Querem silenciar inclusive os encantados, reduzir a uma mímica isso que seria “espiritar”, suprimir a experiência do corpo em comunhão com a folha, com o líquen e com a água, com o vento e com o fogo, com tudo que ativa nossa potência transcendente e que suplanta a mediocridade a que o humano tem se reduzido. (KRENAK, 2022, p. 37-38)
Havia algo faltando. Havia, em mim, um incômodo, que ao alcançar uma brecha, se instalou e passou a me impedir de avançar, revirando, se retorcendo há um tempo. Lógicas, doutrinas e convenções escolhem quem ou o que traz a salvação, e relegam ao estado de coisa aqueles de quem não se ouve a palavra. Ora, mas se esses integram a realidade, como é possível se sentir legitimamente superior? Como, e por quê, insistimos em carregar a velha e equívoca noção de poder sobre os silêncios?
Muito se debate, atualmente, acerca dos silêncios da história. Mas será que estamos prontos para questionar os limites das nossas perspectivas? Será que estamos dispostos a experimentar a humanidade enquanto espécie? Dipesh Chakrabarty (2013) assim como Ailton Krenak (2022) e tantos outros e outras intelectuais vêm, há mais de uma década, nos alertando acerca dos perigos e das ilusões de uma história (e porque não dizer, de uma perspectiva de vida) não alinhada à noção integrativa com o meio, com a natureza. Também Braudel (1984), partindo da proposta historiográfica dos Annales ensaiava o que considero como sendo uma pergunta semelhante à dos primeiros autores. Será que não nos deixamos perder num processo alienado de produtivismos? Será que nossas noções de longa duração estão de acordo com o que se passa no planeta? Quando foi que experimentamos o mundo sem nos preocuparmos com a hora, com aquela reunião, com aquela meta que precisamos alcançar?
A obra de Ana Kemper aparece, para mim, como um caminho pertinente para acionar outros modos de reflexão que não o puramente acadêmico ou não sensorial. A experiência é, aqui, um espaço importante para a ampliação da capacidade crítica do que é ocupar um lugar no mundo. Kemper nasceu em 1976, no Rio de Janeiro, e é artista visual, pesquisadora, médica acupunturista e fisioterapeuta com formação transdisciplinar. Em seu trabalho, o cuidado interespécies é o alicerce, tecendo-se através de suas criações artísticas, da prática clínica e da pesquisa em ecologia. Para isso, ela navega por diversas linguagens expressivas, como a fotografia, a poesia, o vídeo, a performance e as instalações multissensoriais, tendo participado de diversas exposições pelo Brasil. De séries fotográficas como Enxertia e Te extraño cariño a performances como Insular e Medir com as mãos a vida, Kemper propõe uma imersão no eu enquanto ser, mas não apenas um ser histórico e psicanaliticamente complexo. Um ser que está integrado ao tempo e à performance da natureza, reconhecendo-se como parte de um processo, e não como mandante do mesmo. Essa noção fica clara também no uso da paisagem e dos elementos naturais como metáfora ao problema da diferença em relação ao humanamente criado na obra Antes de me perder a ver:

Para esse texto, eu gostaria de focar nas vídeo-performances de Kemper, apresentando concepções acerca das mesmas. A primeira delas é Como era o pensamento antes de existir a palavra ?, de 2018. Nessa obra, a artista caminha entre árvores carregando consigo uma fita branca de tecido e a entrelaça às árvores enquanto realiza uma caminhada errante e ininterrupta. Ao final, Kemper solta a fita, que cai ao chão. A obra transita entre a experiência das ideias e a questão do traço como contemplação. O traço branco antecede a palavra, envolvendo a imagem como um rastro na paisagem. A variação tonal da paisagem confere profundidade, transformando a “escrita” em um exercício de contemplação em movimento. A direção dos passos entre as árvores dita um ritmo, onde cada verticalidade encontra um horizonte e cada ascensão, uma queda. Certeza, dúvida, coexistência e isolamento se entrelaçam à experiência de um pensamento não verbal. O traço branco, uma marca suave ao toque e um som quase inaudível no tempo, evoca nuances incertas da memória. As ideias se revelam como experiência, um pensamento oscilante. Assim, para cada certeza, há um ruído, e para cada clareza, surge uma dúvida. A artista Luciana Paiva (2018) acrescenta à crítica a obra de Kemper uma perspectiva social e política pertinente à contemporaneidade:
Leio Ana justo agora, quando as palavras ganham peso e sentido obscuro, a certeza cega de que não vão ferir pois são proferidas “da boca pra fora”. mas fora é o mundo e é no mundo que o sentido da palavra mora. fora isso, voltar pra onde? antes da palavra, Ana escreve, uma relação antipredicativa com o mundo: antes da palavra ainda penso.
