Ao ligar a TV, em uma tarde de quarta-feira, um apresentador aleatório descreve uma comida saborosa feita com banana, peixe e ervas. Segundo ele, o molho era poderoso, uma mistura de coentro, cominho e uma tal de “ancestralidade”. Até mesmo em outros circuitos, como na internet, é comum observar na superfície dos algoritmos roupas ancestrais, danças ancestrais, cabelos ancestrais… tudo parece ancestral, um tipo de vínculo sólido entre nós e uma África apenas aguardando no outro lado do Atlântico. Parece que 3000 quilômetros é bem ali na esquina, dobrando a rua dos ancestrais, no bairro da negritude. O conceito de “ancestralidade” transbordou as fronteiras acadêmicas, como é esperado no campo fluido das ciências humanas, repercutindo na boca do povo: do professor universitário com seus diplomas chiques até o tiktoker empoderado com sua sabedoria de dois minutos…. a “ancestralidade” é a palavra do momento. Mas, como qualquer termo que ultrapassa as fronteiras das ciências sociais, e invade a vida cotidiana, ele sofre um tipo de simplificação pragmática, digamos assim. Em outras palavras, apesar da utilidade desse reducionismo (e, sem dúvida, existe uma demanda prática sendo preenchida aqui), custos são pagos nesse processo simplificador.
Antes de qualquer mergulho mais profundo no tema, antes mesmo de me comprometer com argumentos espinhosos, é preciso colocar as cartas na mesa ou abrir a caixa de pandora, seja lá a metáfora de sua preferência. O conceito de ancestralidade, embora dissecado nesse ensaio, tem uma importância política fundamental. Apesar dos riscos teóricos e metodológicos, nas fronteiras empoeiradas das ciências sociais, ele carrega um papel importante em lutas contemporâneas… eu não sou ingênuo, muito menos insensível. Quando Laclau (2005) usa o termo “significante vazio”, sem dúvida, ele reconhece que palavras podem ser vagas, ocas, distorcidas e até contraditórias, mas extremamente úteis na vida cotidiana. As pessoas não usam palavras porque tem definições claras em suas cabeças… elas apenas FUNCIONAM. Ou seja, “deus”, “certo”, “errado”, “democracia”, “belo”, “feio”, são úteis nos limites pragmáticos da nossa vida, ainda que sejam incertos ou até mesmo vazios e contraditórios. Longe de mim cobrar consistência metodológica em um espaço de segurança existencial… de novo, não sou insensível.
Depois dessa viagem sociológica, uma pergunta é inevitável: “Mas afinal… onde mora o problema da “ancestralidade”?” Se fosse usada de um jeito instrumentalizado, como uma ferramenta provisória de luta contra o racismo, esse ensaio não existiria, de forma nenhuma. Ou seja, se “ancestral” fosse um tipo de essencialismo estratégico, como em Spivak (2010), nossa conversa seria outra, seria curta. Ao ser estratégico, termos como “negro” ou “ancestralidade” existem APENAS na medida em que são mobilizados em circuitos práticos… nada mais, nada menos. Em outras palavras, ambos ganham o selo de “existência” não por alguma substância sólida nos bastidores, mas por uma demanda prática, circunscrita: o combate ao racismo. O deslize começa quando a linguagem é congelada, nesse caso, quando levam a sério as palavras na mesa, quando imaginam algum tipo de essência perdida nas areias do tempo, aguardando os dedos empoderantes de figuras empoderadamente empoderadas. Resumindo… existe um sério risco de essencialismo nesse território, um deslize irônico quando o assunto são grupos de esquerda (liberal). O termo ancestralidade, ao perder seu manto instrumental, ganha um tom reacionário, o que gosto de chamar de “reacionarismo progressista”. Esse retorno a um passado nobre, puro, apenas aguardando a revelação por figuras empoderantes, deixa um gosto meio amargo e irônico na boca de pensadores progressistas
“Eu não sou negro, estou negro”. Esse é um dos meus slogans favoritos. “Negro” não é uma essência obvia que me conecta a você (eu nem te conheço!!). Não é uma ponte sólida e mística, mas uma abstração provisória apenas útil em contextos concretos, historicamente recortados: nesse caso, a existência do racismo e seus desdobramentos problemáticos. Em sua “história da sexualidade volume 1”, Foucault (1988) oferece uma análise um pouco estranha, ao menos à primeira vista; segundo ele, na Grécia antiga não existiam gays, apenas homens que transavam com outros homens. “Mas isso não é ser gay?”, pergunta você, confuso com esse malabarismo pós-estrutural. Na verdade… não. Ser gay é uma identidade, uma percepção de si, além de um número de instituições específicas que reforçam esse detalhe. Na Grécia, segundo Foucault, essa esfera não existia, ou seja, esse processo de subjetivação era um sonho distante, um sonho de 2000 anos no futuro. Por exemplo, voltando ao nosso tema… em um mundo onde práticas racistas não existem, “negritude” não é uma estrutura de subjetivação, da mesma forma que antes dos colonizadores europeus “negros” não existiam, embora existissem pessoas com peles escuras.
Seguindo os passos de Paulin Hountondji (1996), filósofo beninense, a verdadeira luta antirracista tem um compromisso diferenciado, alternativo, talvez até incomum: o objetivo é abolir a própria categoria da qual faz parte, ou seja, a negritude. O antirracismo não pode apenas inverter a estrutura essencialista, aquela ocidentalizada. Não adianta trocar predicados negativos por positivos (o negro inferior se torna o negro empoderado), mantendo o edifício do problema, apenas pintando as paredes com cores mais agradáveis. Mas, enquanto o racismo existe, ainda é necessário a categoria “negro”, “ancestralidade”, e todos os derivados… POR ENQUANTO. Ainda é necessária essa etapa de ressignificação positiva do significante N-E-G-R-O… POR ENQUANTO. Amanhã, quando o racismo não mais existir, quando for uma memória muito distante na mente das novas gerações, não me chame de irmão, de companheiro, não me fale da África como se fosse uma cidade do interior com 2.000 habitantes. Amanhã, quem sabe o vínculo identitário que me conecta a você?
Como identidades são flexíveis, nada mais do que ferramentas provisórias, “negro” pode ser substituído por outros arranjos, dependendo da demanda do momento, como “terráqueo”, caso alguma invasão alienígena aconteça em breve. Ou seja, rótulos não podem ser congelados em geladeiras essencialistas, caso contrário novas articulações políticas são prejudicadas em nome do reacionarismo de esquerda. “No momento, eu sou negro; amanhã, já não sei”.
REFERÊNCIAS
FOUCAULT, Michel. História da sexualidade 1: a vontade de saber. Tradução de Maria Thereza da Costa Albuquerque e J. A. Guilhon Albuquerque. Rio de Janeiro: Graal, 1988.
HOUNTONDJI, Paulin J. African Philosophy: Myth and Reality. Bloomington: Indiana University Press, 1996.
LACLAU, Ernesto. On populist reason. London: Verso, 2005.
SPIVAK, Gayatri Chakravorty. Pode o subalterno falar? Belo Horizonte: Editora UFMG, 2010.
Créditos na imagem de capa: Imagem feita com IA
