João disse:

– Esta história quem conta sou eu. Não tem Bethânia, não tem Clarice. Não tem franguinhos, nem pintinhos da granja do Morro da Granja. Hoje, não subo o morro. Com Clarice hoje não vou ter.

O galo não contava com ninguém para contar o conto. Não contava com ninguém para ouvi-lo. Talvez contasse aquilo para si mesmo, talvez aquilo fosse escrito para ele mesmo ouvir. Mas o que seria dele sem o outro, sem os outros?

O conto era um monólogo, um diálogo interno, um ter consigo sozinho, apenas consigo mesmo. Não que João fosse autista, egoísta, narcísico ou egocêntrico. Não que João quisesse poupar aos outros. Não que o galo não visse os outros, o outro. Ao contrário, via e via muito. E via agora para sempre, definitivamente. Acontece que o conto que João contava para nunca mais ser conto era uma reflexão, um ensimesmar-se para depois da submersão emergir de si de novo. E o movimento não era novo. O movimento era, basicamente, o de submergir e emergir para na superfície nadar de novo. E o movimento era lento, era longo, mas não era subir e descer de morro. E o movimento não era dele, era do outro.

A História das memórias do Colégio era ardida, doída. E ninguém tinha a ver com isso, com aquilo. Era uma história do galo com o galo mesmo. De si para consigo, do me mim comigo lá dele.

Era uma história de um menino.

– O menino pegou o metrô na estação inicial, logo pela manhã bem cedo. Era a primeira vez que o menino andava de metrô sozinho. Era a primeira vez que atravessaria os lados do Rio. De um lado do Rio, o bairro onde o menino morava. De outro lado o restante da cidade..

– Como escrever sem os outros, sem ninguém, nem galinha, nem oradora, nem franguinhos, nem pintinhos da granja?

João se perguntava.

– Como ser o outro quando o outro não é nem a si mesmo, não é nada?

João se indagava.

– O menino tinha medo, claro. Tinha expectativas. Tinha também uma dor de barriga que não era física, que não era concreta, que não era empírica. De nada o menino sabia, e tinha ouvido dizer que era bobo, que era burro, que era tolo. Muita coisa esquisita o menino ouvira. Muita dúvida o menino tinha.

João contava uma história não do que foi propriamente, não do que ficou de ruim. Aquela não era uma história de mágoa, não era uma história da raiva, nem da vingança aquela história era. Aquela era a história do trauma.

Era uma história da reflexão. Importava, era importante, o hoje daquela história, o momento presente, o amanhã. Importava o que viria ainda, não o que já havia passado. Era uma história para amanhã, não para ontem que João já não tinha mais em nenhum dos lugares de seus lugares, muito menos na alma, muito menos no coração.

– Na plataforma do metrô, aguardando o trem chegar, o menino viu muitos outros meninos e meninas. Todos estavam vestidos com roupas iguais. Eram roupas feias, de tons escuros e lúgubres que faziam jus ao nome: uniforme.

Os meninos estavam completamente uniformizados. Não tinha esse, aquele, aquele outro. Na plataforma do metrô, havia uma excitação uniformizada, homogeneizada. Era impossível distinguir personalidades ali, caracteres variados. Era impossível para quem olhasse de longe saber quem estava ali. Era uma mancha, um desenho de cor, sem delimitação de corpos, nem de individualidades.

A história tinha uma matéria nada fácil, mas João talvez soubesse que para as memórias do Colégio fossem necessárias flexibilidade e dureza da argila. Ele olhava para o outro, para si, para o outro de si e para o outro de si mesmo. Fazia uma história que o galo sabia ser história. Não recuperava nada, não recompunha nada. Pegava a matéria para modelagem. A história das memórias do Colégio João modelava.

– Quando o menino chegou à escola, no Largo de São Bento, não havia pai para colocá-lo para dentro da instituição de ensino. Ali não era o Ateneu, nem a frase entra, vais conhecer o mundo foi proferida ao menino. Ali não havia Aristarco.

