O ano de 2026 registra marcos históricos de dois grandes símbolos da mineiridade. O primeiro refere-se aos oitenta anos de nascimento do compositor Fernando Brant. O outro assinala os sessenta anos do fechamento da Estrada de Ferro Bahia e Minas (EFBM), ferrovia que ligava Caravelas, no sul da Bahia, a Araçuaí, no Vale do Jequitinhonha. Embora Brant jamais tenha viajado por essa ferrovia — desativada em 1966 —, o parceiro de Milton Nascimento esteve no Vale do Mucuri e no sul da Bahia, em 1973, em uma jornada que marcaria profundamente a trajetória criativa do compositor mineiro.
No início da década de 1970, o Brasil vivia o auge da ditadura militar. Vozes silenciadas misturavam-se aos gritos de homens e mulheres submetidos à tortura. Quando circulavam, as notícias chegavam aos leitores filtradas pela censura. Era o tempo das revistas compradas em bancas de jornal. Um dos mais importantes periódicos da história da imprensa brasileira, O Cruzeiro, era aguardado semanalmente por milhares de leitores em todo o país.
Nesse contexto, Fernando Brant foi convocado pela revista, ao lado do fotógrafo Luiz Alfredo, para realizar uma reportagem sobre o que restou da EFBM, também conhecida na região por Bahiminas. Já consagrado por composições como Travessia, Brant percorreu os antigos pontos de parada da ferrovia em um Fusca cedido pela prefeitura de Nanuque — conforme seu próprio depoimento no documentário Estrada Natural: vida e morte da Estrada de Ferro Bahia e Minas, dirigido por Émerson Penha. Ao longo do trajeto, descreveu e se comoveu com as vidas que insistiam em sobreviver às margens da estrada já desativada.
O periódico chegou às bancas em 23 de maio de 1973, ao preço de quatro cruzeiros. Na capa um Médici com um largo sorriso abraçava um jogador do selecionado brasileiro de futebol. As matérias (eram duas) totalizavam 12 páginas. Traziam, em formato jornalístico, a sensibilidade poética de Fernando Brant. A começar pelos dois títulos dados: Caravelas: porto inseguro e A vida por um trilho. Nos diversos trechos da reportagem é possível identificar como a Bahiminas e seu território foi a fonte inspiradora para muitas letras em composições futuras.
Ao longo das páginas de O Cruzeiro, Brant descreveu as explosões de alegria provocadas pela chegada e a profunda dor do partir nas estações, experiências que mais tarde se materializariam na canção Encontros e despedidas. Ele próprio confirmou em entrevista ter a música nascida para “[…] um roteiro do ‘Segundo Balé do Grupo Corpo’. Eu e Milton fizemos ‘Maria, Maria’ e depois fizemos o ‘Último Trem’. E esse Balé contava a história do fechamento de uma estrada de ferro que ligava Bahia a Minas Gerais, Ponta de Areia. Ponta de Areia era a estação, mas a estrada de ferro era a Estrada de Ferro Bahia e Minas” (Fernando Brant, Programa Café Filosófico).
Desnecessário citar Ponta de Areia como inspiração mais visível dessa viagem. Mas, outras canções, como Roupa Nova, também dele e Mílton Nascimento, é claramente baseada na reportagem, especialmente na entrevista feita com D. Rosaura. Ela recordou a extinta ferrovia e fala do marido maquinista Joaquim Bitu – provável inspiração para o personagem Pinduca da música. Brant escreveu: “E ela se lembra do apito do trem apontando ao longe, depois contornando gloriosamente a Praça de Ponta de Areia (Ouve o apito, sente a fumaça/ E vê chegar o amigo trem) carregado de toras de peroba e jacarandá, o marido acenando ao passar em frente a sua casa (“E quem viaja pra capital Não tem olhar para o braço que acenou”). Rosaura […] sonha com a alegria de viver até que voltem as máquinas matraqueando em cima dos trilhos e, com elas, os seus filhos, que trabalham em outros ramais” (Ele vai parar/ Quem é teimoso não sonha outro sonho, não/Qualquer dia ele para).
