HH Magazine
Ensaios e opiniões

E se Deus fosse uma mulher negra?

O título, que carrega uma pergunta provocativa, revela uma fissura na história das imagens somada à história das crenças: quem definiu a figura do divino? O que essa representação, consequentemente, exclui? A artista Harmonia Rosales, a partir da obra Criação de Deus (2017), propõe uma ruptura, para além de ofertar uma arte visualmente impactante. Ao fazer uma representação de Deus católico a partir da figura de uma mulher negra, Rosales desafia o imaginário cristão ocidental, dando espaços para outra possibilidade cosmológica. Dentro das obras da artista, é possível estabelecer um diálogo com a perspectiva afrocêntrica[1] reivindicada pelo filósofo Molefi Kete Asante (2003), o que permite investigar como a arte pode deslocar o centro, alvoroçar o imaginário colonial e oferecer à mulher negra a capacidade de criar e (re)existir no espaço sagrado.

Harmonia Rosales é uma artista visual negra estadunidense, filha de pai cubano, que se debruça na arte para questionar e ressignificar imaginários ocidentais. Em diferentes entrevistas, Rosales expõe que o seu desejo de produzir releituras de obras renascentistas surgiu após perceber a insatisfação de sua filha em relação aos quadros clássicos de artistas como Sandro Botticelli e Michelangelo, por exemplo. A criança notou a ausência de pessoas negras nas representações, ausência essa que não é neutra. A partir dessa crítica, a artista decidiu trazer para suas releituras seus referenciais culturais, objetivando questionar a normatividade visual eurocentrada ao se utilizar das temáticas e histórias que circundam a comunidade negra africana e afro diaspórica e a religião iorubá.

Em seu website oficial, a artista reafirma um compromisso com o empoderamento feminino e com a diáspora negra. Sendo assim, a sua homenagem às mulheres negras é um posicionamento político que tem interesse em reinscrever esses corpos, marginalizados historicamente, no centro da narrativa histórica, artística e a depender da obra, no campo espiritual. A representação de mulheres como figuras divinas e sagradas oferece uma nova abordagem artística onde o feminino carrega consigo uma potência.

A obra Criação de Deus (2017), no original The Creation of God, é uma releitura de A criação de Adão (séc. XVI) de Michelangelo, pintada no teto da Capela Sistina. Nesta arte, Rosales mantém toda a referência, como a composição visual e o enquadramento, mas faz uma ressignificação radical ao substituir a figura do Deus homem, branco e idoso por uma mulher negra com cabelos brancos que representa a ancestralidade e sabedoria. Sua obra não é somente um gesto estético, trata-se, portanto, de uma intervenção crítica no imaginário cristão ocidental ao posicionar o corpo negro feminino em um espaço de centralidade. Agora, ele não ocupa mais a margem.

 

ROSALES, Harmonia. Creation of God [obra em imagem digital]. 2017.

Além de Deus representado à direita pela mulher de roupa rosa fluída, que representa uma divindade materna, há o que interpreto como Eva que, ao nascer do barro da terra, emerge nua e recebe o toque divino. Ao substituir Adão pela matriz feminina, a obra de Rosales celebra a negritude, a ancestralidade e reafirma a mulher negra como a origem e continuidade da vida.

Em diálogo com o método afrocêntrico evocado por Asante (2003), a artista retira o foco das narrativas eurocêntricas e traz a experiência negra para o centro de uma produção simbólica. O que o filósofo chama de “deslocamento do centro” é visível na construção artística de Rosales, uma vez que a sua pintura reorganiza os sentidos da estética renascentista ao reinterpretar e ressignificar símbolos da arte clássica ocidental mobilizando as experiências e estéticas africanas e afro-diaspóricas. Sua arte, portanto, é um espaço de criação e manutenção das memórias da comunidade negra que dialoga com diferentes dimensões: estética, histórica, política e cultural.