João conta que o pai deixou o menino no metrô, dele se despediu rapidamente e sem jeito de dar um beijo no rosto dele.

João conta essa história como tantas outras que contou a vida inteira, como as histórias que inventou a vida toda, e como, inclusive, uma história para não contar sua história.

No largo de São Bento, para além do Colégio de São Bento, Mosteiro e Igreja, moravam mendigos, pombas e outras formas de vida que o menino nunca tinha visto.

O galo não sabia ao certo se o mundo o menino conheceria, fora conhecer, fosse conhecer, mas certamente por poucas e boas peripécias passaria herói tragiquinho que seria. Herói trágico que se inventaria e um dia contaria isso para Cecília.

Era manhã, como muitas outras manhãs. À escola o menino fora. No começo uniformizado e para que ficasse no Colégio o dia inteiro, chegando pela manhã e indo embora no final da tarde. Tinha aulas matutinas, almoçava, fazia tarefas que seriam de casa, fazia esportes, brincava, corria, sentava, se cansava, descansava. No período vespertino fazia tudo isso de novo como uma espécie de reforço, como se fosse criança defasada, retardatária.

– Não vou contar esse conto de novo, essa parte do conto que me dá nojo. No entanto, vou narrar tudo, de tudo um pouco das memórias de colégio do menino.

Pensou João.

– A narrativa de tudo mesmo me escapa, após cantar meu canto. Ficar no meu canto, na minha vida de rinha só minha e de minha galinha em mim na maioria das vezes aninhadinha.

Continuou João em seu pensamento.

Era também manhã durante essa narrativa. Primeiro era uma manhã escura, com lua crescente ainda aparecendo no céu. Depois, uma manhã clareando, esclarecendo as ideias do galo. Um pouco mais depois, categoria de tempo que somente existe para galos narradores de histórias de memórias de escola de meninos, fazia uma manhã amanhecida, sonolenta e preguiçosa.

João interrompeu a narrativa para pigarrear, muito tabagista que ele era, e para cantar agora para o início definitivo do dia.

Naquela escola, a mãe do menino decidira o colocar pensando fazer o certo, pensando fazer o bem. O melhor para o menino a mãe quisera.

Nas memórias do Colégio constam que o primeiro professor com o qual o menino se deparou foi o professor de inglês. Ele entrou na sala, todos os alunos se levantaram. O professor fez o sinal da cruz, todos os alunos copiaram o gesto. Ele mandou que se sentassem. Como a matéria era laica, do núcleo comum do ensino, não foi rezado o Pai Nosso. Fosse aula de religião, de Bíblia, aula de evangelho, catecismo, os meninos rezariam. Melhor que tivesse rezado, pois o menino achou aquele professor o Diabo. O mestre trajava um terno preto, camisa branca e gravata preta. Calçava sapatos pretos. Era alto e magro. Era careca. Mas isso não era o pior dos problemas do menino. O teacher era bravo, exigente, pouco paciente. Ameaçador o professor era.

Dia amanhecendo ainda, vem à tona, surge à baila a tônica: o verbo to be. O Professor tinha um aspecto estrangeiro. Era muito velho aos olhos do menino. Era, embora civilizado, um bárbaro estranho, estrangeiro que parecia falar grego, não inglês.

Difícil para o menino eram mesmo aquelas aulas de inglês. Mais difícil as aulas de matemática com outro professor também vestido de terno preto e careca também. Mais difícil ainda eram as aulas de ciências, as de geografia, as de história, as de português, com professores vestidos de ternos pretos, camisas brancas, gravatas pretas e sapatos pretos. Difíceis todas as aulas. Difíceis os uniformes.

– Cadê Clarice?

– Clarice foi para praia. Não cisca aqui. Como no início se disse esse conto é conto de se contar sozinho. Sozinhosinho. Nesse conto não tem quero-quero, nem quero-querinho.

