O dia 01 de setembro de 2025 marcou o que seria o aniversário de 139 anos de Tarsila do Amaral, pintora modernista brasileira. Conhecida pela autoria de obras como “Abaporu” (1928) e seu envolvimento nos movimentos modernista e antropofágico, o trabalho de Tarsila retratou elementos reais e imaginários, traduzidos e interpretados em diferentes estilos e fases da longa carreira da artista. Uma das características de algumas pinturas suas é o fato de retratarem eventos e situações que, na atualidade, não existem mais, como a obra “Carnaval em Madureira” (1924), que retrata a celebração carnavalesca no dito bairro e ano. Porém, será que ainda existem elementos retratados nas obras de Tarsila que ainda existem?
Durante uma temporada na União Soviética em 1931, a pintora modernista brasileira Tarsila do Amaral entrou em contato com questões sociais e a causa operária. Ao retornar ao Brasil, mais especificamente para São Paulo, a artista resolveu retratar em suas obras a realidade operária da capital paulista, palco de diversas transformações e surgimento de indústrias. O resultado é a chamada “Fase Social” da carreira de Tarsila, marcada por dois trabalhos: “Operários” (Figura 1) e “Segunda Classe”, ambas de 1933 .

Como o nome sugere, a obra “Operários” retrata trabalhadores de fábricas. Seu primeiro plano é composto por rostos de trabalhadores pintados em tons terrosos, neutros e sérios, organizados no canto direito da tela, como uma grande massa. A divisão entre o primeiro e o segundo plano é feita através de uma “linha” diagonal, sendo o segundo plano constituído por um céu azul, uma fábrica e suas torres, da onde sai fumaça. Em uma análise da obra, Favreto e Ribeiro (2024, pgs. 130-131) destacam que é possível identificar traços étnicos diversos entre os personagens do quadro, que possuem rostos cansados e apáticos, não possuem hierarquia visível, e aparentam estar em uma marcha silenciosa
Segundo Pinheiro (2015, p. 149), a obra de Tarsila atua como crítica à situação desumana vivida pelos trabalhadores, submetidos a longas jornadas de trabalho, salários baixos e abusos sofridos em prol do enriquecimento dos empresários. Tanto para Pinheiro (2015, p. 147) quanto para Favreto e Ribeiro (2024, p. 130), a obra não possui um personagem principal, possuindo personagens diversos, com traços étnico-culturais bem marcados, indicando uma diversidade de pessoas, mas que compõem uma só identidade, a de trabalhadores.
90 anos após a pintura do quadro, a situação retratada por Tarsila ainda é existente, persistente e vivenciada por muitos. A Imagem 2, de Paulo Pinto, divulgada pela Agência Brasil em janeiro de 2025, retrata um enorme grupo de pessoas na Estação da Sé do metrô de São Paulo, tentando embarcar no transporte após um alagamento na cidade. Assim como na pintura de Tarsila, as características diversas e individuais de cada pessoa presente na foto não é de importância, uma vez que, na cena retratada, todos são massificados sob o conceito de “trabalhadores”. 92 anos separam as imagens 1 e 2, mas a situação de desigualdade social experienciada pelos trabalhadores permanece a mesma.
A desigualdade social vivida pelas pessoas da imagem 2 é presente em diversas formas: seja pelas longas jornadas de trabalho, longas horas passadas nos transportes para ir e voltar do trabalho, ou pelos salários que não correspondem às horas trabalhadas e dificilmente cobrem o custo de vida em um lugar como São Paulo. Tal experiência é “parecida” com aquela vivida pela maioria dos trabalhadores na mesma cidade, no período em que a obra de Tarsila foi produzida: a obra “Memória e Sociedade: lembranças de velhos” (1994), de Ecléa Bosi, traz alguns relatos de trabalhadores de São Paulo nos anos 1920-1940. Ao focar nos trabalhos realizados, os entrevistados abordam questões como os salários baixos, condições de moradia e trabalho precárias.
Pode-se perceber que essa situação não é uma novidade, e muito menos algo exclusivo da capital paulista. Pelo contrário, é uma situação anterior à pintura de Tarsila, mas que vem sendo perpetuada e mantida. Uma pesquisa dirigida pelo Instituto de Pesquisa DataSenado em 2024 indagou as opiniões dos participantes a respeito de questões como valor do salário, qualidade de vida e jornada de trabalho, onde a maioria das respostas girava em torno da insatisfação com os temas supracitados.
