Nos meses que circundaram a eleição de Jair Bolsonaro, em 2018, o observador atento não podia se esquivar da pergunta que circulava pelas redações de jornal, corredores das universidades, seminários acadêmicos e mesas redondas televisivas: como classificar o bolsonarismo? Qual, das tantas categorias à disposição, seria a mais adequada para tratar do fenômeno? Fascismo, populismo, neoconservadorismo, autoritarismo competitivo e democracia iliberal (para ficar em apenas alguns exemplos) foram conceitos trazidos para dar conta do fenômeno enquanto nós, historiadores, éramos convocados como poucas vezes na história recente a intervir no debate público. Se, contudo, as discussões que se seguiram foram tão intensas quanto inconclusivas, a política não se deixou suspender pela disputa taxonômica. Passada quase uma década de sua emergência, o fenômeno que se buscava nomear mostrou-se menos estático do que as categorias chamadas a defini-lo e uma questão de ordem semelhante parece provocar os analistas: pode haver bolsonarismo sem Bolsonaro?
O impulso que anima a nova pergunta é menos original do que pode parecer. Se antes se buscava determinar o que o bolsonarismo era — como se houvesse uma essência a ser revelada — agora o que se indaga é se ele ainda o é. Sob ambas as formulações, há um fundo de essencialismo: supõe-se que o bolsonarismo possua uma identidade própria, anterior a suas rearticulações históricas, que poderia ser fixada de uma vez por todas. A possibilidade mesma de indagar sobre a sobrevivência do “ismo” parece pressupor que goze de uma racionalidade que garanta sua coesão interna — a despeito da inconclusividade dos debates acerca de sua natureza, nos idos tempos da eleição que levou Bolsonaro ao Planalto. A ansiedade classificatória reaparece, assim, sob nova forma.
O problema, evidentemente, não reside em indagar-se acerca das características de uma formação política, ou buscar nos conceitos alicerces intelectuais para que possamos compreendê-la. Nas ciências humanas, interrogar categorias e produzir ou questionar analogias históricas são gestos do bom pesquisador. O risco surge quando a disputa pelo rótulo passa a organizar o debate de modo demasiadamente estreito, como se o consenso acerca dos termos corretos para tratar um fenômeno fosse condição prévia para compreendê-lo. Ao concentrar energias em perguntas, como estas, excessivamente simples, corre-se o perigo de deslocar a atenção daquilo que talvez devesse estar no centro da análise: as práticas de poder e articulações hegemônicas que, a nível macro, dão o tom da disputa política e, a nível micro, darão aquele das eleições de 2026.
Uma perspectiva inspirada no historiador e politólogo Ernesto Laclau e na Escola de Essex de Teoria do Discurso pode sugerir outro caminho. O que se revela, então, é que a indagação sobre a sobrevivência do bolsonarismo frequentemente repousa sobre uma premissa histórica discutível: a de que ele teria sido um episódio circunscrito, um desvio momentâneo na trajetória democrática brasileira, cujo início e fim poderiam ser claramente delimitados. Essa leitura — que, por vezes, o toma como acidente institucional — tende a obscurecer continuidades de mais longa duração.
Se a unidade de um movimento político é efeito contingente de uma articulação hegemônica — e não expressão de uma essência preexistente — então a questão decisiva não é saber se o bolsonarismo continua sendo o que era, mas compreender como se rearticula quando o lugar da liderança se torna instável. Antipetismo visceral, moralismo religioso, nostalgia autoritária e desconfiança em relação às instituições representativas já circulavam antes de 2018. Jair Bolsonaro funcionou como ponto de condensação dessas disposições, oferecendo-lhes forma e visibilidade. Foi sob sua liderança que puderam alinhar-se sob uma mesma oposição — um “nós” virtuoso contra um “eles” corrupto e ameaçador.