Foi no colégio que o menino virou rapaz. Lá conheceu a bailarina, o punk, o roqueiro. Sentado nos bancos de madeira do pátio leu Clarice Lispector, também chamada Clarice, até se cansar, até achar que entendeu. Até se entender abusado por ela:

– Sempre li Clarice. Sempre, desde sempre Lispector. Digo sempre, desde os treze anos. Há muitos anos. Não comecei com A mulher que matou os peixes, nem com livro sobre coelho, muito menos com compilação de contos populares, relidos reescritos por ela. Comecei nos bancos do pátio do Colégio de São Bento, em São Paulo, no Largo São Bento. Lia Clarice nas horas de intervalos de aulas, quando não fazia aulas de ginástica. Comecei Clarice pelo fim: Um sopro de vida – pulsações. Soube-a morta por um poema de Ferreira Gullar copiado no rosto em branco, na folha de rosto do exemplar que uma moça me emprestou. A leitura feita quando eu tinha treze anos não prestou. Não entendia Lispector pelos fantasmas, pelo espectro, pelos plasmas, nem pelos ectoplasmas. Não entendia Clarice escritora compondo narrador de livro em livro sobre livro de Ângela. Muito menos percebia autor/autora. Entendia Clarice pelo espectro solar. Pelos chacras. Pelas chácaras que se abriam frente às leituras moralistas corretoras dos corredores e salas de aula do colégio. Eu era repetente. Clarice se repetia em páginas porque pensava (sem muita certeza, como ainda hoje) que ela falava de uma mesma coisa o tempo todo. Coisa-palavra, palavra-coisa. Palavra me coitava. Perdi a virgindade com essa leitura. Virgindade de frente e de trás. Por todos os lados fui deflorado por ela. Tenho até hoje o exemplar do livro emprestado. Nunca o devolvi. Ele era meu. Só poderia, pelo tempo que quisesse. Quis pelo tempo do para sempre. Mesmo que pudesse comprar outro exemplar, nunca fiz isso. No imaginário de ginásio, outro não seria aquele, emprestado-roubado, transgredido. Outro não teria o poema do Gullar. Outro seria novo. Eu não era mais novo. Eu era usado, usadíssimo. O livro combinava comigo. Fazia decoro. Li mais do que uma vez Um sopro de vida. Lia Rilke em conjunto, fazendo par de despedidas. Cada leitura, outra vez no era uma vez. Os instantes já eram instantes-já. Já eram, já foram. O livro de Clarice nunca ficou na estante. Falo de estantes já-já. Não é ainda o instante de falar de estantes. A hora da Estrela só li só mais tarde. Sabendo já ser dos últimos que depois de escritos matavam Clarice Lispector, que disse morrer, ao jornalista, quando terminou de compor a não-obra prima sobre não só a nordestina. Disso, trato também quando me ocupar de estantes, ou logo após as estantes para ser mais preciso. Li os contos de Clarice, em várias edições antológicas organizadas pós-morte. Em outras compilações, em organizações feitas pela própria escritora. Não nomeio os volumes porque se avolumam na memória, avolumados na vida empírica, nas editoras, nas livrarias. Prefiro fazer brevidade de títulos. Li o Ovo e a galinha, substituindo termos por corpo e alma. Heresia com o texto? Talvez. Experiência saborosa tal qual chocolate na boca e água de chuveiro do lado de fora do corpo. Leitura transistórica, tresleitura? Talvez. Porém, a galinha poderia estar para chocolate-corpo, assim como o ovo para água-alma. Em escritas que supõem arbitrariedade (não só do signo, dos significados) das coisas vivenciadas, das transitoriedades da vida, das epifanias não epifanias, malogradas, improváveis, em lugares pouco epifânicos, invenções valem dispositivos interventivos o quanto valores valem. Valorei e valorizei sempre Clarice Lispector. Atribuí significados. Houve tempo em que fazia coragem, dispêndio, usava o tempo em sebos, alfarrábios à procura não de poesia, mas de edições (poéticas em prosa) das prosas editadas de Clarice em primeiras edições. Era e não era um fetiche da obra de arte, do objeto livro, do livro como objeto, da mercadoria. Não era um fetiche capitalista, embora em capitalismo inserido. Era um desejo de primeiro, que entendi mais tarde ser bobagem. Era uma vontade de viver o livro editado fresco, na época de seu lançamento. Naquela época, já nem sei quantos anos tinha. Juntei várias primeiras edições. Não formei uma coleção. Toda vez que ficava injuriado, jururu sapo na lagoa, pensava em vender as primeiras edições do Lustre, de Água Viva, d’Onde estiveste à noite, d’ A maçã no escuro etc. Era raiva, ira não de Clarice. Da vida. Das pessoas. De mim mesmo, provável. Era tentativa de desprendimento. Não acúmulo. Sei lá que coisa. Ler Clarice sempre foi uma coisa. Aqui me concentro em Macabéa coisa pouca, tutameia, a d’ Hora da estrela. Em Olímpio arrivista, e no escritor-personagem do livro. Antes, o instante de falar já de estantes. Não coloco os livros de Clarice em estantes, nem longe, nem perto de mim. Não os coloco no escritório, nem na sala. Os livros de Lispector moram no meu criado-mudo que, embora quieto, mudo, é o lugar mais lugar para eles. Sabemos o quanto são falantes os textos de Clarice. Escrituras em livros romances não-romances, não morte