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Ensaio

Carta de uma pesquisadora marginal: malandriar a branquitude na Universidade Pública

Malandro é o cara que sabe das coisas, malandro é aquele que sabe o que quer, malandro é o cara que tá com dinheiro, e não se compara com um Zé Mané.

(Bezerra da Silva)

 

Esta carta-ensaio parte da minha experiência como pesquisadora negra e periférica em uma universidade pública brasileira para refletir sobre o papel da produção do conhecimento contemporâneo no Brasil e a centralidade da branquitude como dispositivo de gestão da desigualdade epistêmica. Falar sobre essa experiência surge como tentativa de evidenciar as desigualdades que atravessam a produção acadêmica e a urgência de visibilizar o lugar da produção do conhecimento marginal na universidade.

Além disso, a carta é, ao mesmo tempo, um testemunho e um gesto de solidariedade e apoio àqueles que, dentro da universidade pública, são invisibilizados e têm seu modo de pensar menosprezado. Com isso, defendo que o conhecimento gerado nas periferias e na classe trabalhadora não deve ser apenas estudado pelos intelectuais brancos pertencentes a uma cultura cânone como objeto de estudo. Ele deve ser reconhecido como uma voz ativa e legítima na construção do conhecimento público contemporâneo, uma voz produzida por quem vive, fala do seu local de fala e se coloca como protagonista e agente transformador.

Meu nome é Luana Brunely, sou cria de Cariacica, do bairro VG (Vila Graúna), localizado na periferia da Grande Vitória-ES. Foi de lá que parti para Ouro Preto e depois para Mariana-MG, onde hoje sou moradora do BSA (Bairro Santo Antônio). Atualmente, sou mestranda em História pela Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), lugar onde concluí a graduação e me envolvi com a pesquisa acadêmica. Lembro das minhas primeiras aulas do curso de História, quando escutei que “um bom historiador deveria saber ler e escrever muito bem”. Naquela época, recém-ingressada na universidade, vinda de uma escola pública periférica, senti naquele gesto da professora que minhas dificuldades com a língua portuguesa começariam a se tornar uma grande barreira, uma barreira que me limitaria a ser uma “boa historiadora”.

A universidade, mesmo sendo um lugar de saber que deveria ensinar as pessoas dentro das suas dificuldades educacionais específicas, sem julgar certo e errado, mas sim valorizar o desenvolvimento do aluno, acaba reproduzindo e produzindo exclusão e subalternidade. Segundo Pierre Bourdieu (2003, p. 5-10), a escola não se limita a avaliar o aprendizado dos alunos, mas também transmite, de forma legítima, certos padrões culturais e até valores morais. Nesse contexto, a atuação do professor ganha especial relevância, pois seu estilo de ensino e critérios de avaliação acabam por impor uma maneira “distinta” de falar, escrever e se portar, sempre visando formar os chamados “bons alunos”. Embora a instituição escolar aparente ser neutra, Bourdieu destaca que, na prática, ela atua como um espaço que consagra a cultura dominante e deslegitima as manifestações culturais das classes populares. Nesse sentido, o que me assombrava nos primeiros períodos da universidade iria limitar meu desenvolvimento.

Nesse processo, comecei a notar que meu comportamento em sala de aula havia mudado. No ensino médio, eu era participativa, tirava as melhores notas, aparecia nos murais como aluna destaque. Na universidade, isso mudou. A vergonha de falar errado, de não dominar a norma culta, as notas baixas, tudo isso me fez desenvolver uma baixa autoestima intelectual. Por mais que amasse estudar e estar na universidade, comecei a questionar se aquele lugar era para pessoas como eu.

Com o passar dos períodos, comecei a ter contato com as discussões sobre as desigualdades sociais e históricas que se manifestam na estrutura de conhecimento presente nas instituições públicas e privadas no Brasil. Foi então que compreendi, com outras lentes, que o que antes parecia uma falha individual, na verdade, era a manifestação das desigualdades e da subalternização por conta das barreiras sociais que o ensino impõe às pessoas negras e periféricas, devido ao racismo presente em nossa sociedade.

Uma pensadora importante que me ajudou nesse processo foi Lélia Gonzalez. Ela apontava que o português é uma língua imposta pelos colonizadores para silenciar e subjugar as populações negras e indígenas, e que esse racismo opera enquanto prática cotidiana. Gonzalez também me ensinou que a fala e o saber das margens, expressos no que ela denominou “pretuguês”, não são desvios ou erros, mas sim manifestações legítimas de uma cultura que resiste, recria e produz conhecimento a partir da experiência da diáspora. Com isso, comecei a entender meu lugar de fala na produção de conhecimento, um lugar que não está no centro da produção, mas na margem.