O problema da palavra volta em Tudo que eu poderia dizer, de 2019. Ao encher lentamente uma garrafa, Kemper propõe uma reflexão acerca de tudo o que ela poderia dizer enquanto a água preenche o recipiente. Mesmo após a água começar a transbordar, a artista carioca continua seu fluxo de pensamento. Uma breve pausa, e Kemper tenta novamente continuar a encher a garrafa já cheia. A reflexão, aqui, pode ser interpretada em torno do tempo das coisas, e o tempo das palavras. Apenas algumas das muitas palavras “couberam” na garrafa antes que ela transbordasse, por mais que Kemper desejasse continuar a preencher o espaço com palavras. A questão da escolha de palavras também é determinante ao objetivo da obra. Kemper diz, várias, vezes, que ela tem mais de uma opção, dentre palavras com teores positivos e com teores negativos, para preencher o tempo em que enche a garrafa, mas oscila e não apresenta uma perspectiva decidida, deixando a conclusão da ideia para o espectador.
Tempo e espaços são temas recorrentes na obra de Ana Kemper, aparecendo sob diversas formas, linguagens e perspectivas críticas. A consciência acerca desses objetos de pesquisa parece ser o ponto central da reflexão de Kemper. Perceber, observar, refletir, ser, estar, coabitar. Em Microcontos, Kemper nos traz ao ambiente urbano, oferecendo condições de possibilidade para não dependermos apenas do contato direto com a natureza no exercício da nossa consciência humana e da nossa percepção da memória e do tempo. Os contos de Kemper acontecem no silêncio, em tempos diferentes, mas simultaneamente. É uma perspectiva de que também carecemos ao longo de uma semana imersa em medições repartidas do tempo, dentre a escolha de prioridades ligadas à sobrevivência e não à experiência. Microcontos parece complementar, ou ajudar a introduzir obras como Embaúba em que, não por acaso, os créditos da performance vão para a árvore que dá nome à obra, ao vento e os pássaros. A paisagem refletida na água conta sua história e transmite suas memórias em uma “escrita” viva, que une diferentes elementos que coabitam um mesmo espaço em torno de uma mesma experiência, o ciclo da vida.
Compartilhando do pensamento dos povos originários acerca da integração entre natureza e humano, Kemper nos traz uma contribuição para uma reorientação epistemológica e existencial. Em face das discussões contemporâneas acerca dos silêncios historiográficos e da premente necessidade de uma cosmovisão integrada à natureza, a produção artística de Ana Kemper desponta como uma via heurística de grande relevância. A artista, ao explorar a experiência do ser em comunhão com a temporalidade e os elementos naturais, propicia uma reflexão aprofundada sobre interconexão. Ao questionar os construtos linguísticos e as percepções do tempo na tessitura da vida urbana, como exemplificado em Microcontos, e ao conferir agência à natureza em Embaúba, Kemper articula uma reorientação da consciência humana. Tal proposição desafia diretamente a lógica produtivista hegemônica, promovendo uma reconexão com os ciclos existenciais. Nesse processo, o cuidado interespécies estabelece-se como o fundamento para uma nova episteme e para a reconfiguração da nossa posição ontológica no mundo.
REFERÊNCIAS:
BRAUDEL, Fernand. O Mediterrâneo e o mundo mediterrânico na época de Felipe II. São. Paulo: Martins Fontes, 1984.
CHAKRABARTY, Dipesh. O Clima da História: quatro teses. Sopro, n. 91, p. 4-22, 2013.
KRENAK, Ailton. Futuro ancestral. Companhia das Letras, 2022.
PAIVA, Luciana. Voltar para onde? In: Prêmio Pipa – Ana Kemper. 2018. Disponível em: https://www.premiopipa.com/ana-kemper/ Acesso em 14 de junho de 2025.
Prêmio Pipa – Ana Kemper. Disponível em: https://www.premiopipa.com/ana-kemper/
Acesso em 14 de junho de 2025.
Créditos na imagem de capa: Reprodução. Embaúba: série Te extraño carinõ, de Ana Kemper, 2023. Disponível em: https://www.premiopipa.com/ana-kemper/ Acesso em 18 de junho de 2025.