de romance; romances modernos, contos, novelas, crônicas, conselhos irônicos a donzelas, noivas, jovens esposas, mulheres velhas, lidos como lidos, como livros; principalmente, conselhos para sustentar filhos, lidos positivamente como conselhos de prosa deliberativa. Livros cor-de-rosa nada Rosa. Embora falantes, textos de fala, não de língua, porque criam situações de fala, não se satisfazem no sistema da língua, abstraem o abstrato da língua, rompendo com tiranias linguísticas, o criado-mudo cai bem para livros de Clarice. Princípio não paradoxal propriamente. Contraste de coisas, inclusões. No vazio do mudo, do mundo criado-mudo, as letras sentidas, inventadas, rearranjadas, dialogadas, dialetais, dialógicas dos tecidos finamente confeccionados por Clarice, falam mais. Ficam gritantes, erguem estantes. Depois, há uma razão amorosa, particular, que menos conta, mas não posso deixar de contar: estando os livros de Lispector no criado-mudo de meu quarto, ao lado de minha cama, ficam mais perto de mim enquanto durmo. Eles moram no meu quarto, local muito íntimo. São leituras possíveis no impossível de quando não os leio. São livros que sempre leio. Várias vezes, de perto. São leituras de câmara, não de arenas, nem de teatros. Sempre desde os treze. Certo que um dia, há muitos anos me perdi em Clarice. Então, decidi não mais ler seus livros. Passaram-se quase trinta anos de absoluta privação. Daí eu me encontrei hoje. Ontem. Outro dia. Já não me lembro mais em que instante-já que já passou. Voltei a ler a Lispector. Clarice luz claríssima, caríssima. Posso voltar a me perder. Mesmo perdendo-me nela, sei também achar-me com ou sem ela. Esse encontro é definitivo. Definitivo mistério que não se desfia, não se definha não se amesquinha, mas desafia. Comecei Clarice aos treze, pelo fim. Sempre desde sempre Clarice felicidade clandestina. Meu criado-mudo é minha rede de amante. Às vezes, desloco um volume do criado-mudo, levando-o à cama. Finjo que ele se perde em meio a lençóis, que se perde entre pernas em meio a minhas pernas, agarro o livro com braços e mãos de polvo, coisa apertável com olhos e corpo. Bizarra forma de vida. Cafona relação de leitura. Kitsh aproximação de livro, gente, cama. Para compor melhor (ou pior) o quadro, o quarto em que Clarice mora comigo: Roberto Carlos, das Canções que você fez pra mim seria trilha. Trilha de livros trilhados à voz de Maria Bethânia. Livros repatriados, com outras cidadanias. Estranhamentos de estranhamentos, nunca acanhamentos tacanhos. De todos os lidos livros de Clarice não tenho preferido. Todos queridos amantes, todos livros-livros, lidos-lidos, todos livros lidos livres. Entretanto investigo A hora da estrela. Cumpro o que prometi linhas antes de digressões escaldantes. Li A hora da estrela em livro, depois em cinema. Furto-me falar do filme, porque oitava arte demais para mim, porque oitava acima. Afinal, de cinema sou um pobre amador. Acorda amor. Li o livro. Li sobre o livro, o que disseram a seu respeito. Não tudo, que tudo eu não aguento. Tudo muita coisa. Tudo é paranoia. A Hora da Estrela, hora de dramatização da ficção da linguagem. Livro de epifanias (no plural), não apenas uma; a do escritor-personagem, com a revelação que ele, Rodrigo S. M., tem (recebe) ao ver, (de relance) a nordestina (Macabéa) na rua, ao se deparar com o tipo; epifania acrescida, paralela, em concorrência com a epifania que Macabéa tem (recebe ou sofre) quando do episódio da Madama Carlota e ao morrer, já um desdobramento do episódio, como metáfora continuada epifânica da revelação da cartomante. Alegoria de poetas. Entretanto, como em Drummond, da “Máquina do Mundo”, do Claro Enigma, a epifania de Macabéa é não-epifania, ou falsa epifania, pois moderna, fraturada. Com a diferença que no poema de Drummond há uma recusa, na de Maca não há recusa; em ambas as situações, uma impossibilidade do mistério. Eu, embora fale a partir do que leio dela, falo a partir do que leio sobre ela, do falo de Clarice. Falo a partir da clave em que ela conclava a linguagem, falo no etc. do et coetera, entre outros plurais de linguagem. Linguada minha língua no beijo de língua do atropelamento do peixe em milagre. Leio Clarice desvirginado desde sempre. Desde os treze anos de idade. A moça que me emprestou Um Sopro de Vida anda sumida. É de tamanha magreza que não tenho certeza ter corpo. Encolheu da memória. Agora, será que existiu? Era um ectoplasma? Existiu no mistério da palavra (ainda existe), como Clarice, no incômodo do professor de física (das aulas de laboratório, com luz de serviço apagada) que via meus olhos desviar das trajetórias da luz das experiências, voltando-se para as letras tingidas no livro em ambiente de trevas: nem só de literatura vive o homem; de física, principalmente, me disse o docente. Um problema que nunca resolvi com o professor de física: o pathos sempre foi em mim, desde os treze, não a Paixão Segundo GH, mas foi, e é, paixão por CL. Questão de química, não de physis. Cardiologia, não lógica, nem pediatria.