A falta de sentimento de pertencimento ao espaço universitário também não se limitava somente a esses fatores, mas também à falta de acolhimento dos professores, que em sua maioria são pessoas brancas e pertencentes à classe média. Outro ponto importante a ser mencionado é o ambiente hostil, que me limitava a pensar e existir de outra maneira como intelectual que não reproduzisse a produção do conhecimento de cima para baixo ou se comportasse como uma intelectual clássica.

Como integrante do movimento Hip Hop, minha maneira de ver o mundo tem como referência o processo de aprendizagem vindo da rua enquanto uma escola a céu aberto. A rua é uma escola que ensina coisas boas e ruins, e o movimento Hip Hop surge como uma pedagogia de rua que visa conscientizar e promover uma luta social contra as injustiças sociais. Por meio dessa vivência íntima com essa cultura, comecei a me posicionar diferente na academia.

Assim, comecei a pensar formas de malandriar o sistema e utilizar a malandragem como uma tecnologia de sobrevivência contra o apagamento cultural e identitário que estava passando naquele momento. Busquei usar a malandragem de rua como uma inteligência política. Nesse processo, conheci o Vitor Rocha, um grande amigo que estava passando pelas mesmas dificuldades que eu, e com isso começamos a nos fortalecer nesse ambiente.

Cabe apontar também que, nesse período, encontrei a professora Janete Flor de Maio, que trabalha a construção do pensamento afrocentrado, e esse encontro foi um divisor de águas para começar a criar uma autoestima como pesquisadora marginal. No entanto, as dificuldades ao longo desse processo também iam aumentando à medida que começava a lutar pelo espaço da produção de conhecimento.

Quando iniciei a pesquisa de iniciação científica, me deparei com muita dificuldade para encontrar um orientador. Como estudo as relações coloniais na prisão brasileira, além de não ter no departamento pessoas especializadas no assunto, também notava a falta de interesse dos professores em querer orientar e me ajudar nesse processo. Mesmo assim, consegui escrever e desenvolver a pesquisa com uma pessoa que se dispôs a assinar o projeto e submetê-lo por mim. Porém, esse processo foi muito doloroso, pois eu tinha muita dificuldade em desenvolver a pesquisa e, por isso, encontrei diversas barreiras que tive que enfrentar sozinha. Vale ressaltar a importância de alguns amigos nesses processos, que me ajudaram a debater a pesquisa ou revisaram textos que submeti em revista e eventos acadêmicos. Essa troca me dava gás para continuar.

Uma coisa que me marcou nessa trajetória foi quando participei do Encontro de Saberes da UFOP em 2023 para apresentar a pesquisa do I.C. No evento, muitos professores não me deram ouvidos, além de outros que me fizeram críticas ao ponto de eu ficar tão triste e irritada que saí do local chorando. O mais contraditório dessa história foi quando ganhei menção honrosa dessa pesquisa nesse mesmo evento. Essa realidade de subalternidade não é só minha. Pensadores como Franz Fanon, Sueli Carneiro, Conceição Evaristo, entre outros intelectuais negros, passaram e ainda vivem com o processo de marginalização do conhecimento acadêmico. Fanon teve seu Trabalho de Conclusão de Curso negado na faculdade, e posteriormente esse mesmo trabalho viraria uma grande obra para entender o trauma colonial, Pele Negra, Máscaras Brancas (2008).

Esse processo de apagamento não é exceção, é regra. A universidade, que se apresenta como espaço do saber universal, opera na prática como um dispositivo de silenciamento das vozes negras e periféricas. Carneiro (2005) chama isso de epistemicídio: um processo de desqualificação sistemática do saber produzido por negros e negras, operado pela universidade e pelas instituições de conhecimento, que resulta na morte ou marginalização dos conhecimentos não brancos. Esse sistema hierarquiza saberes e elege o conhecimento europeu como universal, enquanto deslegitima o pensamento negro como menor, subalterno ou inexistente. É exatamente isso que vivi: minha fala, minhas referências, meu modo de pesquisar, tudo isso foi constantemente colocado à margem.

Por meio dessa vivência, compreendi que o que eu vivia não era um conjunto de obstáculos isolados como a professora que duvidava da minha escrita, minha pesquisa que não encontrou orientação nem interesse por parte dos professores, ou até mesmo as críticas que recebi na apresentação de iniciação científica para depois vir a ganhar Menção Honrosa em um evento do qual saí triste e chorando. Eram manifestações da gestão da branquitude enquanto dispositivo de exclusão, silenciamento e marginalidade. Não entendo branquitude na produção do conhecimento nesta carta como uma identidade individual da maioria dos meus professores brancos e de classe média, mas como o lugar estrutural de poder que, historicamente, define o que é “conhecimento legítimo”, “boa escrita” e “pesquisa séria” a partir de referenciais da cultura branca.

