Nascida no Rio de Janeiro em 1820, Gracia Hermelinda da Cunha Mattos foi uma filósofa, ensaísta e jornalista brasileira. Seu pai, o militar português Raymundo José da Cunha Mattos (1776-1839), era também historiador e membro fundador do Instituto Geográfico e Histórico Brasileiro (IHGB). Sua mãe, Maria Venância de Fontes Pereira de Mello (1805-1898) era espanhola e descendente da família Fontes Pereira de Melo, igualmente marcada pela presença de influentes militares e políticos portugueses. Gracia Mattos ganhou projeção social no século XIX em razão da publicação de seus escritos e por acompanhar com frequência as atividades do pai, tendo atuado como secretária no gabinete particular de Raymundo. A educação de Mattos lhe conferiu ainda o conhecimento de idiomas variados, algo que em muito contribuiu para o seu desenvolvimento e agência intelectual.
Em 1837, Mattos se tornou escritora colaboradora do periódico Pharol do Império, da tipografia Commercial Fluminense. Nesse período, a filósofa deu início à escrita de seu livro, Coleção de sentenças dos filósofos antigos e modernos e de adágios triviais, de que se faz uso na sociedade. Trata-se de uma coletânea de reflexões acerca de temas diversos, na forma de breves versos. Dedicada “às meninas brasileiras”, a obra teve o apoio de Mariano José Pereira da Fonseca, o Marquês de Maricá (1773-1848) para a publicação indicando os alcances das correspondências e intersecções da “filosofinha”, como era conhecida a jovem intelectual. Fonseca foi um conhecido filósofo, escritor e político nascido no Rio de Janeiro. Analisaremos, para esse artigo, sentenças presentes no livro, propriamente dito, que se referem às questões de gênero, educação e suas correspondências com os projetos de nação oitocentistas. Também estão em foco sentenças publicadas no Pharol do Império, na seção intitulada Coleção das sentenças moraes de Gracia Hermelinda da Cunha Mattos. Cabe a nós analisar os contornos da seleção dos verbetes que foram veiculados no periódico e, da mesma forma, traçar possíveis vínculos desses escritos com objetivos sociais e políticos.
O que nos motiva a realizar esse estudo é a presença da biografia e obra de Gracia Cunha na obra Brasileiras Célebres, de autoria de Joaquim Norberto de Souza e Silva (1820-1891), historiador, escritor, biógrafo e membro do IHGB. O verbete dedicado a Mattos, nessa obra, é notoriamente mais esmerado em comparação a outros apontamentos feitos pelo historiador. A obra traz, em linhas gerais, uma antologia biográfica das “grandes mulheres” brasileiras a partir de categorias e noções de mérito e de reconhecimento público acionados e articulados pelo autor, cujas intencionalidades são descritas de forma objetiva como magisteriais. Desejava-se que a obra fosse adotada pelas escolas brasileiras como material didático. Daí a necessidade de compreendermos o por quê a presença de Gracia Mattos recebe tal projeção no projeto historiográfico de Silva. Há que se destacar, ainda, a menção ao Marquês de Maricá na página de rosto de Brasileiras Célebres com a frase: “Pode-se avaliar a civilização de um povo pela atenção, decência, consideração com que as mulheres são tratadas, educadas, protegidas”. É possível delinear, de início, que o esforço de associações engendrado pelo membro do IHGB tem como objetivo apresentar a vida e obra de Mattos como um modelo ou uma inspiração para a leitora e o leitor. Considerando-se a condição de agente autorizado da produção intelectual e historiográfica do IHGB no período oitocentista, bem como a sua posição devedora da historia magistra vitae (GUIMARÃES, 2011), a presença do verbete dedicado à filósofa nos parece ter um significado a mais do que apenas o registro da memória sob a perspectiva patriótica mobilizada por Silva em toda a obra. Assim, é possível identificar uma intencionalidade moralizante e didática. Além do contato com a historiografia do IHGB, Mattos teve, provavelmente, contato com as máximas com os pensamentos do próprio Marquês de Maricá, publicadas posteriormente, em 1850, formato de uma Coleção.
O objetivo da autora, esboçado em sua obra, é oferecer às brasileiras reflexões em que “encontrassem nelas alguma doutrina pura de que se possam aproveitar” (SILVA, 1862, p. 172). Apesar dessa caracterização, o que encontramos é uma série de colocações críticas ao sistema educacional quanto à formação das mulheres e os impactos dessa escassa preparação direcionada, geralmente, ao lar e ao casamento (QUINTANEIRO, 1995). No trecho abaixo, Mattos questiona veementemente as afirmações de que a baixa participação feminina em vários setores da sociedade é culpa das próprias mulheres, colocação encontrada, paradoxalmente, na obra Brasileiras Célebres, assim como em outros textos e relatos de viagem do oitocentos (LAJOLO; ZILBERMAN, 2019). Ela argumenta que a responsabilidade não deveria ser atribuída às mulheres, mas sim do controle masculino que as restringe:
Os homens zombam da ignorância das mulheres, sem se lembrarem de que as educam como escravas, que só necessitam saber obedecer. Há muitos homens que perdoam com muito mais facilidade as mulheres o talento do que os vícios. (SILVA, 1862, p. 160)
Partindo dessa reflexão temos a possibilidade de mensurar que o problema da falta de acesso à educação, na perspectiva de Mattos, é também um problema de (in)viabilidade de desenvolvimento intelectual e crítico social para as mulheres. Aqui também se insere o problema das ausências de sociabilidades e de projeções sociais das mulheres e, por conseguinte, da sua participação social. O papel de Mattos é significativo sobretudo quando refletimos sobre o alcance de colocações que tendem a atribuir a retraída presença feminina no círculo social, intelectual e artístico às características entendidas como próprias do sexo feminino, esvaziando a noção de historicidade e das reverberações e ecos das fantasias em torno da diferença sexual. O que Mattos propõe, em outras passagens de seu livro, é um tensionamento da ideia de uma identidade fixa, estável e dependente das mulheres no contexto relacional do gênero.
