36 明夷 Míng Yí[1]

Ming Yi — quando a luz é insultada,

convém ao justo guardar-se

e nutrir a chama em silêncio.

egeo

            No momento em que escrevo esse ensaio, a flotilha que levava ajuda humanitária até Gaza foi recentemente interceptada e seus integrantes, originados de todos os cantos do planeta, Brasil inclusive. Estão agora sequestrados e encarcerados, sendo tratados como terroristas, numa fortaleza no deserto de Negev, Israel. O planeta assiste, ao vivo e a cores, a mais esse criminoso e vexaminoso assalto aos direitos humanos, sem que os governos movam uma só peça efetiva em defesa do que resta do povo palestino — e de nossa já esgarçada humanidade. Diante de uma covardia tão avassaladora, há momentos em que a suposta inconsciência de um cão parece um refúgio mais digno. Vergonha.

            O ator e professor Guilherme Terreri — mais conhecido pela persona Rita von Hunty — expressou, de forma muito apropriada, o desgosto que esse estado de coisas causa nas pessoas que tem um mínimo de sensibilidade e senso humanitário, num desabafo tocante nas redes. Cada um de nós deveria ouvir o que ele disse.

            É sim a falência de todos os parcos valores humanos que ainda restavam e torna clara a fratura e fracasso do tão propalado projeto iluminista, que visava levar o ser humano a um novo patamar de desenvolvimento ético e moral, pela via da educação, da razão e bom senso. Nada disso se verifica na prática. Como muito bem disse Terreri, em seu vídeo, a Declaração dos Direitos Humanos não passa de uma farsa. O Direito Internacional é um conto do vigário que só vigora quando beneficia as nações poderosas. E a covardia internacional é a moeda forte que esses mesmos poderosos utilizam para se apropriarem daquilo que bem entendem, exterminarem pessoas, sequestrarem direitos, darem golpes de estado e pilharem a seu bel prazer.

            Walter Benjamin, um século atrás, nos alertou sobre isso de maneira profética e a pilha de escombros, literalmente falando, não nos permite mais ter maiores esperanças. Ele viu o anjo da história olhando para trás, contemplando o que sobrou de Gaza, por forças de algum sarcasmo da história, aniquilada por judeus sionistas, uma espécie de contradição esquizofrênica. Hoje, o anjo caído de Benjamin, não apenas olha: ele é soterrado pelos destroços das cidades e pelos milhares e milhares de crianças mortas ou mutiladas.

            Os escritos de Benjamin têm por característica um estilo que mescla filosofia com um forte senso poético e messiânico, em particular nas teses, que guardam algum caráter hermético. Por essa razão, um leitor ou leitora desavisados podem não se darem conta do caráter profundamente realista e pragmático presente nos textos. Benjamin viveu na carne o nascimento e ascensão do nazismo, as duas grandes guerras e o furor da modernidade, alavancado pelo início da era tecnológica, ironicamente e tristemente impulsionada pelas duas grandes guerras. Contradição das contradições que já antecipava um céu de nuvens negras a caminho.

Com objetivos distintos, o pensamento de Benjamin ressoa com o de outro gigante, Nietzsche, que também denunciou a morte de valores éticos e morais no seio da sociedade ávida por modernidade.

            Retornando ao nosso tempo, o cinismo é a pauta do dia e, diante desse quadro dantesco é que Terreri travou, com ele mesmo disse, sem forças e sem motivos para continuar representando Rita von Hunty. Triste, mas profundamente honesto. Não há mais espaço e nem faz sentido, nesse horrendo mundo de modernidade mórbida, para uma Rita von Hunty. Me pergunto de onde Terreri colherá forças para continuar lecionando. Porque, vamos encarar o fato, não existe contemporaneidade, trata-se apenas de um nome. Melhor seria se nomeássemos nossa época de modernidade cínica, ou modernidade desiludida — um tempo em que, como no hexagrama 36 do I Ching, a luz é insultada e resta apenas ao justo guardar a chama em silêncio.

Nossas instituições continuam modernas — Estado-nação, democracia representativa, ciência e tecnologia, velocidade e eficiência, economia de mercado, sistema escolar. Nossas categorias de pensamento ainda são modernas — indivíduo, democracia, progresso, liberdade, técnica. O que mudou foi a atitude subjetiva diante disso: antes era fé e expectativa positiva, agora ironia, desencanto, conformismo e negacionismo.