Quando João terminou a longa digressão sobre Clarice Lispector, lembrou que o menino estudara em período integral, chamado na época de semi-internato, voltava para casa todo dia com dor de cabeça porque, além de ter que fazer lição à tarde toda no Estudão, o professor responsável pela ordem e silêncio da sala e pela atenção às lições gritava muito e fumava muito, e tossia muito. Tinha pelos nas narinas, tinha pelos nos ouvidos. Era baixinho e barrigudo aquele professor e tinha nome de time de futebol do Rio de Janeiro, pois era de família portuguesa, com certeza.

Moço, rapaz, adulto, e nas idades demais, o menino não deixou de ser dessa história o menino e nunca achou romântico aquele colégio, nem as pessoas românticas naquele lugar. Mas lá conheceu a bailarina, o punk e o roqueiro. Sobretudo lá conheceu a bailarina.

Teve um colega argentino no ano em que teve Copa do Mundo de futebol justamente na Argentina. Ele usava umas calças jeans escuras e com as pernas muito justas, de boca muito estreita. Usava tênis de cano alto, de lona preta. Tinha cabelos compridos, escorridos lisos.

– Estou com saudades de Clarice.

João pensou consigo.

– Devia ir para praia ciscar com ela, não ficar aqui contando esse conto nunca mais conto, que nunca mais será conto, nem nunca mais será vivido.