Por outro lado, identificam-se também sentenças que buscam condicionar essas identidades femininas no que diz respeito a um “equilíbrio” entre as noções de intelectualidade e de feminilidade. Nesse caso, a filósofa propõe uma perspectiva que pode ser alinhada com facilidade aos projetos de nação divulgados pelas elites intelectuais e políticas no que diz respeito à criação de uma identidade para a mulher brasileira em meio à constituição da nação:
As mulheres devem enfeitar-se com virtudes e ciência, com asseio e decência. A bisonhice de uma mulher é tão má como a sua desenvoltura. Uma mulher virtuosa, elegante e instruída é o mais completo ornamento da sociedade. As mulheres de espírito nunca envelhecem. A sorte das mulheres depende muitas vezes da educação moral que se lhes dá, ou da instrução científica que adquirem. O toucador de uma senhora é tão necessário como os livros; estes ornam a alma, e aquele enfeita o corpo. (SILVA, 1862, p. 160)
A presença da obra de Gracia Mattos nos serve como uma dupla referência: a autora teria se inspirado nas obras do marquês de Maricá e, em Brasileiras Célebres, as citações a essas sentenças selecionadas pelo autor cumprem o papel de serem a voz feminina que “valida” o que ambos os homens dizem. Trata-se de uma presença estratégica para o objetivo didático do romancista. Deseja-se, no limite, mostrar uma espécie de “evolução” na relação entre gêneros no sentido de promoção da participação e maior integração das mulheres às sociabilidades e, por conseguinte, nos projetos de nação e de civilidade que se desenhavam no contexto de publicação de Brasileiras Célebres, em que o gênero (e mais especificamente, as fantasias em torno da diferença sexual) é instrumentalizado e mobilizado em torno do objetivo da constituição da unidade e da identidade nacional.
Algo semelhante ocorre em seus escritos publicados no Pharol do Império, após o lançamento do livro, cujas tiragens se esgotaram em pouco tempo. Sua sentença sobre História, publicada na edição de 11 de abril de 1837, que herda a perspectiva do vínculo nacional atrelado à intencionalidade da escrita da história ao propor a memória como unificadora. Ao mesmo tempo, Mattos nos deixa uma noção ambivalente acerca do que seria o caráter “ideal” da história:
História.
É a lembrança do passado, a memória do presente, e o espelho do futuro.
O espírito de partido, e as antipatias individuais ou as nacionais, desfiguram quase sempre os fatos históricos.
Os Contemporâneos devem escrever Memórias, e não Histórias: deixem esse trabalho para pessoas de outro século, ou de outro país, cujo interesse seja de escrever a verdade, e não de desfigurá-la.
A grande habilidade dos historiadores modernos, consiste em nos dizerem as coisas passadas, e escritas há muitos anos, por um modo tal, que pareçam nunca ter sido contadas.
O estilo dos historiadores da idade média, a poucos agrada, por lhes faltarem os atavios da eloquência antiga, ressuscitada nos tempos modernos.
É possível identificar, na escrita de Mattos, um certo incômodo em relação ao que se definia como história no contexto da escrita de sua obra. Há um incentivo à unidade como condicionadora de um caráter conformador da escrita da história. Simultaneamente, a filósofa aponta o que seria um problema de ausência de imparcialidade ou de crítica, característica pulsante da historiografia oitocentista (TURIN, 2009). Mattos entende que a escrita da história de seu tempo deveria ser definida enquanto memória, e não como história. Por fim, a autora nos abre espaço para interpretar uma possível associação entre a história do século XIX e aquela escrita no período medieval, em que podemos identificar a parcialidade (uma em volta do teocentrismo, e a outra em torno da identidade nacional) e o acionamento de grandes feitos e de grandes heróis em uma narrativa. A “eloquência antiga” nos traz sobre uma compreensão mais aproximada do humano e do racional, remontando à historiografia da Antiguidade Clássica e sua significativa autonomia.
