Uma das definições de Deus no período medieval, consiste em interpretar ele como uma esfera, em que o centro está em todos os lugares e a circunferência em nenhum1. Uma definição simples, porém não simplória. Ela explica como Deus não pode ser compreendido a partir do tempo humano, ele existia antes da criação do homem e existirá depois da salvação final. Logo, tanto o fim de sua extensão quanto sua origem não podem ser encontrados, seu centro está em qualquer lugar e ele está em todos os lugares, e portanto ele é tanto o centro quanto a circunferência nas pessoas e no mundo. Essa onisciência, onipotência e onipresença do Deus ocidental medieval era representada pelos membros da igreja católica, que eram responsáveis por organizar a vivência da sociedade segundo a providência Divina, e consequentemente a salvação dos homens no tempo.
A forma que melhor exprime a compreensão do tempo catolico é a linha. O tempo é uma fração do tempo infinito de Deus, e a linha corresponde de maneira coerente ao modo bíblico de pensar a participação do homem no mundo2. Deus entregou à Adão o poder de escolha sobre seus atos em Gênesis 2:16-17 (BÍBLIA, 1993) quando ordena que ele não coma os frutos da árvore do conhecimento do bem e do mal, mas deixa ela entre as outras que produzem frutos que ele pode comer. Deus dá uma ordem, mas também permite Adão escolher obedecer ou não, assim como os homens ao longo da linha do tempo. Logo, há 2 histórias com 2 tempos diferentes, mas interdependentes: a história secular (resultado da vida dos homens) e a história sagrada (momentos que Deus intervém e se manifesta na história), ambas se entrelaçam e formam a linha. O catolicismo utilizou a ideia de que as Escrituras foram feitas sob influência da inspiração Divina, ou seja, elas continham a manifestação da vontade e palavra de Deus. Portanto, tanto a história sagrada quanto a história secular são parte do tempo de Deus, em que ele revela aos membros da igreja e aos reis a redenção através da revelação.
Como portadores da revelação Divina e sob o discurso de Deus intervir na sociedade através deles, é criado na Idade Média uma cultura de repressão. Ela se impõe através do medo, pois invoca para si a posse do julgamento Divino, e usa deste fator como ferramenta para estabelecer definições morais oficiais. Essa cultura também estabeleceu uma forma de estar no mundo, construída de forma hierárquica e vertical, em que no topo estavam a coroa e o rei e em baixo estava os senhores e o feudo. Essa mentalidade foi bem desenhada por Dante ao escrever a divina comédia, em que o inferno começa em baixo e o caminho para o céu é uma subida, que perpassa pelo purgatório. A prática dessa cultura consistia em incorporar o medo dos homens e usá-los como meio de educar o povo, que ao mesmo tempo fazia a manutenção dessa hierarquia. Nesse contexto, o catolicismo desenvolve discursos e práticas para estimular o medo. A figura de satã é desenvolvida e reforçada em pregações, esculturas, e na literatura popular, sendo associada ao pecado3. Nas pregações a figura do monstro e do fantasma também eram comuns. Os fantasmas apareciam para intimidar e alertar os pecadores sobre seus atos. O medo do aparecimento de fantasmas impunha o padrão de comportamento social. A propagação desse imaginário era feita principalmente em sermões oficiais, tanto em igrejas quanto em praças. O medo foi utilizado em discursos como parte de um sistema organizado de poder simbólico e social para reforçar a autoridade religiosa e política.
O desenvolvimento dos discursos religiosos para aumentar seu controle sobre a salvação da alma humana, deu origem ao purgatório, lugar em que os mortos podiam ser purificados dos pecados cometidos em vida. O purgatório se insere no interior do pensamento religioso demandando que o pecador faça uma conversão interna. Neste lugar, os mortos sofrem castigos parecidos aos do inferno, aplicados por demônios. O tempo do morto no purgatório depende não apenas da quantidade de pecados que ainda carregam quando morrem, mas da afeição de seus próximos na terra. Logo, os fantasmas dos mortos hospedados no purgatório apareciam em sermões oficiais e no imaginário social para pedir e avisar sobre o que aconteceu após sua morte, e também alertavam sobre a salvação de seus parentes e amigos próximos no mundo. Os mortos não estão mais no tempo secular, mas eles voltam para a história dos homens como manifestações Divinas.
