O colar era cheio de contas. As contas eram cheias de colar. De conta em conta, cola em cola, na saída da escola ela conta:
– Que bonita!
Que beleza bonita essa dessa Anita Bonita. Uma beleza diferente. Uma lindeza tão diferente que não parecia bonita. Parecia Anita. Parecia uma Princesa de Weimar, uma weimaraner. Uma menina dessas de ver o mar e mergulhar. Um menino desses de ser mar e ser sempre mergulhar. Mergulhar e mediar. Ser o mediador. A polivalência. Os filhos dela contam:
– Onde se encontra? Para quem se conta? Com quem eu brinco? Qual o desejo pendurado pelo brinco?
Valdevino saiu de fino e disse:
– Essa história não tem nada a ver comigo, me deixa de fora que me abrigo no livro, sou apenas um nó narrativo. Somos apenas nós narrativos. Essa história não me pertence, não me presenteie com prazeres. Não me penteie. Somos apenas nossos umbigos. Aqui não se trata de figos, não se trata de digeri-los. Aqui o pomar é de amoras. Só há receitas de bolos, geleias e tortas. Tudo que encompride as ligações e os ligamentos entre as ligas, os recheios e as coberturas.
Dessa vez, não era uma vez, mas o tempo de cozimento.
O Cupido tinha dez anos. Ele quem conta. É ele quem desembrulha o papel pardo do pirulito e retira dos buracos do tabuleiro cada um dos pirulitos que adoçam a voz da pajem, o caramelo, o processo de caramelizar, a fotografia da estalagem, a imagem do tabuleiro de pirulitos que batem, batem e já bateram.
O papel embala o céu. Da boca, o céu da boca conta:
– A Mulher-das-eras, quase sem enxergar, abriu os olhos em tato, em vocábulos que manuseavam seus lábios, em tantos outros vocábulos que abriam a voz, os olhos de seus lábios. A boca beijou a boca da Mãe-das-narrativas e o amor virou irmão, virou incesto. Moisés na corrente e na correnteza. Quais as certezas?
– José, fala alguma coisa bonita? Fala de Anita … você sempre diz coisas tão bonitas!
A exclamação se fez sílaba, sibilou … Anita se abriu em tinta, em trinta gomos, sem cinta-liga no vocabulário de José:
– Não fui ao almoço porque me faltaram vistas que alcançassem as vistas. Não tinha roupa, não tinha cinto, não tinha camisa. Não fui porque me prenderam as sobras de roupa no prendedor de roupa, me prenderam às sombras. Não fui, pois me vesti de preguiça.
E continuou:
– Perdi a noção de mundo, o cinto e o sentimento de mundo. Perdi aquilo que me prendia no mundo. Perdi a cinta das suas ligas, tudo o mais que me amarrava ao mundo. Perdi a cabeça tal qual Valdevino, tal qual o menino, e não sei quem sou. Perdi meu músculo raptado por um menino, um guri girino que engoliu uma bala de goma e se metamorfoseou. Rosnou. Ronronou.
Anita se esticou tal qual o caramelo na ladeira:
– Deixa que te grude, deixa que as bolinhas de gude encontrem as de sabão e a estrutura da bolha de sabão se rompa; afinal, é só um conto que te conto, um conte que te conte, é só um conto. É só um corte, uma relação não mais de corte. Uma cordialidade que desafia as margens. Afinal é só a tromba do elefante, o trompete do topete de Cecília que aguarda a vez de ser todo conto e boca. Afinal são sempre as reticências … afinal é sempre o batom que borra a boca quando o beijo beija. Quando ele beija, ela beija.
Assim, os oito oitos de resto de conto dos oito milhões de vocábulos da Mulher-das-eras trovejaram e disseram:
– Tenho quatro planetas em virgem, deixa contar direito. Deixa que cada um te conte o conto e o princípio do conto. Restabeleço a cabeça. Tenho sol em virgem e a vertigem no precipício. Princípio e salvo o Príncipe. Sou o guardião do portão do Leão. Sou o signo que serve o signo. Sou o elemento de servir o Leão. Sou o captador do ronronar do Gato. O recolhedor do rosnar do Leão e dos guardanapos não usados daquele não almoço.
E o sol, anunciado pelo grilo que canta a história na janela dela, ainda questionou:
– Onde entro?
Sobre o sol sobe e encobre uma canção de amigo. O Leão na casa dez e o Escorpião que não me deixa mentir.
O Cupido tinha dez anos. O menino tinha vergonha de contar a história que o envergonha. O menino tinha dez histórias repetidas, dez figuras para trocar na mão, para trocar com a língua, mexer com a língua sua lida. E os dez anos do Cupido eram engolidos, eram transformados na vergonha do menino. Os dez anos eram esquecidos e restabelecidos num assim se passaram dez anos. Na figura de um compositor baiano de cabelos brancos.
José desceu as escadas como quem desiste de andar pelos degraus. Como quem dos degraus desce um labirinto. Como quem insiste no poço. Olhou ao redor. Não tinha outro. Não tinha balas. Era pele e osso depois do almoço. José perdeu os olhos em tantos encontros e desencontros, em polióticos que nem te conto; tudo porque trocava as figuras repetidas do Cupido e seu álbum nunca se fazia preenchido. Tudo porque vendia balas e ninguém as comprava.
