Um dia, um poeta desconhecido, autor de um livro de poemas dotados de imensa poesia, pediu para ser recebido pelo poeta apaixonado, namorado da leitora severa. A leitora severa disse ao poeta apaixonado:

– Não o receba. Sobre ele não pouse seus olhos.

Entretanto, o poeta apaixonado, fiel a seus escritos e fiel à escrita, à poesia, não titubeou, nem deu ouvidos à leitora.

– Vou recebê-lo. Pode deixar que do livro de imensa poesia, de poemas inéditos, de poeta desconhecido eu tomo distância. Nele, não me misturo, nele não me perco.

Não se sabe se era isso que a leitora severa temia. Não se sabe quem conta este conto. Apenas se sabe que o livro de imensa poesia foi lido, foi recebido. É sobre isso que esta história volta os ouvidos. É sobre esse poeta e livro desconhecidos que a história agora bate as asas. É isso que esta história canta.

Sob o signo de anúncio aquela poesia vinha. E vinha anunciando-se delirante, um sonho em uma noite de verão. Daquelas noites em que a gente acorda de madrugada suando, pegando fogo e incendiando a cama, incendiando a casa.

– Você vai mesmo estudar esse livro? Escrever sobre?

Indagou a leitora severa, galinha Clarice cheia de bicos e cristas crispadas de contrariedade e cuidados com o poeta apaixonado, galo João, pedreiro, construtor e afeito a afincos.

– Já estudei o livro.

Disse o poeta, já escrevendo sobre aquela poesia.

– Ela dá-se a ver, se mostra, faz-se mostrar, a ver e a ouvir desde a partida, desde o título do livro, desde a primeira página daquilo.

Continuou a dizer João sobre aquilo.

De dádiva e de divã o mundo de Osten, das coisas dali, deveria se compor. De dádiva e de divã João se compunha. Clarice dela mesma não diria isso, não diria o mesmo. Talvez de divã se compusesse. E muito esforço e trabalho de uma vida toda, inteira, como estrela de sua vida inteira recostada na cadeira, pensando, pensante, investigando, investigante que era, que sempre tinha sido.

– Como é que vai ser mesmo sua apreciação sobre poesia e sobre poeta desconhecidos?

Insistiu a galinha Clarice.

Nessa altura da história eles não apenas confundiam pernas, bocas, braços e mãos, eles misturavam antigos adjetivos que em epítetos os qualificaram. Nessa altura da história, embora cada um fosse cada qual, cada um fosse apenas a si mesmo, eram os outros, eram outros e a severidade e a paixão em ambos habitavam. Então Clarice e João, leitora e poeta, eram severo-apaixonados por eles mesmos, eram severamente apaixonados por si mesmos, um pelo outro, e por seus avessos.

Eram poemas-não-poemas feitos de falsos enjambements e falsas estrofes. Eram polifônicos e polissêmicos os poemas do livro de imensa poesia do poeta e do livro desconhecidos. Mas era para serem vistos, ouvidos, tinham sido escritos, desenhados, compostos musicalmente os textos do livro.

Canta João, quando não canta Clarice, nem a ela se declara, que os textos eram divididos em duas partes, caso assim o leitor-ouvidor-vedor do livro optasse. Caso contrário, de uma parte apenas era feito o livro. Eram quartetos-não-quartetos, tercetos-não-tercetos. Eram trios e quadras em que, onde, por onde seus olhos e ouvidos se moviam, se direcionavam. E o livro era um objeto vivo, movia-se, mexia-se, transmudava-se, transubstanciava-se, como diria a nazarena, Cristiana, cristã Bethânia.

Agora, se o leitor optasse, achasse, encasquetasse que de uma única parte o livro era confeccionado, eles seriam como um único poema feito de não-cantos, não numerados e sem pontuação. Como uma não-epopeia, um não-poema-épico os poemas seriam lidos, o livro seria inclassificado.

Fechava o livro uma explosão de letras, fonemas, sílabas como dizendo ao leitor que acabou de ler um livro de não-poemas, ou uma explosão de poemas. Que foi lida uma poesia para não preguiçosos, que quer ser lida, pede para se lida, mesmo sendo hermética e muito bem embalada, audível, escutada.

– Tem certeza que você leu isso?

Perguntaram os pintinhos e os franguinhos sentados no chão da granja do Morro da Ganja. Perguntaram os tijolos que João carregava.

– Sim, vi isso. E tem mais.

Falou o poeta apaixonado-severo, o poeta severo-apaixonado.