O que procuramos dizer é que a unidade não precedeu esse processo; ela foi produzida por ele, e gradativamente. Ao longo dos anos em que exerceu mandato como deputado federal, Bolsonaro incorporou paulatinamente elementos discursivos advindos de matrizes tão distintas quanto militares e neoliberais, teceu alianças estratégicas e se promoveu por meio de pautas alheias a sua base eleitoral (notadamente, o “kit gay”, em 2010, responsável por aproximá-lo de lideranças do Escola Sem Partido). Nos anos que precederam sua eleição, empenhou-se para se apresentar simultaneamente como militar disciplinado, outsider e defensor da família. Às suas vésperas, adicionou ao conjunto das bandeiras que brandia aquela do liberalismo.
Nesse sentido, o que parece interessar de fato é acompanhar as maneiras como o bloco histórico (para usar um termo gramsciano) que ele logrou representar se transforma quando a posição de liderança se torna incerta. Flávio Bolsonaro, inesperadamente primeiro filho na linha do trono, herda um nome, mas não necessariamente a mesma capacidade aglutinadora. Uma série de dúvidas começa a se colocar ao anúncio de sua candidatura: o que representa o fato de que sua trajetória política seja distinta, seu perfil menos carismático, sua relação com os militares frágil e sua inserção no universo evangélico dificultosa? Houve um momento em que a figura de Jair Bolsonaro se tornou o centro de uma articulação hegemônica capaz de organizar o campo político por meio de antagonismos claros e de uma promessa de restauração. Essa ponte, porém, foi erguida em circunstâncias específicas. Interessa observar como essa articulação se reinscreve numa conjuntura histórica distinta daquela que a tornou possível.
Em 2018, a narrativa de redenção encontrava um terreno fértil: crise econômica recente, desgaste do sistema político, Operação Lava-Jato no auge de sua legitimidade pública, sensação difusa de colapso moral e institucional. A promessa de limpar, restaurar e moralizar operava como horizonte de futuro para um presente percebido como degradado. Essa dimensão fantasmática — a ideia, por um lado, de uma ameaça vermelha que traria o caos e a ditadura e, por outro, de que uma reação redentora seria capaz recolocar o país “no eixo” — mobilizava afetos, produzia identificação e sustentava o investimento subjetivo necessário para que aquela articulação adquirisse força política. O cenário atual é, evidentemente, bastante diferente. Nele, a memória desempenha um papel fundamental. Há memória da pandemia, da tentativa de golpe de Estado, da prisão e tentativa de fuga. Esses incidentes operam um deslocamento da própria fantasia bolsonarista: o que antes era promessa de ordem agora é confrontado com uma memória de caos. Há, do outro lado, a memória do terceiro governo Lula. A questão que se coloca é se a antiga fantasia ainda pode demonstrar-se capaz de produzir o mesmo grau de investimento afetivo sob condições históricas transformadas. Flávio Bolsonaro tenta reivindicar esse legado, mas o tempo não é neutro: ele reconfigura os afetos disponíveis, altera a credibilidade das promessas e redefine os limites do possível.
Estamos, bem à maneira que nos encontrávamos às vésperas da eleição de Jair Bolsonaro, diante de uma rearticulação hegemônica no seio da direita. O verdadeiro trabalho intelectual não consiste em antecipar o resultado eleitoral ou buscar estabelecer taxonomias estáticas em um momento de instabilidade. Deve-se, sim, acompanhar como se recompõem fronteiras políticas, as maneiras como se busca suturar novamente as fraturas do campo social; as formas como se reativam — ou não — as narrativas que estruturam o desejo coletivo. É nesse movimento que se pode compreender o arranjo hegemônico em sua instabilidade constitutiva e, o bolsonarismo, como traço da contingência dentro da estrutura. O que está em jogo não é sua continuidade, mas sua capacidade (ou não) de reativar os afetos que lhe deram força e manter unidas demandas que não se articulam espontaneamente. No intervalo entre mobilização e recomposição, estratégias político-discursivas e afetos, memória do passado e experiência do presente decide-se o futuro do bolsonarismo.
Créditos na imagem de capa:
Reuters