Esta é uma história com dor. Dói. Fazia doer. Não porque o menino ou João fossem masoquistas, não porque história sádica, mas pelo teor das memórias do banco da escola, da experiência. Não é o tempo perdido que provoca dor, nem a falta hoje de frescor. É um não sei que de nascer do sol como em cidade que quando nasce o sol embeleza a poluição.

Esta história é um nascer do dia poluído, um nascer do sol de um vermelho com cinza. Não adianta contar de outros amigos, de outros professores. Não há memória que caiba, nem que sobre. Contar que o menino era e fez a rebelião? Que começou a fazer teatro ali? Que um dia, não podendo sentar nas escadarias da entrada principal do Colégio, ele propôs que todos se sentassem assim que o último degrau terminasse, pois seria no chão, mas não seria na escada. Todos se sentaram de frente para a porta de entrada, mas ele de costas se sentou. Não viu quando o inspetor de ensino chegou. Todos já tinham se levantado, apenas o menino estava sentado no chão. Resultado: levou um gancho, foi suspenso das aulas por justa desobediência escolar. Contar que talvez tenha sido aí que aprendeu a ser desobediente civil?

João a essa altura da história só pensava em Clarice na praia. E na maresia que poderia tocar o corpo dela. Pensava em acabar a história e ir para praia ir ter com sua galinha.

Esta história é um vermelho empoeirado, cheio de partículas em suspensão. O menino era chamado de hermético. Nem sabia que a Hermes fazia companhia. Nem que de Mercúrio era filho.

João conta que o menino, passados muitos anos, refez o caminho que fazia todos os dias para ir ao Colégio. O menino não era menino, assim como João pintinho já não mais era. O menino era um homem, o menino era o pai do homem a pegar o metrô, descer na estação São Bento, subir as escadas da estação que dão para a entrada do Colégio:

– Desci na estação São Bento, subi as escadas rolantes que há anos subia de segunda a sexta pelas manhãs. Subi as escadas fixas que subia para chegar ao Colégio. Cheguei, arrepiado, no Largo São Bento, em frente ao Colégio. Fui até ao pé da Igreja. Fotografei fachadas, desviando-me de transeuntes e de camelôs. Não havia pombas como antes, nem as do poema de Casimiro de Abreu. Não havia bêbados, nem ministros. Fui até o portão que dá para o pátio do Colégio de São Bento e o que vi não foram os colegas entrando para aulas, nem as árvores que lá havia. O pátio virou um estacionamento. Mas as fachadas do Colégio estavam lá, altivas, enormes, de pedra. O Mosteiro estava lá, firme e forte. A Igreja estava lá, toda gradeada para que a degradação humana não fosse deitar às suas portas. Não estavam lá D. Bernardo, nem D. Beda. Nunca imaginei me arrepiar ao subir as escadas do metrô e ser conduzido por mim mesmo a um lugar que embora lá esteja não mais existe. Faço comigo coisas que talvez não devesse, mas faço com o coração e não me arrependo.

– Mística desfeita? Vapor? Pó? Poeira?

Nada disso, entendeu João.

O menino que não era mais menino era pai do homem, precisava não rever nada. Precisava sentir o trajeto. Apenas isso. E isso já sentira. Não precisava refazer as memórias, mas pôr em memória a história do trauma, a história da dor, a história de vida daquela experiência.

João se lembrou de quando vivia situações de desconforto dizia:

– Mãe, sou pintinho. Você, galinha!

João foi para praia, ter com Clarice.

As memórias do Colégio eram a história do trauma, do tempo presente, mas eram também um gato que ria. Uma história dos afetos, pois tinha a bailarina. Lá, o menino conheceu a bailarina, conheceu o punk, o roqueiro. Sobretudo lá conheceu a bailarina. Lá, o menino aprendeu a não ser o que não queria. Foi no Colégio que ele conheceu a bailarina. Foi no Colégio que começou a ler Clarice.

 

 

 


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