O método afrocêntrico pensado pelo filósofo Asante reconhece que os mitos fundacionais da civilização europeia são armas ideológicas ao reforçar as desigualdades e naturalizar hierarquias raciais, culturais e de gênero. A obra de Harmonia Rosales se insere neste debate ao buscar romper com tais ferramentas ao revelar o quão elitista, artificial e excludente são essas imagens ditas universais. O incômodo de sua filha ressoou na sua produção à medida que transformou-se em uma questão central na sua produção artística. Tal desconforto é também uma pergunta política que se apresenta de forma constante: por que nós, pessoas negras, não somos contempladas em diferentes esferas? Como proposto pela intelectual Grada Kilomba (2019), essa exclusão que apresenta-se, também, na história da arte e na filosofia ocidental, é um projeto de apagamento. Se questionar, de maneira constante, sobre quem pode ser representado e quem pode criar é expor camadas ditas universais mas que são marcadas por violência. Ao desestabilizar o cânone com suas artes, Rosales afirma que o feminino, o negro e o sagrado, em conjunto, fundam mundos possíveis.

Reconhecer a própria posição no processo de investigação é um dos princípios fundamentais do método afrocêntrico de Asante. Tal prática desafia o autor a rejeitar o distanciamento neutro, exigindo o questionamento do próprio olhar e a inserção no contexto histórico, cultural e político. Como mulher negra e pesquisadora na área de História da África e História das Mulheres, reconheço a dimensão da obra de Rosales e abraço a responsabilidade da artista. Carrego um compromisso de fomentar o deslocamento do centro eurocêntrico a partir de uma demanda atual por representatividade, justiça e reexistência da comunidade negra.

E se Deus fosse uma mulher negra? A pergunta não busca somente provocar, mas tornar visíveis as rachaduras das estruturas. Harmonia Rosales, a partir da sua arte, propõe que nosso pensamento vá para além do que vemos, precisamos questionar como fomos ensinados a ver. Sua obra nos convida a repensarmos o centro, visualizando outras cosmologias, criações, mundos e futuros, onde o divino seja o reflexo de corpos diversificados, histórias e saberes que agora podem — e devem — ser representados.

 

 

 

 


NOTAS:

[1] O Afrocentrism de Molefi Kete Asante — que também pode ser traduzido como “afrocentricidade” — não é o oposto do eurocentrismo. A norma eurocêntrica impõe uma visão hierárquica e universal centrada na experiência europeia, enquanto o afrocentrismo propõe uma reorientação epistêmica, recentrando a experiência africana como legítima e necessária para a compreensão das histórias e culturas africanas e afro diaspóricas.

 

 

 


REFERÊNCIAS:

ASANTE, Molefi Kete. Afrocentricity: The theory of social change. Trenton: African American Images, 2003.

GELEDÉS – Instituto da Mulher Negra. Artista afro‑cubana recria arte renascentista com negros como figuras principais. Geledés, [São Paulo], 26 set. 2023. Disponível em: https://www.geledes.org.br/artista‑afro‑cubana‑recria‑arte‑renascentista‑com‑negros‑como‑figuras‑principais/. Acesso em: 8 ago. 2025.

KILOMBA, Grada. Memórias da plantação: episódios de racismo cotidiano. Petrópolis: Vozes, 2019.

ROSALES, Harmonia. The Creation of God [obra visual]. 2017. Disponível em: https://harmoniarosales.com/. Acesso em: 8 ago. 2025.

 

 

 


Créditos na imagem de capa: ROSALES, Harmonia. Creation of God [obra em imagem digital]. 2017.

Related posts

Weintraub atualiza uma compreensão antiquada de “povo brasileiro”

Renan Siqueira Moraes
6 anos ago

A Troca de Pele Criadora — GE 革: Princípios Éticos para o Uso Consciente da Inteligência Artificial na Criação Humana

Erich Georg
10 meses ago

Distrito 9: imagens de colonização, imagens de migração

Gutemberg de Queirós Lima
1 mês ago
Sair da versão mobile