Há que se observar que as sentenças de Mattos nem sempre refletem sobre o significado literal dos seus títulos. Nos versos sobre Influência, por exemplo, ela se utiliza do termo como chave de leitura para falar sobre as atuações das mulheres em seu contexto (trazendo, inclusive, nomes não mencionados por Joaquim de Souza e Silva, que constrói sua obra segundo méritos e categorias definidas por ele mesmo). Importante destacar que as sentenças de Mattos foram publicadas décadas antes da obra de Silva, mas a narrativa da ausência de registros como obstáculo ao reconhecimento foi mantida pelo escritor. Já nos pensamentos sobre Moda, Monarquia, e Nação, sobressaem as noções de progresso e de métricas para os graus de civilização, temas recorrentes em obras historiográficas de seu período, bem como a noção da escrita como ato político (TURIN, 2009; PIMENTA, 2024). A obra de Mattos aponta tanto para seu potencial crítico, quanto para os limites da perspectiva de progresso próprias do seu tempo, como a associação positiva entre a constituição de uma nação autônoma e a defesa do regime monárquico como antídoto às disputas por poder que viessem a despontar nesse processo. Não por acaso, sua sentença sobre Proteção nos traz que:
Aquele que protege um velhaco conhecido, não estranhe se for enganado. As Artes, Ciências, Indústria, e tudo o que pode concorrer para a riqueza do Estado, deve ser protegido, mas não dirigido pelo Governo.
De volta aos temas relacionados ao gênero e à educação, as perspectivas de Mattos tendem a um viés que põe em evidência o papel das mulheres na educação e a relevância de sua participação em ambas as esferas públicas e privadas, desde que as mesmas tivessem a oportunidade de receber uma formação adequada. A escritora busca, em diversas sentenças, pontuar que caberia aos homens tomar as iniciativas em prol da inserção social da mulher e, ao mesmo tempo, incentivava as leitoras ao pensamento crítico acerca das limitações impostas por instituições como o matrimônio, uma abordagem ousada quando consideramos o contexto em que os versos foram tornados públicos.
Gracia Mattos emerge do texto como uma figura intelectual complexa e significativa no Brasil do século XIX. Sua obra não apenas oferece reflexões sobre moralidade e sociedade, mas também desafia as noções prevalecentes sobre o papel das mulheres e a escrita da história nesse período. A filósofa encaminhava outra obra quando faleceu em 1838, com apenas 18 anos, após ser acometida por uma enfermidade. Sentenças nos oferece um panorama do pensamento da jovem intelectual, que participava então de restrito círculo social e de produção do conhecimento histórico e filosófico, evidentemente precursor dentre os trabalhos que buscavam sugerir uma perspectiva crítica não apenas às questões historiográficas, como também no âmbito social e relacional do gênero.
REFERÊNCIAS
GUIMARÃES, Manoel Luiz Salgado. Historiografia e nação no Brasil: 1838-1857. Rio de Janeiro: EDUERJ, 2011.
LAJOLO, Marisa; ZILBERMAN, Regina. A leitora no banco dos réus. In: A formação da leitura no Brasil. São Paulo: Editora UNESP, 2019.
PHAROL DO IMPÉRIO. Coleção das sentenças moraes de Gracia Hermelinda da Cunha Mattos. Rio de Janeiro, 11 de abril de 1837. Disponível em: http://memoria.bn.gov.br/DocReader/702846/69
PHAROL DO IMPÉRIO. Coleção das sentenças moraes de Gracia Hermelinda da Cunha Mattos. Rio de Janeiro, 12 de abril de 1837. Disponível em: http://memoria.bn.gov.br/DocReader/702846/73
PHAROL DO IMPÉRIO. Coleção das sentenças moraes de Gracia Hermelinda da Cunha Mattos. Rio de Janeiro, 17 de abril de 1837. Disponível em: http://memoria.bn.gov.br/DocReader/702846/91
PHAROL DO IMPÉRIO. Coleção das sentenças moraes de Gracia Hermelinda da Cunha Mattos. Rio de Janeiro, 2 de maio de 1837. Disponível em: http://memoria.bn.gov.br/DocReader/702846/141
PHAROL DO IMPÉRIO. Coleção das sentenças moraes de Gracia Hermelinda da Cunha Mattos. Rio de Janeiro, 7 de maio de 1837. Disponível em: http://memoria.bn.gov.br/DocReader/702846/161
PIMENTA, João Paulo. Formação da nação brasileira. Editora Contexto, 2024.
QUINTANEIRO, Tânia. Retratos de Mulher. O cotidiano feminino no Brasil sob o olhar de viageiros do século XIX. Petrópolis, RJ: Vozes, 1995.
SCOTT, Joan Wallach. A fantasia da história feminista. Tradução Elisa Nazarian, 1ª Ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2024.
SILVA, Joaquim Norberto de Souza e. Brasileiras Célebres. Rio de Janeiro: Editora Garnier, 1862.
TURIN, Rodrigo. Uma nobre, útil e difícil empresa: o ethos do historiador oitocentista. In: História da Historiografia, V. 2, n. 2, p. 12-28, 2009.
Créditos da imagem da capa: Reprodução. Woman reading by an open window, de Asta Nørregaard. Disponível em: https://www.meisterdrucke.uk/fine-art-prints/Asta-Nrregaard/1313139/Woman-Reading-by-an-Open-Window.html Acesso em 11 de junho de 2025.
