Após o banho ele buscou uma cueca e se deu conta, novamente, que era mais do que hora de providenciar novas. Mas não as comprava, confeccionava ele mesmo a partir das sobras de sua fabriqueta de camisetas de malha. Era um dos seus raros prazeres, uma dessas coisas que se encasqueta na adolescência e torna-se obsessão, sabe-se lá o motivo: fazer a própria roupa e até os calçados. O outro era lecionar História, embora esse jamais pensado, mero capricho da vida mesmo.

Mas ao revistar o saco de retalhos em busca da matéria-prima constatou, para grande surpresa, que ali só restavam pedaços de bom tamanho na cor de rosa, os de outras cores não se prestavam. Fitou o espelho e se pegou torcendo o nariz mas, antes mesmo que pudesse ocultar o ato falho delator, ouviu a voz odiosa, a de sempre:

— Mas e daí, qual é o problema?

Ela, de novo ela. Visivelmente irritado com a pergunta e já na defensiva, respondeu:

— Como assim, qual é o problema? Eu não gosto de rosa ora bolas, não posso?

Ouviu uma risadinha ecoando lá das profundezas, cínica e debochada, velha conhecida.

— Sei, sei… não gosta de cor de rosa ou rola algum preconceito aí, meu camaradinha?

Inútil negar. Aquela maldita voz o conhecia bem melhor que ele mesmo, isto era fato consumado havia tempo. Melhor admitir, pra si e para ela.

— Tá, tá, tá… não quero usar cueca cor de rosa, e daí? Agora sou obrigado, por acaso?

Silêncio… aterrador. Antes uma risada, aquele silêncio o condenava sem chance de apelação. Esboçou uma reação heroica:
— Olha só, eu não vou usar cueca cor de rosa, não me importa o que você pense ou deixe de pensar. Ponto.

— Mas posso saber o motivo?

— Ah, não sei, sei lá…

— Tudo bem, tudo bem… mas que é contraditório é, né? Afinal, você é professor de história, usa e abusa daquele seu discurso iluminado de superação dos velhos vícios históricos, dos condicionantes impostos pela tradição patriarcal, aqueles que você promove em sala de aula o tempo inteiro. Enfim…

Ela estava disposta a destruí-lo e sabia como. Pra variar. Olhou-se bem no espelho e pensou ter encontrado uma saída honrosa:

— Olha, não é nada disso, eu acho que não combina com a cor da minha pele, é isso.

Agora a risada ecoou pelos recantos da mente, ricocheteando nas paredes da caixa craniana como uma bola de demolição. E atacou, com a crueldade devastadora só possível a quem conhece todas as fraquezas do outro:

— Cor da sua pele, né? Hum, hum. Mas vem cá, quem é que vai te ver usando cueca? Você tá na prateleira faz é tempo, que conversa é essa? Está igualzinho a gato de armazém, dormindo em cima do saco! Deixa de conversa fiada, arruma outra desculpa que essa não cola.

— Olha só, deixa de ser abusada hein, sua ladainha mequetrefe!

— Ah, para com isso, admite! No fundo, bem no fundinho, lá nas profundezas onde o Diabo mora, você também acha que menino veste azul e menina veste rosa, fala a verdade. Confessa homem de Deus.

Nem Mike Tyson em seus melhores dias seria tão demolidor. Estava nas cordas e nada de soar o gongo.

— Está passando dos limites, não te dou essa confiança toda não! Coloque-se no seu lugar. Você não passa de uma boneca de ventríloquo, uma bisbilhoteira da vida alheia, isso sim!

— Tá certo, tá certo. Pode me ofender, não terá sido a primeira vez e nem será a última. Mas não se esqueça de que essa boneca aqui estará assistindo sua próxima aula, quando estiver falando sobre superação de velhos padrões, repetindo aquela conversa toda que você aprendeu na faculdade que nem um… boneco de ventríloquo? Não vai gaguejar…

Aquilo era mais do que ele podia suportar. Sentiu uma pulsação na base do crânio, a mandíbula estalou e num movimento irrefletido a mão saiu de controle. E então…

Quando deu por si uma mancha vermelha já se formava entre os dedos, o espelho espatifado, reflexo irreconhecível de fragmentos de si mesmo. Sentiu uma coisa quente e úmida sendo arrastada pela face e num esforço imenso conseguiu abrir os olhos. Era a sua cadela, acordando-o, como fazia todas as manhãs. Desorientado e suando em bicas, ergueu-se com muito custo. Meio cambaleante foi em busca de um copo de água na cozinha e, ao passar pelo banheiro, evitou olhar o espelho mesmo que de viés. Enquanto a água gelada descia pela garganta seca e tentava organizar os pensamentos, sentiu o ímpeto de ir em busca da caixa de retalhos. Pretos, brancos, mesclas cinzentas, azuis! Nenhum cor de rosa. E disse pra si mesmo, numa mistura indefinível entre alívio e mal estar:

— Ah, foi apenas um sonho, ora. Coisas do inconsciente. E que importa o inconsciente, afinal?

 

 

 


Créditos na imagem de capa:

egeo