas de existência e resistência contra a cultura da discriminação³. Quase que parafraseando o título do livro de Ricoeur, A memória, a história, o esquecimento, Beatriz abandona o esquecimento e o substitui pelo desejo. Nessa nova condição, a memória e a história continuam sendo categorias que se fundem no horizonte ao mesmo tempo que escapam criando horizontes inalcançáveis. Ricoeur assume que é possível falar sobre esquecimento de diversas formas, mas vê no perdão a última etapa do percurso do esquecimento, pois acaba por envolver a concepção de culpabilidade e oferece uma reflexão sobre as possibilidades de reconciliação com o que passado acaba por envolver⁴. Para Paul Ricoeur, “De fato o esquecimento continua a ser inquietante ameaça que se delineia no plano de fundo da fenomenologia da memória e da epistemologia da história” (2007, p. 423). O resultado da empreitada reflexiva sobre memória e história é que, dessa dialética, a síntese é o esquecimento, porém desdobrado no aspecto do perdão. Nascimento também observa tal relação dialógica, mas sob a ótica desejo. A relação deixa de ser dialética e se aproxima mais de uma condição de frequência: 

Discordando de que exista esse desejo definitivo de ser minoritário. Enquanto os homossexuais norte-americanos se recusam a ser marginalizados no seio da minoria, outros são maioria ou melhor dizendo, estão no lugar da maioria. Essa interação que se dá em um fluxo de tempo cronológico, funciona como uma frequência e não como um conjunto dialético. A maioria não é harmônica, está em constante deslocamento também para a maioria. Ser a maioria também é um dever para alguns. Entre as os minoritários, o que seria um desterritorialização vindo de um impulso do próprio descontentamento de estar fora do poder excluído empobrecido discriminado. (NASCIMENTO, 2022, p.99, grifos nossos)

O desejo altera as relações entre memória e história, provocando uma nova forma de se analisar a relação existente entre esses dois conceitos e fazendo surgir uma leitura do tempo cujo aspecto principal se concentra na ideia de frequência. A partir desse novo fluxo temporal, nomeado como frequência, derivamos nossa referência na enunciação de entendimento sobre o que é o presente. Um conjunto de ações temporais é modulado tanto pela memória e pela história como pelo inconsciente, no sentido de que o testemunho coletivo não apenas diz, mas sente que o navio negreiro está mais próximo do que um camburão.

O testemunho de Beatriz Nascimento na formulação de uma temporalidade que dê conta da experiência de ser negro não abandona a possibilidade de sonhar como uma metodologia. “O sonho de superar a condição humana” (NASCIMENTO, 2022) pode ser relacionado com a proximidade entre sonho e inconsciente, pois, como afirma Laplanche (1998, p. 237), “[…] o sonho é o caminho por excelência da descoberta do inconsciente”.

Para Beatriz Nascimento, um fluxo temporal baseado no desejo opera na tentativa de organizar os afetos, tomando como referência o discurso histórico. No entanto, é sabido que a história sem poder se torna um gesto pouco produtivo, é uma arma que faz o inconsciente atuar no sentido de desejar “[…] não ter vivido a experiência do cativeiro”, ou seja, “o sonho de superar a condição humana. Isso traz mais dor” (NASCIMENTO, 2022, p. 208).

Nascimento aborda o sonho como um lugar de poder, uma temporalidade no qual o fluxo temporal produz linguagem e na qual atos “(falhos, lapsos etc.) equivalentes aos sintomas pela estrutura de compromisso e pela sua forma de realização de desejo” (LAPLANCHE, 1998, p. 237). Temos assim um quadro em que a história é responsável pela dor de pessoas racializadas, mas, por outro lado, essa mesma história é a fonte de registros de marcas, um emissor de sinais e um local de arquivo das memórias.

Podemos aventar que a sugestão de Beatriz Nascimento de ter uma escrita da história feita por mãos negras seja uma forma de relacionar história e memória sem o compromisso com a dor. Nesse sentido, o desejo substitui o esquecimento, com o princípio de que “[…] exterior/interior, minoria/maioria, branco/preto, nada mais são do que contatos do inconsciente com o campo espaço/tempo que ele mesmo cria” (NASCIMENTO, 2022, p. 101). Nessa abordagem, promovida pela reflexão de Nascimento, a linguagem proveniente do discurso histórico se equipara ao desejo sonhado, torna-se memória e se renova como linguagem proveniente do sonho. O sonho é um lugar de poder, pois dele provém uma história que faz sentido, produzindo uma subjetividade marcada pela vontade de mudança e pela saída da alma do exílio.

A frequência se notabiliza como um fluxo temporal que transforma memória e história em seus subordinados, permitindo que o tempo ancestral se manifeste e ordene memória e história, produzindo tempos e espaços no campo da lembrança e na epistemologia da história, substituindo a dor causada pela “história dos humanos” e revelando o mito que permanece indiferenciável na vivência.

Nascimento propõe algo realmente ousado: escrever uma história da região do que ainda não foi tornado reflexivo, do lugar do mítico para além do recalque (dor do cativeiro). Talvez escrever desse lugar seja a única saída para se escrever “uma história realmente humana”. Propor essa saída é propor outro presente, ou melhor ainda, o presente só se concretiza quando é sonhado.


NOTAS:

[1] XAVIER, Arnaldo. Beafricanção / Todas (as) distâncias: poemas, aforismos e ensaios de Beatriz Nascimento. Organizado por Alex Ratts e Bethânia Gomes 200 p.: il.

[2]Título de música do grupo O Rappa, de 1994 do disco que leva o mesmo nome da banda. Compositores: Marcelo Lobato, Marcelo Fontes do Nascimento Santana, Marcelo Falcão Custódio, Alexandre Menezes e Nelson Meirelles De Oliveira Santos.

[3]“[…] o negro tem uma história tradicional onde subsistem ainda resíduos das sociedades africanas, mas tem, também, uma cultura forjada aqui dentro e que esta cultura, na medida em que foi forjada num processo de dominação, é perniciosa e bastante difícil e que mantém o grupo no lugar onde o poder dominante acha que deve estar. Isto é o que eu chamo de “Cultura da Discriminação” (Nascimento, 1976 apud Ratts, 2006, p. 40).

[4]Ler em Ricoeur (2007).


Referencias: GILROY, Paul. O Atlântico negro: modernidade e dupla consciência. Rio de Janeiro: Editora 34 Rio de Janeiro: Universidade Cândido Mendes, 2002.

LAPLANCHE, Jean. Vocabulário da Psicanálise. 3. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

NASCIMENTO, Beatriz. O negro visto por ele mesmo. São Paulo: Ubu Editora, 2022.

RICOEUR, Paul. A memória, a história, o esquecimento. Campinas/SP: Unicamp, 2007. p. 247-301.

XAVIER, Arnaldo. Beafricanção / Todas (as) distâncias: poemas, aforismos e ensaios de Beatriz Nascimento. Organizado por Alex Ratts e Bethânia Gomes 200 p.: il.


Créditos na imagem de capa: Autor foto: Raquel Gerber (Brasília, 1988, Visita à Fundação Palmares) – Acervo ÔRÍ.