Clarice não disse mais nada. Fechou os olhos, fechando suas asas como que a abrigar meninos, pintinhos e duplos deles embaixo de seu braço. Clarice ficou calada o resto da história, de asas e olhos fechados. Aborrecida ficou a leitora severa-apaixonada, a leitora apaixonada-severa.

O não-se-sabe-quem-narra que conta esta história, o conto encostado no Morro da Granja, narra que o poeta desconhecido experimentava palavras. De som e fúria se compunha. Tinha sido espanhol, depois voltou a ser morador de outros sítios, outras terras aradas, cultivadas em poesia não realista. Conta o não-se-sabe-quem-narra que o tal era um não-Homero, um não-Ulisses, e que Penélope a ele não aguardava. Ele namorava, na verdade, uma não-Penélope. Em não-naus ele navegava. Em não-barcos ele seria conduzido a um não-Hades.

– Digo isso, pensando na recorrência da construção/desconstrução do léxico com o qual o poeta desconhecido trabalha, e pelo uso recorrente da palavra fome, construidíssima, intacta, nada informe no livro desconhecido de poemas, de poesia imensa, enorme.

Falou João, autorizado pelo não-se-sabe-quem-narra narrador desta história.

E tem mais:

– Talvez, mais do que isso, na explicitação do social em poemas-não-poemas como o poema-não-poema da página 40, poema-não-poema 28.

Acrescentou o galo.

Os termos em oposição, o desconforto existente, insistente, lente, latente, cantavam de galo. Porém, João não era um galo-de-briga. Galo Zé ele não era. Nem Mané, nem garnisé. João era galo de beijo e de abraços, de lavar louça e de fumar seus cigarros de palha no avarandado da varanda da casa de Clarice. João era galo tabagista, viciado, mas de jogo ele não tinha vício, nem de briga. João era construtor, era pedreiro, era namorado de Clarice. Poeta apaixonado-severo, severo-apaixonado a leitora severa-apaixonada, apaixonada-severa ele sempre visitava. Depois, voltava para sua casa. Depois, ela novamente a visitava, voltava para sua casa, a visitava, voltava para casa.

Em jogo, ali, no livro desconhecido, inédito, estavam imagens não referentes, não na denúncia realista das condições sociais dos trabalhadores, mas como lirismo crítico. Na recepção que o galo-poeta fazia a poesia era quase narrativa. E por sobre o realismo caminhava, flutuava, como se acima dele estivesse, se colocasse, se posicionava. Aliás, a oposição a qualquer realismo parecia ser marca da poesia que João comentava.

– Essa poesia enorme, muito grande, muito disforme pode ser lida já na grande, e de longuíssima duração, poesia de vanguarda, da poesia concretista, cujo paideuma se faz por meio de nomes como Mallarmè, Maiacóviski, Erza Pound, James Joyce, Oswald de Andrade (todo o legado do Modernismo brasileiro), os irmãos Campos, o compadre ou comparsa deles Décio Pignatari, e o Tropicalismo, porque não?

Questionou o galo, o poeta namorado da leitora, agora abrindo os olhos para fechá-los novamente e ajeitar suas asas.

João disse poder, pois não necessariamente teria que ser. Explicando em seu texto recebedor do livro que havia lido e se comprometido a escrever sobre:

– O poeta desconhecido conhece esse paideuma, mas dele não necessariamente participa, comunga ou o aceita em seu livro. Ele mesmo me disse se afastar de Cummings, por exemplo. E me disse “trilhar caminho próprio”, depois de ter bebido da poesia e / ou dos poetas citados por mim.

E continuou:

– Veja-se o poema-não-poema 29. Ele faz o cânone concretista sangrar, na citação de poeta concretista. Ou no poema-não-poema seguinte em que outro conhecido poema concretista fica minimizado, esmaecido, aquarela em pastel pintado.

João pensou, pensou, pensou … decidiu continuar a recepção do livro de poemas. Clarice agora não apenas estava de asas e olhos fechados. Dormia e sonhava com Dante, com o João de antes. Sonhava com os Lusíadas, com Camões, com Homero. Talvez no seu sonho encontrasse Horácio e de beijos fosse coberta, fosse aquecida. Sonhava mesmo com outra visita do galo, seu namorado, seu companheiro de subidas e descidas.

– Se me ocupo dessa poesia, é para também dizer que também desvio do paideuma, não autorizando nem desautorizando a poesia do poeta desconhecido, pois penso ser uma poesia que não se quer autorizada, não se quer canônica. Ao contrário, briga com o cânone. Ela é uma poesia do delírio.

E, como falasse em sonho, e no sonho Clarice estava, João para escrever seu texto-recepção de poesia sonhou que montava num rinoceronte. Ele fazia dos textos do poeta desconhecido uma leitura, lia o livro agora comentado.

