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Além do olhar: as artistas do Brasil

Corpo-território: maternidade, ancestralidade e ecologia nas obras de Yanaki Herrera e Sophia Pinheiro

Artista visual e mãe, Yanaki Herrera cursa Artes Visuais na UFMG. De raízes indígenas Quechua, Yanaki traz em sua trajetória a vivência entre Cusco, Lima e o Brasil. Sua produção artística utiliza a pintura e a experimentação em latão para desafiar estigmas patriarcais, posicionando a subjetividade materna como um ato de resistência anticolonial. Conheci o trabalho de Yanaki em meados de 2018. À época, a artista peruana realizou uma performance por ocasião de um evento na PUC-Minas sobre História das Américas. Desde então, esse momento permeia minhas memórias, uma vez que ali entendia que as raízes latino-americanas estavam por toda a parte. Muitas vezes, apenas a arte consegue despertá-la de maneira que ela sempre nos acompanhe. E assim foi com a dança, a música e os visuais que integravam a performance que assisti. Hoje tenho a alegria de falar um pouco sobre a trajetória de Yanaki e apresentar seu trabalho para quem ainda não teve a oportunidade de conhece-lo. A segunda artista cujo trabalho vamos analisar é Sophia Pinheiro. Natural de Goiânia, Pinheiro cresceu entre o chão caipira e a força do Cerrado. Para a artista, o bioma tem parte em suas criações, manifestando-se na resistência dos troncos das árvores e no movimento das águas. Além de artista visual, ela é também cineasta e educadora, com formação em Artes e Antropologia (UFG) e doutorado em Cinema (UFF). Pinheiro trabalha, atualmente, em São Paulo como professora da FAAP. Sua prática é definida, em suas palavras, como um exercício de “ver com os olhos da floresta” e abordam pedagogias contracoloniais e alianças com povos indígenas e feminismos. Alguns desses saberes também foram transformados em livros e filmes, que já circularam por diversos países. 

Ambas as artistas transitam pelas temáticas da ancestralidade indígena, da migração e da maternidade. A questão da colonialidade atravessa suas obras, fazendo-se território de disputas e de resistências. Yanaki Herrera, em seu portifólio de obras e de exposições, nos traz a sensibilidade da experiência da maternidade e cria, por meio da imagem e das palavras, espaços de subversão que priorizam o nascer, o cultivar e a vida em si. Para Herrera, a maternidade é, antes de tudo, uma forma de resistência em um mundo que deixa para trás a memória, a identidade e o afeto. Nos conectamos a suas obras a partir dos detalhes: uma vestimenta, um objeto, um costume que se assemelha àqueles experimentados no âmago do acolhimento materno. Sua obra é também um convite à reflexão acerca da condição da imigração, que ainda representa desafios às comunidades que vêm para o Brasil em busca de melhores condições de vida, segurança e mesmo pela preservação de manifestações culturais. Na mostra “Warmi Wasi”, realizada em Belo Horizonte, a vulnerabilidade imposta pela pandemia de COVID-19 encontra na maternidade um contraste. A artista explora temas como o trabalho de cuidado e a incerteza, constantes na vida privada que então ansiava por respostas e por soluções. Warmi Wasi, na língua quéchua falada em regiões como a de Andahuaylas, significa “casa da mulher”. Essa casa, na obra de Yanaki, não se limita ao espaço físico: ela é também a sensibilidade e o trabalho contínuo que conferem ao lar a certeza em tempos de dúvida. O trabalho da artista passa longe da romantização e nos lembra, de diversas formas, que a nossa existência só é possível porque gerações de mulheres se dedicaram a cultivar a vida tal qual uma semente: com paciência, errando e acertando, visando a floração. 

Nas palavras de Herrera em entrevista ao Portal Dasartes, seu foco recai sobre “a solidão da mulher-mãe-migrante que a partir da ausência surge a construção do próprio lar e a solidão se transforma em espaço, terra e morada acompanhada de elementos que dialogam com a terra de origem carregados de afeto e memória.” A exposição contou com cerca de 300 obras cujas técnicas variavam entre pinturas em aquarelas e acrílicas com suportes como papelão, canson, tela e oratórios de madeira. Gostaria de destacar, nesse texto, o trabalho com os oratórios, objetos historicamente associados às práticas religiosas cristãs em ambientes domésticos. Na obra “Puerpério”, Herrera nos traz uma imagem de uma figura feminina que sangra vertiginosamente. Por entre a angústia e a dor do processo de recuperação física e psicológica, a artista nos faz refletir sobre o expurgo de uma versão que seria anterior ao puerpério e que abre espaço para uma nova. Mais do que isso, a escolha do oratório como suporte para a representação é perspicaz pois evidencia a contradição entre a sacralização e a romantização das maternidades em relação à marginalização (e as reprimendas) experimentadas durante o puerpério. Pouco ou nada mencionado nas narrativas hegemônicas que vemos na televisão ou em livros, o puerpério é o período em que a mãe precisa nascer. Também nele há dor, há incerteza, há a necessidade do cuidado e da compreensão da parte de outras pessoas. 