Como resistência a tudo que vivi e ainda enfrento, comecei a criar uma autoestima intelectual como pesquisadora marginal. O Hip Hop me ajudou muito nesse processo, ao me empoderar para falar da minha história e do meu povo a partir da minha vivência. Tenho como objetivo construir um conhecimento que reconheça o lugar de marginalidade e, ao mesmo tempo, luto por esse reconhecimento. E, para isso, é preciso ter muita ginga e muita malandragem de rua.

Minha malandragem contra a gestão da branquitude na universidade começa no final de 2023, quando me juntei com um grande amigo, Paulo Rogério, vulgo “Aquiles o Poeta”, e fundamos o Coletivo Conexão Zulu. O Coletivo busca construir uma educação voltada para as camadas populares, utilizando os cinco elementos do Hip-Hop (grafite, DJ, break, MC e o conhecimento) para valorizar a periferia e promover a igualdade social, a transformação social, a expressão cultural e a emancipação. O projeto surge da necessidade de entender a importância da construção de uma educação popular que reconheça a rua enquanto produtora de conhecimento.

Em 2024, em parceria com uma servidora da UFOP, submetemos o projeto “Os 5 elementos da Rua”, vinculado ao Programa de Incentivo à Diversidade e Convivência (PIDIC). Esse projeto durou um ano e conseguimos mais dois membros para o coletivo, Mirian dos Santos e Natanael Marques, que foram importantes para a estruturação do Conexão Zulu. Os dois também ganharam uma bolsa durante esse processo. Sabemos que a dificuldade de uma pessoa periférica na universidade vai além do processo de ensino, abrangendo também as questões financeiras, por isso, essa garantia de um ano de bolsa para os membros do coletivo foi extremamente importante para assegurar a permanência deles na faculdade. O coletivo permanece atuante e, neste ano, completa três anos de trabalhos nas cidades de Mariana e Ouro Preto. Os projetos do Conexão continuam a todo vapor, e este ano também vamos dar continuidade ao projeto que desenvolvemos na Apae de Ouro Preto, viabilizado pela Política Nacional Aldir Blanc.

Além disso, no ano de 2024, fui convidada para idealizar e coordenar o programa “Visão de Baixo” vinculado à Rádio Plural. O programa buscava produzir podcasts pelos alunos da UFOP. O projeto tem como objetivo apresentar e reconhecer a visão da intelectualidade popular sobre conteúdos históricos, sociais, econômicos e políticos. Os podcasts também buscavam enriquecer o debate público com programas que valorizavam diversas abordagens sobre assuntos plurais, construindo o conhecimento de baixo para cima, o que inspirou o nome do programa. Os episódios também abordavam temas pouco debatidos no espaço universitário, como a história das pessoas negras e dos povos originários a partir de suas vivências, além de entrevistas com alunos e pessoas da cidade de Mariana. Desse modo, os dois trabalhos expressam a minha luta pela valorização e o reconhecimento dos saberes marginais. Hoje não faço mais parte do projeto, porém tenho muito orgulho de ter idealizado ele.

 Cada passo dado na academia é uma maneira de abrir brechas onde a universidade insiste em fechar portas para pessoas como eu. Sigo lutando e conquistando outros espaços na pós-graduação, malandreando o sistema e buscando construir espaços para mim e para os meus. Assim, minha vivência de rua e a educação que meus pais me deram reafirmam a importância da minha malandragem no ensino. Gosto de afirmar que vim para a universidade buscar ensino, porque educação aprendi nas ruas, assim como os meus pais. Busco, sem trapaça ou desonestidade, mas com a arte de encontrar brechas, de gingar diante das estruturas que tentam nos paralisar e transformar a malandragem de rua em ferramenta de empoderamento, visibilidade e reconhecimento. 

Referências bibliográficas

 

BOURDIEU, Pierre. A escola conservadora. In: BOURDIEU, Pierre. Escritos de educação Petrópolis, Vozes, 2003.

CARNEIRO, Aparecida Sueli. A construção do outro como não-ser como fundamento do ser. 2005. Tese (Doutorado em Filosofia da Educação) – Faculdade de Educação, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2005.

FANON, Frantz. Pele negra, máscaras brancas. Tradução de Renato da Silveira. Salvador: EDUFBA, 2008.

GONZALEZ, Lélia. Por um feminismo afro-latino-americano. In: HOLANDA, Heloísa Buarque de (Org.). Pensamento feminista brasileiro: formação e contexto. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2019.

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