“Esse poeta em mim sempre morrendo

Se tenta repetir salmodiado:

Como te conhecer, arquiteto do tempo

Como saber de mim, sem te saber?”

—  Hilda Hilst

 

O tronco era coberto pelo manto de penas amarronzadas,

meticulosamente ajeitada, ela voa e é dotada de garras

No topo, cabeça e cara de coração, bico, narina, olhar vil

Cravou os quatro dedos, fincando-se e equilibrando-se, sã

Cobiçou roedores, degustando insetos magricelas, insossos

Berrou e estava cheia, ríspida, dançando no clarão da noite

 

Foi observada e ignorou, endotérmica, não dando a mínima

e, na ponta aguda de um castelo medieval, observou também

Vinha de matas e pradarias, escondia-se pelos penhascos

Logo, quando sentia-se entediada, pousava ali, esfíngica

Seu pescoço flexível, naturalmente silencioso, convertia-se

em 270 graus, revelando o singular de suas 14 vértebras

 

Deu-se a virgem entre todas as outras, robusta, intocada, fátua

e esquipava asas gigantescas, encovando fissuras ao vento

Seu noturno ricochete maquinal, concerne das aves de rapina

Cabalística, no que diz respeito ao que se considera perfeito,

atravessada de um método do Ser, fadada ao estado apoteótico

somente Era, Coruja-das-torres, das igrejas, telhados e terras

 

Assim, intrínseca, na autossuficiência de estar sempre só

Sua entidade ambivalente, marcada por contrastes agridoces

Criatura territorial, invocada e protetora, a guardiã da sabedoria

fez vida na primavera e despejou ovos, alvos e redondos, lisos

Tornou-se nova, tornou-se outra e retumbou quando nasceram

Saltou lá de cima e flutuou, mostrando-se íntima da lua cheia.

 

 

 


Créditos na imagem de capa: O sono da razão produz monstros (1797–1799). Autor: Francisco de Goya.