Foram necessários séculos de baldes para esvaziar o poço, até que o rosto ficasse roto e os fios e os fatos e os fiapos dessem a volta e envolvessem em laços, em fios de ovos, em nós pelo pescoço. Foram necessários muitos anos para que retirassem, de fato, os espinhos dos olhos do Príncipe. Não sei se conto. Não sei se é esse o conto. Não sei se é bem assim ou se dou um desconto. Mesmo assim te conto.
A Lua gargalhou e disse:
– É um Príncipe, é um Príncipe, é um Príncipe. Por que não se olham direito? Por que essa mania, essa não magia, essa desmedida mania de não se olhar direito?
Era pelo avesso que o Príncipe olhava para a Princesa. E no direito de ver e de ser visto, naquele de não ver o que é evidente, ninguém se via, nem nunca tinha se visto. E o pronome não era nome, o sobrenome não sobressaia. Sabe-se apenas que era bonita, era menina. Sabe-se apenas que era Anita. Era José e dizia coisas bonitas. Coisas bonitas sobre Anita. Coisas bonitas sobre ele e sobre ela: os crisântemos. Os crisântemos amarelos, os brancos e os vermelhos. Somos todos crisântemos. Por que não querê-los? Desejá-los e nunca tê-los. Temos? Tememos. Teremos?
Que bonita! … a menina que não sabia desamarrar as vistas não sabia da entrevista. Ficou entretida com o papel de bala, com as impressões digitais no açúcar e com a chuva atingindo suas vistas. Não sabia desamarrar os sapatos, ainda que nisso não houvesse semelhança, apenas trança, dança, distância, nunca verossimilhança. Verdade semelhante à mentira. Mentira semelhante à verdade. Mentira foi na veia da verdade. Maria Mentira. Maria de todos da rua. Maria de todos os dias. Maria discursando na paulista. Quem a vista? Disse que um dia, há dez anos, reconheceu o caminhão na avenida. Gás, balão. Luz balão. Maria distribuindo histórias em todas as distribuições de história. Maria distribuindo o bujão. Atribuindo filhos à narrativa.
Cecília conduz a entrevista, entre olhos que não se olham, entre vistas de coelhos caolhos:
– Quando criança tinha mania de colocar o nariz no batente das portas. Um olho dentro do quarto. O outro no corredor dos quartos. E permanecia na pose até que a madeira e a mão de tinta esquentassem minhas narinas, até que minhas vistas se fizessem vesgas na beleza de uma cantora negra. Olhava para dentro, olhava para fora. Sabe o que isso significa? As cores das íris faziam telas inteiramente impressionistas. A impressão do quarto me assustava. A de fora me dava vertigem. Era virgem, mas o planeta que contava, que importância dava e nomeava, era Vênus. Eu o guardava em maneirismos. Mania de menina, de azul sempre vermelho, olhar com olhos esquizofrênicos. Olhar para o leão como um gato, para o gato como um rato. Olhar errado. Olhava para dentro e me assustava, olhava o menino que olhava para dentro do menino.
O menino era Anita. Anita era ele, mesmo que dentro deles ninguém mais os habite. Habite-se. Abisme-se: José era Anita. Anita era José:
– Queres que chore? Me conte então uma triste short story.
A Mulher-das-eras disse:
– Você está falando de si, não dos outros. Você não vai acreditar, mas daí, quando terminar de subir a ladeira, talvez aviste e te conte do conto que conta da paisagem, uma vez que o uma vez da história era a paisagem na paisagem, era a memória da viagem. Não sei mais nada das esquinas. Esquivo o medo do peito que pode me aprisionar o peito. Conto e esqueço. Só sei que a menina era bonita. Lindeza no nome e no codinome.
Sobrenome? Sobremesa. Anita Bonita Sobremesa. Codinome beija-flor. Codinome lindeza. Por isso glosa a luz de um nome dotado de luz e beleza. Por isso narra Luciana quando Nina não ainda. Por isso dorme menina. Esquece a cabeça.
A Lua desfez as tranças e anunciou a glosa para o mote.
– Que em seu pote tenha sempre mel, melado, lambuzado e seja repleto de certas certezas. Que a cereja seja certeza. Tudo que te disse, te disse, cerejinha, certezinha.
E o diminutivo era afetivo e também contava a história. O resto adormeceu com a Princesa. Foi atingido nas pontas dos dedos pela roca da Bela Adormecida. Foi a Bela Adormecida. O cesto de amoras, o amor que nunca vai embora:
– Quando criança, eu comia amoras e nunca imaginei que pudesse jogá-las fora.
No dia do sim, a glosa transbordou a borda e o bordado nas bordas do tabuleiro gritou:
– Foi a menina que contou a história. A verdade verdadeira e a mentira de mentira. Aquela mentirinha de mentirinha. Mentirinha de padaria. Aquela menina que não era menina. Foi ela que nas fibras da vargem destampou o poço e da vagina gozou pelo pasto no rosto do retrato. Depois me acho. Agora, vou embora e deixo a glosa finalmente para meu mote. Vou até ali e já volto.
Que a morte não mate o amor que morre com a morte, que a narradora de outrora seja Aurora, seja Gorda Gordona e faça a mágica de narrar da experiência humana a morfologia dos contos de fada, as almas aprisionadas; que a partir de agora a menina acorde e conte a glosa desse mote.
Créditos na imagem de capa: Tela ‘Crianças com balão’, de 1961 — Heitor dos Prazeres. Disponível em: https://oglobo.globo.com/cultura/artes-visuais/noticia/2023/06/retrospectiva-no-ccbb-destaca-perfil-multimidia-de-heitor-dos-prazeres-e-a-importancia-historica-de-sua-obra.ghtml
Eduardo Sinkevisque
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