Para se pensar pontos de contato entre a vida e o pensamento ético-poético da escritora brasileira Clarice Lispector (1920-1977) e da filósofa espanhola María Zambrano (1904-1991), é necessário considerar o que Lispector chamou de “um estado de contato” (Lispector, 2009, p. 172) e o que Zambrano chamou de “ligação íntima” (Zambrano, 2011, p. 09).
Lispector e Zambrano são duas pensadoras reconhecidas pela transgressão dos limites formais no campo da literatura e da filosofia, respectivamente. A atitude filosófica e a criação de pensamento, no caso das duas autoras, envolve o limiar como um direito inalienável e a queda de fronteiras entre ficção e conceito como ação reflexiva, posicionamento ético e empoderamento artístico.
A vida e o pensamento de ambas se aproximam intimamente por meio de uma intensa crítica à categorização do pensamento e ao racionalismo ocidental, estabelecida por duas das mais emblemáticas pensadoras do século XX.
De modo que pensar o elo íntimo entre Zambrano e Lispector é pensar o “silêncio roçando o silêncio” (Lispector, 2009, p. 48), é manusear “um triângulo reto feito de formas redondas, uma forma que é feita de suas formas opostas” (Lispector, 2009, p. 29), mas que se integram.
Tanto Lispector quanto Zambrano enfrentaram lutas contra a categorização do pensamento e do racionalismo ocidental. As obras das duas autoras abrigam zonas de limiar entre ficção e filosofia que expandiram os conceitos tradicionais e convencionais entre arte e linguagem.
O abismo entre pensamento e poesia é o que espanta e move o pensamento de María Zambrano. Assim como todo mal-de-oposição e todas as binariedades filosóficas que rebaixam o pensamento dialético, senão o próprio diálogo. É possível afirmar, sem nenhum pudor, que Zambrano, uma mulher latina, desfez o grande erro de Platão, de hierarquizar a filosofia, subjugar a poesia e expulsar os poetas da polis. O pensamento de Zambrano esteve sempre ocupado em curar essa ferida filosófica – mais que acusar e diminuir as ideias e o próprio Platão, como acontecia categoricamente até Zambrano se pronunciar. Isso não quer dizer que os paradigmas platônicos tenham perdido qualquer adesão, nem que Zambrano seja reconhecida devidamente por esse gesto radical – embora seja continuamente lembrado que ela foi a primeira mulher a ganhar o Prêmio Miguel de Cervantes, em 1988.
Lispector transmutava literatura em filosofia, sem corromper, contudo, as entranhas do próprio pensamento poético, sem diluir a ficção filosófica que ela mesma criava. Lispector estava comprometida em elaborar os limites formais da literatura desafiando os gêneros que foram convencionalizados como literários. É nesse sentido que as conexões com Zambrano ficam intensas, pois com Lispector a criação de conceito ganha formas ficcionais, um conceito que é sempre um híbrido, um conceito que não se compreende por completo nas definições, mas que se dá também na própria escrita do conceito, na forma escrita em que o conceito foi feito. A linguagem clariciana é um conceito de linguagem, assim como os romances claricianos são conceitos de romance, assim como o conceito de amadora, de antiliteratura, de intimidade foram criados por Lispector de forma filosófico-ficcional.
Zambrano, por sua vez, faz o mesmo ao transmutar ideias em matéria, carne em conceito, polis em poeta, aurora em luar; sem deixar que o mal-de-oposição prevalecesse e o pensamento dicotômico se sobrepusesse e apagasse a chama da salamandra, o fogo filosófico com o qual Zambrano se alimentava e incendiava
María Zambrano, filósofa, e poeta de coração, afirma que “no poeta a vida é o sonho, e no filósofo o sonho é a inocência e a queda é o despertar para a liberdade. Nos dois, a liberdade, o único real” (Zambrano, 2000, p. 16). Zambrano aproxima filosofia e poesia pelo caminho das diferenças e faz dessas diferenças um ponto de encontro incomum que se forma pela proximidade de movimentos intrínsecos aos procedimentos filosóficos e poéticos. Para Zambrano, poesia é encontro e filosofia é busca. Se há sentidos de oposição; há também sentidos de complementariedade.
Do outro lado do mesmo muro, Lispector, filósofa amadora, aciona um “pensamento-sentimento” (Lispector, 1999, p. 93) e cria personagens que vão desde aqueles que têm “um prazer enorme de pensar” (Lispector, 1999, p. 93), até aqueles que afirmam que “em mim qualquer começo de pensamento esbarra logo com a testa” (Lispector, 1998, p. 13). Nos dois casos abre-se um limiar entre “o sentimento e a palavra”, norte-sul de Lispector; o “sentimento de uma ideia” (Lispector, 1998, p. 72) ou, por fim, o que a romancista chamou de “sentimentação do mundo” (Lispector, 1998, p. 70) algo que ocorre quando o sentimento de humanidade em cada um entra em crise drástica – em grande medida é o que aconteceu com G.H..
Assim, com Lispector e possível encontrar um lugar em que o pensamento entra em suspense por decidir-se pela contramão do que é excludente, do que é dicotômico, tanto que ela mesma considera que “a palavra dicotomia é uma das mais secas do dicionário” (Lispector, 1963, p. 17).
Há um intervalo entre filosofia e poesia e é desse lugar que nasce um “violento amor” (Zambrano, 2021, p. 17) e uma “generosa urgência da vida” (Zambrano, 2021, p. 17). O pensamento magnético de Zambrano atrai para esse lugar de vida e violência, de amor e urgência um outro mundo, “um mundo aberto onde tudo é possível” (Zambrano, 2021, p. 17). O mundo da poesia.
Depois de Lispector e Zambrano, a literatura e a filosofia nunca mais foram as mesmas.
REFERÊNCIAS
DIASSI, Pablo. Filosofia selvagem: ensaio com o pensamento de Clarice Lispector. 190 f. Tese (Doutorado em Letras: Teoria da Literatura & Literatura Comparada) – Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2019.
LISPECTOR, Clarice. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 2000.
LISPECTOR, Clarice. A hora da estrela. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.
LISPECTOR, Clarice. A paixão segundo G.H. Rio de Janeiro: Rocco, 2009.
LISPECTOR, Clarice. Perto do coração selvagem. Rio de Janeiro: Nova Fronteira,1980.
LISPECTOR, Clarice. Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.
ZAMBRANO, María. A metáfora do coração e outros escritos. Trad. José Bento. Lisboa, Portugal: Assírio & Alvim, 2000.
ZAMBRANO, María. Filosofia e poesia. Trad. Fernando Miranda. Belo Horizonte: Moinhos, 2021.
ZAMBRANO, María. O homem e o divino. Trad. Cristina Rodrigues e Artur Guerra, Portugal: Relógio D`Água Editores,1995.
Créditos na imagem de capa: Imagem de IA criada pelo autor do texto a partir de imagens de Clarice Lispector e María Zambrano.