A permanência de situações precárias e desiguais nos ambientes de trabalho brasileiro tornou-se tópico de debate com as manifestações pelo fim da escala 6×1, realizadas com mais intensidade desde o início de 2025. Um dos principais argumentos a favor do fim da escala é, justamente, a oportunidade de promover melhor saúde mental e equilíbrio entre vida profissional-vida pessoal para os trabalhadores.
Acabar com a escala 6×1 não eliminaria os outros fatores que contribuem para a enorme disparidade social existente entre os donos de empresas e seus empregados, visto que, para começar a solucionar esse problema, outros movimentos e reformas seriam necessários. Porém, a existência desses debates trazem à tona reflexões sobre a permanência das situações retratadas na obra de Tarsila e na fotografia de Paulo Pinto, situações cujas origens são anteriores à cena retratada por Amaral, mas que vem sendo mantidas e perpetuadas, aumentando a desigualdade social existente na vida de diversos trabalhadores no Brasil.
Enquanto muitas cenas eternizadas pelas pinceladas de Tarsila foram frutos de sua imaginação, outras mostravam-se como retratos do cotidiano da artista. Porém, apesar de mais de um século separar o cotidiano da artista do tempo atual, diversos elementos ainda permanecem, fazendo com que parte da arte modernista não retrate apenas sonhos e imaginação, mas também as permanências de desigualdades e problemas sociais.
REFERÊNCIAS
BOSI, Ecléa, Memória e sociedade: lembranças de velhos, 3ª ed., São Paulo: Companhia das Letras, 1994.
DATA SENADO. Pesquisa sobre jornada de trabalho e qualidade de vida. 2024-2025. Disponível em: https://www.senado.leg.br/institucional/datasenado/relatorio_online/pesquisa_trabalho/2024/interativo.html
FAVRETO, Elemar Kleber; RIBEIRO, Anderson Pereira. Trabalho e alienação em Tarsila do Amaral: reflexões sociais a partir da leitura de imagem interdisciplinar da obra “Operários” in ALMEIDA, Flávio Aparecido (org), Trabalho, Capitalismo e Migrações: reflexões, reflexos e ações. Vol 1, 2024, p. 121. Disponível em: https://www.editoracientifica.com.br/books/chapter/trabalho-e-alienacao-em-tarsila-do-amaral-reflexoes-sociais-a-partir-da-leitura-de-imagem-interdisciplinar-da-obra-operarios
G1 PARANÁ. Fim da escala 6×1? Os impactos de uma possível mudança nas jornadas de trabalho. 01/04/2025. Disponível em: https://g1.globo.com/pr/parana/especial-publicitario/dixi-solucoes/noticia/2025/04/01/fim-da-escala-6×1-os-impactos-de-uma-possivel-mudanca-nas-jornadas-de-trabalho.ghtml
PINHEIRO, Amanda Costa. As classes sociais em “Cidadão” e “Operários”. Revista Urutágua, vol 33, 2015, p. 139. Disponível em: https://periodicos.uem.br/ojs/index.php/Urutagua/article/view/30816/16668
TARSILA DO AMARAL, Fase Social. Disponível em: https://www.tarsiladoamaral.com.br/c%C3%B3pia-antropof%C3%A1gica
Imagens:
AMARAL, Tarsila. Operários. 1933. Disponível em: https://www.tarsiladoamaral.com.br/c%C3%B3pia-antropof%C3%A1gica?pgid=lsdp033f1-e67678b4-d943-41a5-ac09-377feab7ec90
PINTO, Paulo. São Paulo (SP), 24/01/2025 – Metrô Sé lotado após chuva que alagou acidade. Agência Brasil. 24/01/2025. Disponível em : https://agenciabrasil.ebc.com.br/foto/2025-01/transporte-em-sp-apos-chuva-1737765435-2
Créditos na imagem de capa: Operários, 1933; Tarsila do Amaral; óleo sobre tela, c.i.d. 150,00 cm x 230,00 cm Acervo Artístico-Cultural dos Palácios do Governo do Estado de São Paulo. Palácio Boa Vista (Campos do Jordão, SP). Disponivel em: https://enciclopedia.itaucultural.org.br/obras/82341-operarios