O ponto de convergência que me fez querer investigar as intersecções entre as obras de Yanaki Herrera e Sophia Pinheiro é a presença das máscaras coloridas, cujas origens remontam às tradições nativas latino-americanas, como vetor das representações contracoloniais feministas. Em Herrera, elas estão presentes em suas performances de dança, como a que assisti em 2018, e em obras produzidas logo após a artista ter se tornado mãe. Segundo Yanaki em sua entrevista para Ana Clara Torres, do Estado de Minas, as máscaras andinas foram uma forma de criar conexões com seu filho a partir de histórias que integram as culturas peruanas e bolivianas: “Parti das cosmovisões andinas e seus preceitos para as pinturas no rosto do meu filho, que está sempre mascarado. Queria representar os seres encantados que acompanham as crianças. Eles são símbolo de proteção e, além disso, da mistura do humano e o animal, relacionando passado com a contemporaneidade”. 

Passando para a obra de Pinheiro, vemos as máscaras nos rostos das guerrilheiras, figuras femininas que, em suas práticas artísticas, representam a proteção sob a perspectiva tradicional nativa brasileira, mas também as lutas pelo reconhecimento da micropolítica. Em seu portifólio, Sophia desenvolve essa ideia. Para ela, “as ações micropolíticas como os cuidados e a criação da casa, de crianças, de animais, de plantas, da comida, de medicinas naturais, de espiritualidades. Os trabalhos de cuidado que não são remunerados e nem vistos como práticas políticas.” Os materiais e suportes com os quais a artista goiana trabalha vão do lápis sobre papel até o uso de pigmentos naturais como o urucum Huni Kuin, o barro Huni Kuin e tintas extraídas do território em que habita. Em um franco diálogo com a cosmovisão indígena como vista em Ailton Krenak, assim como nas investigações feitas por pesquisadoras como Sílvia Federici, Pinheiro trabalha a guerrilha pelas mãos encantadas das suas personagens como um potente recurso à perda da memória e à desvalorização do descanso no amor. As “Vândalas Mascaradas” de Sophia Pinheiro são todas as mulheres que, com muito trabalho e com muito afeto, sustentam a história de todo um território, ainda que não sejam reconhecidas para além do papel reprodutor. Nesse sentido, a raiva e a revolta encontram territórios profícuos na descoberta do corpo e na canalização das forças criadoras em uma nova realidade possível: integrada, consciente e responsável. A dimensão do cuidado, em Sophia Pinheiro, inclui uma ampla visão a respeito da responsabilidade com a ecologia. Não por acaso, suas obras também trazem as metáforas imagéticas das raízes, dos terrenos densamente arborizados e geograficamente diversos:

 

Figura 1 – “Barricadas”, de Sophia Pinheiro, 2021:

Fonte: Prêmio Pipa – Sophia Pinheiro. Disponível em: https://www.premiopipa.com/sophia-pinheiro/

 

Os trabalhos de Yanaki Herrera e Sophia Pinheiro convergem, portanto, na desconstrução da romantização das maternidades e das identidades latinas, oferecendo em troca uma visão crua e sagrada do cotidiano. Ao utilizarem elementos da cosmovisão andina e do Cerrado, as artistas estabelecem uma pedagogia contracolonial que valoriza a dimensão invisível do trabalho de cuidado e a força da ancestralidade como proteção. Suas obras funcionam como espaços onde a vulnerabilidade se transforma em força política e a memória se torna o alicerce para enfrentar as incertezas do presente. Elas reafirmam que o ato de cultivar a vida e a memória é, em última instância, o mais radical gesto de resistência contra o apagamento cultural em nosso continente. Em uma análise comparativa, a máscara aparece nas duas trajetórias não como um artefato de ocultamento, mas como um vetor de revelação de identidades insurgentes. A convergência estética que observamos transita entre a experimentação em latão e aquarelas de Herrera e os pigmentos naturais de Pinheiro e aponta para uma arte que é, fundamentalmente, orgânica e conectada ao chão que pisa.

 

 

 


REFERÊNCIAS

A GENTIL CARIOCA. Yanaki Herrera – Tal como sementes. Disponível em: https://www.agentilcarioca.com.br/exhibitions/90-yanaki-herrera-tal-como-sementes/ Acesso em 25 de maio de 2026.

DASARTES. Yanaki Herrera, Galeria de arte BDMG Cultural. Disponível em: https://dasartes.com.br/agenda/yanaki-herrera-galeria-de-arte-bdmg-cultural/ Acesso em 25 de maio de 2026.

PINHEIRO, Sophia. Portifólio. Disponível em: https://www.sophiaxpinheiro.com/ Acesso em 25 de maio de 2026.

Prêmio Pipa – Sophia Pinheiro. Disponível em: https://www.premiopipa.com/sophia-pinheiro/ Acesso em 25 de maio de 2026.

TORRES, Ana Clara. Artista peruana Yanaki Herrera abre exposição hoje na Casa Camelo. Estado de Minas, 3 de setembro de 2025. Disponível em: https://www.em.com.br/cultura/2025/09/7240236-artista-peruana-yanaki-herrera-abre-exposicao-hoje-na-casa-camelo.html

 

 

 


Créditos na imagem de capa: Reprodução. Mostra “Warmi Wasi: lutas coletivas e subjetivas”, de Yanaki Herrera. Portal Belo Horizonte. Disponível em: https://portalbelohorizonte.com.br/eventos/mostra/artes-plasticas/mostra-warmi-wasi-lutas-coletivas-e-subjetivas-de-yanaki-herrera

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