Por fim e não menos importante, tudo sinaliza que foi na vida ainda existente às margens da antiga linha da Bahia e Minas que inspirou a música Maria, Maria. É Mílton Nascimento quem relata a origem da canção: “A história da Maria quem me contou foi o Fernando Brant. Fiquei com isso direto na cabeça depois que ele descreveu a Maria que ele conheceu. Ela morava na beira dos trilhos, em Minas Gerais, criava os filhos sozinha e passava muita dificuldade. E mesmo com tanto sacrifício ela fazia de tudo pra manter os filhos na escola” (Folha de São Paulo, 08 março 2022).
Ao longo dos dois textos publicados em O Cruzeiro, Fernando Brant registrou lugares e pessoas, pois, segundo ele “[…] milhares de histórias são contadas ao longo do leito abandonado da Antiga Bahia-Minas”. Não há preocupação em seguir a ordem linear do percurso do trem: “Mayrink, Presidente Pena, Bias Fortes, Francisco Sá, São João, Mangalô, Pampam, Charqueado […]”.
Recordou uma Caravelas que “[. . .] parece que parou no tempo. Luz elétrica, só durante cinco horas (de seis às 11 da noite)”; onde era “[…] comum o espetáculo dos burrinhos vendendo barris de água potável para matar a sede dos aflitos”. E transitavam pelas “[…] ruas homens e meninos carregando feixes de siris, caranguejos, guaiamuns e peixes”. Ali as conversas ocorriam pelas cadeiras espalhadas nas calçadas e que de noite se dormia de portas e janelas abertas. Resgatou em Helvécia, sul da Bahia, o projeto fracassado de D. João VI em branquear com suíços o Brasil. Falou do abandono dos também distritos baianos de Argolo e Posto da Mata percebido no “[…] barulho das sinuquinhas em um boteco, ruas vazias, empoeiradas”.
Já em Minas Gerais, no povoado onde era a estação de Mayrink, registrou a voz distante de seu Loló, ex-Bahiminas, “[…] lendo salmos e cantando hinos, explicando a função do cristão […]. O chiado das máquinas a animação dos passageiros embarcando e desembarcando a algazarra do pequeno comércio foram substituídos pelo canto desafinado”. Sem a preocupação de ser fiel à sequência do trajeto, volta à cidade mineira de Nanuque, se sensibilizando com vida que levava d. Laurita, “[…] mulher do maquinista aposentado Manoel Benedito, que, graças a um favor especial de um antigo diretor da estrada, guarda uma lembrança especial dos bons tempos: mora num vagão da EFBM”. Não seria D. Laurita a nossa Maria, Maria?
Ao final, brincou com o antigo sonho de Minas em ser “um estado marítimo” (que ligava Minas/ ao porto ao mar). Para tanto, retomou a velha polêmica da compra mineira pela quantia de trezentos contos de réis, em 1910 “[. . .] de um trecho do extremo sul da Bahia, que vai dar em Caravelas, Ponta de Areia e Barra de Caravelas”. E arrematou a matéria da revista o Cruzeiro com a doçura lírica brandtiana: “No mapa do Brasil, é apenas um fio de terra. No mapa de Minas, um fio de esperança, caminho que vai do sonho à realidade [. . .]. É apenas um fiapo no mapa (142 por 12 quilômetros), mas é o quanto basta para Minas. Um fio de linha, uma modesta e tímida maneira de se chegar ao mar [. . .] falta a posse de fato para que o mineiro possa um dia dizer, debaixo das amendoeiras de Grauçá e Aracaré: ‘Olha aí o nosso mar’”.
Fernando Brant nos deixou em 2015. Tão prematuro como a Bahiminas. Percorrer com o poeta novamente a ferrovia que já não existe mais é o que nos resta. Seguir todos no trem imaginário que nem ele e nem nós viajamos. Sentir saudade do que não conhecemos. E conhecemos tão bem. Não é a isso que se presta a música e a poesia?
Créditos na imagem de capa: Márcio Achtschin Santos
