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Comunicação atual e a política poética das palavras

Em casa com uma psicopata VII – Paixão e solidão no Carnaval

Colombina e Arlequim em Lumiar.

Primeira viagem com meu adolescente enamorado. Em família – a dele, e a de um casal amigo -, subimos a estrada Serramar. Beto Guedes tocando no rádio, meu já falecido introspectivo sogro, um tipo à la Paul McCartney, com a mão direita ao volante, e, na mão esquerda, um cigarro dependurado. Ao seu lado, minha vivíssima sogra, uma falante potiguar bela e sem pareia, também com um cigarro dependurado, mas na mão direita. Tinham isso em comum: fumavam, e os filhos.

Eu, no banco de trás, estava no meio: mão do meu namorado na minha coxa, cabeça da minha cunhada de 8 anos cochilando no meu ombro. Minha primeira vez em Lumiar. No caminho, Beto Guedes tocando no rádio, me “contavam casos” e eu imaginava “como deve ser Lumiar”. Eu ouvia tudo, até a playlist que meu namorado fez pra mim e colocou no MP3. Um fone em cada ouvido, apaixonado, ele acarinhava minha perna ao som de “maybe I’m amazed at the way you pulled me out of time / and hung me on a line / and maybe I’m amazed at the way I really need you”.

Lá, em Lumiar, era aquilo, mesmo: “dormir e sonhar, acordar sem querer, passar café, deitar no sereno, caçar sapo”. Sorvete de morango com chocolate, namorinho no coreto da praça, no MP3 dividido agora tocava “Kukukaya, eu quero isso aqui / Kukukaya, olha esse cachorro aqui” – e, bem na hora, realmente passava um cachorro (!), enquanto um sapo pulava. Risadas e “abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim”. E chopp com bolinho de bacalhau no principal restaurante do centro.

Acontece que era Carnaval, e “cada ser”, que “tem sonhos à sua maneira”, também deseja, à sua maneira, dar lugar aos desejos da carne na “noite severina”. O outro casal, de amigos, seguia um não incomum roteiro: filhos encaminhados, o homem de meia-idade não é exatamente feio, mas descuidado. Com certeza foi um gato quando era mais jovem, viril e decisivo, mas entregou os pontos. Dia a dia confunde paz com lavar as mãos. Escolhe a apatia mas acha que é estabilidade. Frustra o gozo com bronha, o saciar-se com comer. Não acordava, e se acovardava. Todos sabem que ele “tem um segredo: tem medo. Só pensa agora em voltar. Não fala mais na bota e do anel de Zapata, nem de tudo que devia ser”.

“Ele não deixava que ela falasse de tudo, de tudo o que ele podia ser na estrada.” Mas ela falava. A mulher desse casal também tinha lá sua tipicidade: derramava a libido acumulada da falta de apetite do marido. Usava tamanco, saia curta, decote, pouco pano que “tateava sua pele fina”. “Chama no pavio da lamparina”, parecia ter nascido de Nelson Rodrigues, sido vista por Honoré de Balzac, abandonado Charles Bukowski em algum bar qualquer. Era bonita, intensona, bronzeada – quase a própria praia. Seu desejo falava alto e todos o escutavam chamando para carnavalizar, ser canibalizado. Não parecia estar em Lumiar (e não estava).

É lógico que estavam em crise. Ela pensava, sobre o homem, que ele “ainda pensa e é melhor do que nada”, mas nem disso tinha certeza. Pensava mesmo? Ou tinha se tornado um fracote – talvez nem mais homem, um omem sem h? Na segunda de Carnaval, gritos e berros – e não é nada disso que você está pensando. Lumiar deslumiou. O tempo fechou, ficou sem clima. Todo mundo foi deitar cedo. Eu fiquei ouvindo o MP3 compartilhado com meu namorado, e agora já estava na parte “maybe I’m a man, maybe I’m a lonely man / who’s in the middle of something / that he doesn’t really understand / maybe I’m a man, and maybe you’re the only woman / who could ever help me / baby, won’t you help me to understand?” Nem parecia Carnaval!

Após um longo “silêncio que ‘póscede’ o esporro”, ouço móveis se arrastando, latinhas de cerveja estalando, pastéis sendo fritos, televisão sendo ligada. A mulher colocou a TV na varanda, sintonizou nos desfiles das escolas de samba do Rio, se emperequetou toda, e sambou all night long. Só ela, Colombina. Sozinha, foi até de manhã bebendo, comendo, curtindo. O Arlequim? Nem vi.

Pouco tempo depois, veio o divórcio. E pouco tempo depois do tempo depois, estava ela de volta à Lumiar, “nuvem cigana”, com um homem de 21 anos, amigo do meu namorado. Mas, essa é outra história, para outros carnavais.

Carnaval: palavra mulher.

 

 

 


REFERÊNCIAS

BAIA, Maurício. Tu. In: Habeas Corpus. Rio de Janeiro: Independente, 2011.

FRANÇA, Cátia de. Kukukaya. In: 20 Palavras ao Redor do Sol. Rio de Janeiro: RCA Records, 1979.

GUEDES, Beto; NASCIMENTO, Ronaldo Bastos. Lumiar. In: Amor de Índio. Rio de Janeiro: EMI-Odeon, 1977.

JOBIM, Antônio Carlos; MORAES, Vinicius de. Chega de Saudade. Intérprete: João Gilberto. In: Chega de Saudade. Rio de Janeiro: Odeon, 1959.

McCARTNEY, Paul. Maybe I’m Amazed. In: McCartney. Londres: Apple Records, 1970.

MELO NETO, João Cabral de; QUEIROGA, Lula. Noite Severina. Intérprete: Lula Queiroga. In: Aboiando a Vaca Mecânica. Recife: Independente, 1994..

NASCIMENTO, Milton; GUEDES, Beto. Nuvem Cigana. In: Clube da Esquina. Rio de Janeiro: Odeon, 1972.

NASCIMENTO, Milton; BORGES, Lô. Tudo o Que Você Podia Ser. In: Clube da Esquina. Rio de Janeiro: Odeon, 1972.

O RAPPA. O Silêncio que Precede o Esporro. Rio de Janeiro: Warner Music Brasil, 2003.

 

 

 


Créditos na imagem de capa: Paul e Linda no Mardi Gras, Nova Orleans, EUA. Entre janeiro e fevereiro de 1975. Ver: https://canaldosbeatles.wordpress.com/2012/02/20/paul-mccartney-e-o-carnaval-de-nova-orleans/.

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