Em meados do ano 1220, Cesário de Heisterbach descreve um sermão que demonstra a aparição de um fantasma que vêm do purgatório:
O monge. Um usuário de Liége morreu, em nossa época. O bispo mandou expulsá-lo do cemitério. Sua mulher foi até a sede apostólica implorar para que fosse enterrado em terra santa. O papa recusou. Ela defendeu então seu esposo: ‘disseram-me, Senhor, que homem e mulher são apenas um e que, segundo o Apóstolo, o homem infiel pode ser salvo pela mulher fiel. O que meu marido esqueceu de fazer, eu, que sou parte de seu corpo, farei de boa vontade em seu lugar. Estou disposta a me tornar reclusa por ele e a redimir junto a Deus seus pecados’. Cedendo às preces dos cardeais, o papa mandou devolver o morto ao cemitério. Sua mulher escolheu um domicílio junto de seu túmulo, trancou-se como reclusa e se esforçou dia e noite para apaziguar Deus a fim de salvar sua alma por meio de esmolas, jejuns, preces e vigílias. Ao final de sete anos, seu marido lhe apareceu, vestido de preto, e lhe agradeceu: ‘Deus lhe pague, pois graças às suas provações fui retirado das profundezas do inferno e das terríveis penas. Se me prestar tais serviços por mais sete anos, estarei completamente livre’. Ela o fez. Ele lhe apareceu novamente ao final de sete anos, mas, desta vez, vestido de branco e feliz. ‘Obrigado a Deus e a você, pois fui libertado hoje’.
‘O noviço – Como ele pode, hoje, se considerar livre do inferno, lugar de onde não há remissão possível?’
O monge – […] A mão do inferno, as profundezas do abismo, isso significa aqui as agruras do purgatório (LE GOFF, 2022, pág, 77).
O sermão esclarece a permissão de Deus para um breve retorno da terra dos mortos como fantasma. No purgatório, o morto está no tempo de Deus, fora do tempo dos homens. Quando ele aparece como fantasma, ele retorna ao tempo dos homens ainda estando no tempo de Deus, coexistindo e entrelaçando ambos os tempos e história. Dessa forma ele introduz no imaginário do público dos sermões, as dores do inferno, e a existência do purgatório, tanto como aviso quanto como pedido de ajuda para a salvação da sua alma.
Deus é anterior ao tempo dos homens (que começa na criação) e existirá depois do juízo final (fim do tempo dos homens), portanto o tempo e a história dos homens e os de Deus, coexistem e se entrelaçam no imaginário medieval. A Igreja como representante de Deus estabelece um sistema de poder simbólico que se baseia no medo de satã, dos fantasmas e do purgatório. Nesse contexto, foi criado um imaginário com uma hierarquia vertical, em que os sermões que provocam medo não apenas educam, mas também orientam a salvação da alma. Os sermões medievais transformam o tempo, a morte e o além em formas de poder, que alimentam a autoridade da Igreja na condução da vida e da salvação da alma. A salvação passa a depender tanto da vida quanto das ações dos vivos em favor dos mortos. Logo, o medo e a fé se tornam bases do controle e da esperança no mundo Cristão.
NOTAS
1 “Deus é uma esfera infinita, cujo centro está em todos os lugares e cuja circunferência está em lugar nenhum.” (TER REEGEN, 2002, p. 442).
2 “A imagem que melhor sintetiza o tempo, tal como o pensamento cristão o concebe em sua sucessão contínua de momentos é a linha. Essa imagem corresponde em primeiro lugar a forma bíblica de pensar o desenrolar da presença do homem no mundo. […] o tempo é pensado como a tensão entre a Criação, a gênese e o futuro, que coincide com o fim dos tempos” (BIGNOTTO, pág. 180).
3 “Satã faz então sua grande entrada em nossa civilização. Anteriormente abstrato e teológico, ei-lo que se concretiza e reveste nas paredes e nos capitéis das igrejas toda espécie de formas humanas e animais.” (DELUMEAU, 2009. pág. 354).
REFERÊNCIAS
BAKHTIN, Mikhail, Cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais, São Paulo, Editora da Universidade de Brasília, 1987.
BÍBLIA, Almeida Revista e Atualizada. Sociedade Bíblica do Brasil, 1993. Disponível em: https://www.bibliaonline.com.br/ara. Acesso em: 18 jun. 2025).
BIGNOTTO, Newton. O círculo e a linha. Disponível em: [https://toaz.info/…]. Acesso em: [24/06/2025].
DELUMEAU, Jean, História do medo no ocidente 1300-1800 : uma cidade sitiada, São Paulo, Companhia das Letras, 2009.
LE GOFF, Jacques. A bolsa e a vida, Economia e religião na Idade Média. Petrópolis, Rio de Janeiro, editora vozes, 2022.
TER REEGEN, Jan G. LIBER VIGINTI QUATTUOR PHILOSOPHORUM – O LIVRO DOS VINTE E QUATRO FILÓSOFOS. Veritas (Porto Alegre), [S. l.], v. 47, n. 3, p. 441–452, 2002. DOI: 10.15448/1984-6746.2002.3.34889. Disponível em: https://revistaseletronicas.pucrs.br/veritas/article/view/34889.
Créditos na imagem de capa: Fr Lawrence Lew OP/Flickr
