Como constituir uma educação que contribua para a construção de um mundo mais democrático e igualitário? Afinal, o mundo ocidental é marcado pela visualidade, e, a partir desta, pela construção da diferença. Tal modo de perceber a existência gerou uma sociabilidade baseada em uma hierarquia de corpos. Hoje, e desde os movimentos democráticos do século XX, emerge uma sociabilidade que tem, teoricamente, por fundamento a igualdade e a equidade entre os sujeitos formadores da nação. Mas como tratar essa teoria junto à concretude prática? No sentido de compreender como a memória histórica oficial nacional, a cultura mediática, os altos cargos burocráticos e empresariais, entre outros, reafirmam a exclusão de determinados corpos privilegiando outros.

            A pergunta que norteia esse ensaio é, justamente, como constituir uma educação que opere como elixir, ou propulsão inicial, para combater noções discriminatórias das mais diversas naturezas? Em uma monografia anteriormente publicada, discutimos a respeito da potência do ensino de História nesse movimento de mudança de paradigmas. Neste trabalho, tínhamos por objeto apenas a questão da negritude (o uso de personagens negros), mas podemos expandir para também tratar e defender a reafirmação da agência histórica de outros corpos minoritários. Sejam os LGBTQIAPN+s, as mulheres, os PCDs[2], etc., afinal, o modo dialético de construção negativa destes sujeitos funciona seguindo o mesmo modelo do que é ser negro.

A construção categórica da diferença

            Como bem demonstrou Oyeronke Oyewumi (2021), o ocidente moderno opera, dentro de uma perspectiva epistemológica, utilizando prioritariamente da visualidade. E é justamente por meio do modus visual que ocorre a construção do outro enquanto um corpo da diferença (2021, p. 41-42). Estamos falando da dialética discursiva que marcou toda a história da modernidade ocidental, em que há a definição de um nós (sempre branco) em contrapartida a um outro (sempre contra a norma). Oyewumi defende que a gênese desse discurso está na definição de uma diferença baseada em aparatos visuais que distinguem corpos. Unido a isso, há certa padronização de compreender o mundo por meio de um binarismo (2021, p. 430). Aí está a chave que fundamenta nossa análise, o sempre mesmo modo de funcionamento do preconceito: mulher X homem; negro X branco; gay X hetero; trans X cis; etc.

            Ou seja, em síntese: o padrão definido pelo discurso X os corpos que precisam ser normalizados. Dentro dessa perspectiva de análise temos diversos autores que nos ajudam a reafirmar tal tese. A própria Oyeronke Oyewumi (2023) demonstrou a constituição de atributos femininos ou masculinos, “se os homens são uma coisa, as mulheres são o oposto” (2021, p. 430). Edward Said (2003) usou do mesmo jogo dialético para demonstrar que o Ocidente construiu o Oriente por meio desse aparato da diferença (2003, p. 44-45). Jean Paul Sartre (1965, p. 89) e Frantz Fanon (2020, p. 108) são sucintos e poéticos, afirmaram, respectivamente, que o antissemita cria o judeu, e que o branco cria o negro. Mas, vale citar, a construção dessa diferença, ou seja, a constituição da norma e do anormal, não é casual. Tem razões evidentes e um objetivo claro de dominação.

            Tal perspectiva foi bem trabalhada, por décadas, por Michel Foucault (2003). Seu conceito de biopoder – esse conjunto de mecanismos que operam junto a uma estratégia geral de poder – é especialmente interessante para nós. Pois a criação deste poder baseado no controle dos corpos (e portanto da vida) vai de encontro das razões históricas de construção da diferença, e escancaram como o objeto desta construção é o mantimento de determinado grupo no, e com o, poder. Notamos, nesse sentido, que desde o século XV há um processo que tem desembocado na disciplinação do corpo despadronizado, seja pelo encarceramento, pelas técnicas penitenciárias, pelo trabalho forçado (escravidão e servidão), pela moralização, ou pela correção (2003, p. 3-7). A disciplina, nesse sentido, tem por princípio a individualização das multiplicidades para criar uma massa de comuns (2003, p. 16).

            Estamos visualizando à emergência do Estado moderno e do sistema capitalista, que necessitam, ambos, de uma massa de corpos domesticáveis e facilmente manipulados / controlados. Quando falamos de soberania, disciplina e segurança estamos tratando do mesmo modo exercido em realidades distintas. No sentido de que “a soberania se exerce nos limites de um território, a disciplina se exerce sobre o corpo dos indivíduos, e, por fim, a segurança se exerce sobre o conjunto de uma população” (2003, p. 15-16). O discurso, desta forma, funciona a partir da definição de uma linguagem que justifica essa realidade que não se baseia no natural, mas sim em uma construção histórica. Vale lembrar: a construção é histórica, mas não está presa no passado, é reafirmada todos os dias, seja pela disciplina militar, escolar, fabril, penal, operária ou partidária (2003, p. 16).