Para merecer uma denominação inteiramente nova, contemporaneidade, nosso tempo deveria ser atravessado por um sentimento do novo à espreita, do belo e desejado, da tão esperada era de Aquário, no sentido do salto qualitativo humano. Sem cair em sentimentalismo barato deveria, ao menos palidamente, apontar para aquilo que John Lennon tentou expressar quando compôs Imagine. Ou seja, representar a consolidação dos melhores ideais modernos como resultado da emancipação de povos e grupos historicamente destituídos, pela via de um sentimento de justiça inquestionável. Ser o prenúncio de melhores tempos, apontar para o nascer do sol e não para um buraco negro que traga tudo e todos num turbilhão de destruição cínica. Mas, ao invés de Imagine, nosso tempo é a materialização bizarra de Guernica. E não há mais terreno para ilusões, não depois de Gaza.  Estamos, e na melhor das hipóteses, diante do velório do projeto modernista, à beira de uma cova rasa.  É o ocaso melancólico, triste e desolador do fracasso retumbante do que se chamou modernidade, versão envernizada de Mad Max. Uma era originalmente cunhada sob a égide dos ideais iluministas, embriagada pela ideia de progresso e cisão com superstições do passado, crente e zelosa dos poderes da ciência e da educação formal, mas a custa de um preço altíssimo: o desprezo por essas coisas cafonas e fora de moda, mas que constituem os valores que deveriam ser perenes, porque alicerces que nos tornam seres melhores. Senso de humanidade, solidariedade, justiça, compaixão e empatia. Valores que foram erodidos pelas máquinas político-ideológicas e econômico empresariais, sempre sob o manto protetor de uma conivência silenciosa, movida a interesses escusos e mesquinhos. Igrejas, conglomerados financeiros, mega corporações, academias de toda sorte, governos de todos os matizes, sob um manto de democracia na qual os governantes se alternam, mas as políticas de Estado se perpetuam, moendo carne humana.

            É um tempo marcado pelo cinismo, pelo deboche, pontuado por cenas como as de um chefe de estado que faz pilhéria sobre pessoas em leitos de hospital, e que agonizam por falta de oxigênio. Ou dos que se utilizam de retórica duvidosa para justificar massacres de etnias historicamente indesejadas pelas elites colonialistas.

Peter Sloterdijk, em seu excelente livro — Crítica da Razão Cínica — nos fala desse cinismo típico da modernidade. Ele argumenta que para os cínicos gregos, como Diógenes, o cinismo era um gesto de desmascaramento da hipocrisia social, uma busca por uma vida mais simples e honesta. Já no cinismo moderno ocorre o contrário: é a institucionalização da hipocrisia como normalidade, um “saber deformado”, que sabe da injustiça, mas a pratica mesmo assim. Ainda segundo Sloterdijk, a modernidade produziu um ser humano falsamente esclarecido, apenas na superfície, mas incapaz de transformar o saber em ética, de se indignar com honestidade e, sobretudo, agir de acordo. Cada vez mais os discursos destoam das práticas. É a pessoa que cita a Declaração dos Direitos Humanos ao mesmo tempo em que assina contratos de armas, que discursa em cúpulas climáticas enquanto amplia sua frota de jatos particulares adquirida com os lucros oriundos de mineração criminosa. A duplicidade, a maleabilidade infinita e conveniente, virou estrutura. E nesse ponto Sloterdijk dialoga com Bauman, quando nos fala da sociedade líquida. Nada tem forma definida, os valores se diluem e amoldam ao contexto e interesses de quem domina as narrativas. Leia-se, aos donos do poder.

            Cartola, o poeta e compositor da Estação Primeira de Mangueira, disse uma vez que o mundo é um moinho. E diante do cinismo escancarado aos quatro ventos e parlamentos, dominados por trumps, netanyahus e outros palhaços macabros do circo neoliberal de horrores, e que insistimos em chamar de contemporaneidade, uma dolorosa centelha de lucidez nos assalta exigindo uma constatação: A de que talvez a moenda da modernidade não tenha falhado. Talvez, em verdade, tenha cumprido sua tarefa com eficiência aterradora. Resta a esperança de que o anjo de Klee nos socorra, leve consolo humanitário aos mortos de Gaza, e não permita que suas vozes sejam novamente apagadas da história.

 

 

 


NOTAS

[1]     No I Ching, o hexagrama 36 (Míng Yí, “O obscurecimento da luz”) fala dos virtuosos obrigados a ocultar-se; dos verdadeiros que precisam ter cautela porque a escuridão política e social os ameaça. É o anjo soterrado de Benjamin, a modernidade que “mói” valores, a voz de Terreri que trava. Talvez o que nos reste seja esse movimento do guardar a chama, cultivar em segredo a fagulha de humanidade, ainda que em exílio, ainda que sob a sombra do cinismo institucionalizado.

 

 

 


Créditos na imagem de capa: egeoartes