Era com licença poética que escrevia sobre o livro, não com rigor de analista. Pensava que influência, escola, diluição ou qualquer outra categoria dessas não se aplicava naquilo. Pensava em contaminação, afecção, numa certa doença, numa febre, numa logorreia, em síntese de poesia.

Se João sonhou com um rinoceronte era rinoceronte de Machado de Assis, não de Ionesco, nem de Salvador Dali. Rinocerontes outros, como os outros que não de Machado, eram outras ondas, outros delírios, outros baratos.

Considerou o livro dividido em duas partes. Optou por isso, porque dar conta das possibilidades todas seria paranoia. Sendo assim, a primeira parte era mais narrativa, contava uma história, a exemplo do poema-não-poema número 6 em que havia uma estilização lírico-crítica de tom memorialista.

João gostava de memória, contudo sabia que memórias não contam histórias, de memória a história não era feita. No máximo afeita próxima.

– Os poemas-não-poemas podem ser uma épica-não-épica, uma epopeia-não-epopeia. A segunda parte não é narrativa, ou é menos narrativa. As duas se encaminham como vetores para onde o poeta quer: explodir a linguagem. Isso se dá no não-poema que fecha o livro feito por meio de letras, sílabas, fonemas flutuantes, voadores, no espaço da página. Para muito leitor texto ilegível, hermético.

Explicou o galo.

Clarice acordava apenas para sacudir suas penas e ir se deitar de vez em sua cama.

– João, não vai acabar nunca esta recepção? Não acha que com isso você se dispersa, se desgasta? E se desvia de sua via de vida de escrita séria?

O galo deu a ela boa noite. Beijo-a e desceu a ladeira do Morro da Granja indo cantando para sua casa.

– Amanhã tem mais, Clarice. Quem sabe na hora do almoço venho aqui de novo. Prometo lavar a louça bem lavada depois da quirela.

Ficaram assim prometidos. Antes de amanhã chegar, e mesmo porque essa história do futuro não é. O galo terminou seu texto sobre poesia inédita, de poeta desconhecido.

O livro lido, recebido não colocava ovo. Não punha ovo em pé, nem inventava a roda de poesia nova. Fazia o ovo voar. Era ler para crer. Ver para ler. Ler para ouvir. A poesia que João lera era para além do que o poeta apaixonado-severo, severo-apaixonado tinha dito, tinha escrito sobre, inclassificável, sui generis, não se queria classificada.

– O que João disse não era verdade. Era uma irresponsabilidade crítica. Lembrem-se que o poeta apaixonado sonhou que montava num rinoceronte para ler o tal livro do poeta desconhecido. Que ele é delirante. E que se um mora ao pé de um morro, o outro num morro desconhecido.

Advertiu o não-se-sabe-quem-narra que contou esta história.

Caso mesmo era que o poeta desconhecido se queria querido, amado, gostado. E, por incrível que pareça, se queria canônico, autorizado.

Mas isso disse Clarice, no dia seguinte, quando João foi almoçar com ela em sua casa. Mas isso é pedaço de conto para outra história, não para conto contado agora.

– Agora, conto e João já foram embora.

Era uma vez um lugar em que era tudo dádiva. De dádiva e de divã tudo se compunha.

De fato, o poeta desconhecido, do livro de poemas de poesia imensa, não gostou do modo como foi recebido. Fez cara feia, torceu o nariz, fez bico, afinal era uma recepção de um pedreiro, de um construtor de galinheiros, não de um engenheiro.

Era uma vez um lugar em que ver o outro não era nada fácil, nada novo, quem dirá ser o outro? Colocar-se no lugar do outro? Era uma vez um lugar em que ser o outro não era nada fácil, ainda mais quando não se é a si mesmo ainda. Nem se é a si mesmo tão pouco. Era uma vez em Osten.

Tudo era dádiva, mas no divã o poeta desconhecido teria que deitar por muitos outros contos, por muito tempo ainda, por muitos anos. Era uma vez um lugar em que tudo era dádiva e divã, mas ser o outro não era para todo mundo, ser o outro era trabalho de (e para) poucos.

Era uma vez um lugar que era apenas lugar. Era uma vez João, o galo-poeta que foi autor de um texto, de uma controvérsia.

O tempo e o lugar eram o tempo e o lugar. Poetas, poetas. João era o galo que ainda canta.

Ao poeta desconhecido restou roer o osso de seu livro. Ao poeta desconhecido restou acariciar o ouriço.

 

 

 


Créditos na imagem de capa: Drawing Hands 1948 M.C. Escher