            Desta forma, e caminhando, notamos certa tendência da disciplina de classificar e determinar lugares sociais (2003, p. 75). Definir a norma e o padrão, e por meio desta projetar, e classificar e hierarquizar, o corpo que precisa ser padronizado. Para finalizar, podemos nos apropriar dos ensinamentos de Sueli Carneiro (2005). A autora trata, por meio da filosofia de Heidegger, de como a estratégia discursiva de negação da humanidade negra se pauta em negar o caráter ontológico dos sujeitos de cor. O mesmo pode ser ampliado para compreender o corpo minoritário. No sentido de que o ser humano é a união das dimensões ontológicas e ônticas, e esses corpos são aprisionados em caracteres ônticos, são, portanto, aprisionados no personagem estereotipado que lhes foi forjado pelo discurso. Ao passo que o corpo que foi normalizado é passível de existir por completo (“ser”), o corpo minoritário está preso no limbo do “não-ser”, ou “virá a ser” se adotar a norma (2005, p. 27-28).

A reafirmação da agência histórica do corpo minoritário

            Em uma monografia anteriormente publicada discutimos a potência do ensino de História para a construção de uma educação antirracista. A estratégia é simplória: como o uso de personagens históricos negros no ensino da História básica tem uma potência discursiva para combater os estereótipos fundados pela memória histórica e cultura midiática nacional (SILVA, 2025, p. 36 -37). A monografia, desta forma, se pauta em uma estratégia que mescla o ensino regular da história utilizando, no decorrer do conteúdo, de personagens históricos negros que foram agentes desses movimentos. Para tal, desenvolvemos estratégias didáticas utilizando personagens especificamente do Brasil Colonial (1500 – 1808), elegemos: Henrique Dias, Francisca da Silva, Gonçalo da Silva Minas, Antônio Francisco Lisboa, Vitoriano Gonçalves e João Manso Pereira (SILVA, 2025, p. 40).

            Essa proposta se baseia na ideia de enfrentar a construção estereotipada do que foi a construção das populações afro-brasileiras na história nacional. Os negros do passado estão presos em um lugar de memória encapsulado, em que se compreende que seu papel na construção da nação é o lugar da escravidão. Além de mentirosa essa categoria de “escravo-coisa”, ela extermina a agência e influência africana e diaspórica na formação do Brasil e da civilização humana (ROZA, 2014, p. 58). Como resposta, o uso desses personagens reafirma a agência desses sujeitos na constituição da nação brasileira. A mesma estratégia pode ser utilizada reafirmando a influência das mulheres, dos sujeitos LGBTQIAPN+, dos PCDs, entre outros, para a história nacional e global. Para o sucesso dessa estratégia, todavia, esses corpos não devem ficar presos a efemérides, mas devem se tornar realidade cotidiana no ensino da História (SILVA, 2025, p. 38).

À guisa de uma conclusão

A estratégia supracitada coloca enfoque no corpo minoritário e em sua importância para o desenrolar da história. Colocar esses sujeitos no cotidiano escolar é bater de frente com a memória histórica oficial e a cultura midiática que ocultam tais trajetórias em privilégio a um personagem típico ideal – os HEBM (homens, europeus, brancos, mortos), como diria Oyewumi (2023, p. 83). Esse é o primeiro passo que nós, como professores de história, podemos tomar. Tal iniciativa pode ser seguida pelos outros campos do conhecimento, resgatando as epistemologias existentes desses sujeitos. Todavia, vale lembrar, a solução dos déficits do mundo não está nas mãos dos professores. De nada bastará nossas ações individuais se estas não forem seguidas pela aprovação de leis e medidas de incentivo à educação da diferença e ao combate dos múltiplos preconceitos sociais. Mas não podemos ficar inertes, fazemos parte da constituição de uma outra (possível) educação!

 

 

 


NOTAS

[1] O título deste ensaio faz referência e segue a proposta desenvolvida pela educadora Luana Tolentino (2018).

[2] Sigla para Pessoa com Deficiência.

 

 

 


REFERÊNCIAS

CARNEIRO, Aparecida Sueli. A construção do outro como não-ser como fundamento do ser. Tese de doutorado. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2005.

FANON, Frantz. Pele Negra, Máscaras Brancas. São Paulo: Ubu, 2020.

FOUCAULT, Michel. Segurança, território, população: curso dado no Collège de France (1977 – 1978). São Paulo: Martins Fontes, 2003.

OYĚWÙMÍ, Oyèrónkẹ́. A invenção das mulheres: construindo um sentido africano para os discursos ocidentais de gênero. São Paulo: Bazar do Tempo, 2021.

ROZA, Luciano Magela. A história afro-brasileira pós-abolição em livros didáticos. Tese

de doutorado. Belo Horizonte: Universidade Federal de Minas Gerais, 2014.

SAID, Edward W. Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente. São Paulo: Companhia de Bolso, 2003.

SARTRE, Jean Paul. Reflexões sobre o racismo. São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1965.

SILVA, Luiz R. R. O negro de frente ao espelho: o uso de personagens negros no ensino de História (Brasil Colonial, 1500 – 1808). Monografia. Ouro Preto: Universidade Federal de Ouro Preto, 2025.

TOLENTINO, Luana. Outra educação é possível: feminismo, antirracismo e inclusão em

sala de aula. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2018.

 

 

 


Créditos na imagem de capa: Sidney Amaral, Incômodo, 2014.