Ela possuía um Fiat que se chamava João Cabral. Olhos de biógrafa que, fotógrafos, fotografavam efes na grafia de Rosa. Rosas eram as pupilas, papoulas brancas nos gês de Rosa, nos da garrafa. Verdes aqueles outros por onde verde e rosa Gorda Gordona via, o vê escrevia.

– Olhos verdes, os vedes gordos, ainda?

Verdes ou rosa. Verde quando o Fiat era verde e a abóbora carruagem.

Ela se vestia de fada no espelho fotografada. Tinha um Fiat e não desafinava. Era fada e fotografava.

Oito, dois zeros gordos. Um dia, o ofício do galo fez com que eu telefonasse para ela:

– Quantos contos tem aí?

Falam de onde falam os rolos de fita e os filmes para máquina.

– Quantos para contar-me?

E foi assim que o telefonema se deu: eu conto e você fotografa. Apareço em oitivas gravadas, no papel sulfite da crista, dos olhos sem gravatas e nas asas do filme, dos olhos de sua máquina. Ponto, só por ser este outro ponto. Três deles, um do lado do outro:

– Alô …

Focalizo e conto outra vez, conto tudo de novo …

Oito ao lado do oito, oitenta e oito. Igual a dezesseis contos. Um dia, ela saiu de casa de Fiat, de laço verde no motor e na máquina e de casaca. Piscando, flagrou um casal se encontrando. Ponto, o conto daquele encontro. Seu carro cruzou o ônibus, estacionou num poema redondo. Depois se perdeu no trânsito, numa linha cruzada em que se contavam Memórias Póstumas de Brás Cubas: a morte do amor que mata e o amor que se mata com a morte. Numa linha cruzada em que João era Cabral, Gilberto e Rosa.

Três vezes oito, vinte e quatro: última vez em que a soma se fez. Agora só conto, porque tem mais conto. Divido o oito: quatro telefonemas para contá-la, quatro contos para uma telefonada. Ela limpou as lentes da máquina, os olhos de fada.

Outra metade: eu falava, ela fotografava. Ouvia o Caetano que Alice lia, que ela não ouvia, mas olhando para o acetato, com o tato, fotografava. O Fiat a esperava e o telefone tocava, antes dela sair de casa, de Fiat e de casaca.

Um oito tem dois gomos, dois quatros comos que se dividem em óculos, em olhos. Um Fiat, como aquele, tem tangerinas descascadas em quatro janelas ensimesmadas. O príncipe que narra uma fada, que fala, não se preocupa com nada, nem com parágrafos, nem com a conta de suas linhas cruzadas. Não soma nada, pega carona com a fotografada. Ela voou com as asas, para as asas da outra página:

– Quanto falta para contar-me? Quantas vistas, visitas sem gravatas?

– Todos os oitos e suas metades que ainda faltarem.

Metade mais metade, o anterior era inteiro e o engano, ao telefone, era metade. Era um inteiro, em números inteiros não identificados. A voz aparecia em V e em Z que pareciam efes identificados: o parágrafo anterior era inteiro. Esse é metade …

Piscando, fotografada piscava. Vendia o Fiat e chorava. Voltava para casa no ônibus em que o casal se encontrava. Seu Pinto a via, enquanto o príncipe lhe telefonava. João Cabral a emocionava, enchia seus olhos com o doce de leite que Gorda Gordona derramava quando o pneu derrapava. Foi aí que ele disse à mulher:

– Guia-me por onde fores, que te perdoo por me traíres.

E outros ônibus vieram depois daquele ônibus, outras fadas a consolá-la.

– Como era mesmo aquela história que a mulher, virando mulher, narrava?

Quando usava o telefone, em linha cruzada, dizia que a literatura subia de elevadores, morava nas calçadas, era feita para ser recitada ao telefone quando alguém para fada telefonava antes dela sair de casa. Ela escorria pelos quatro cantos do conto, de um escrevo um novo depois te conto, do mundo, sem máquina. Ela … chorava, porque o Fiat a emocionava. Entre outras coisas lhe colocava lágrimas. A literatura as recolocava. O flash a iluminava e o 147 verde-lágrimas a emocionava.

Oito ao lado do oito, oitenta e oito, só que agora igual a uma super-8. Era no tempo em que Cecília matava as pessoas de curiosidade, fazia performances já há muito tempo. Era no tempo em que o marido da fada viajava, que Luciana e Mônica, que não tinham entrado na história, falavam ao telefone e, depois, a primeira me contava. Era na época em que as duas encantavam o príncipe com suas cantatas e em linhas cruzadas revelavam-se grafadas, telefonadas nos efes de fotos e L de lágrimas.

Dez parágrafos bissextos dessa vez. Três oitos, de novo, nessa página. As ruas a esperavam nas falas. Esperam fotografá-la. No fundo do cinema, a literatura em garrafas, solta após as tragadas. As ruas são todas suas. A literatura encontra-se descalça nas calçadas.

Cecília catando coisas em outras calçadas. As ruas são todas suas e o verde nas ruas trocava de página, não tinha calotas.

Outra página: primeira metade da história que te contava, na segunda vez em que o oito era outra coisa, não era nada. E foi assim que o telefonema se deu: um toque, dois toques … três poses de coq para contá-la. Dois contos, um zero em cima do outro: em dois toques, ela atendeu.  Não deu oito, não deu outra, nem deu nenhuma de suas metades. Deu seis que é metade de doze e o dobro de três. Deu matemática. Algo assim parecido com trote, mas não era engano, não era trote.

Outra página: e foi assim a telefonada … na fala, nos fonemas da telefonada, da fonemagrafada, nos efes que ela falava. Eu fotografava. Quando Luciana telefonava para fada, dizia que a literatura era feita para estacionar nas calçadas, para acordar os homens que dormem em calçadas, para calçá-los e ser gozada ao pé do ouvido, em oitivas gravadas, fonema grafada, assim que a fada lhe telefonava. O 147 estacionava num poema que não era para emocionar, mas emocionava.

Seis mais oito: quatorze. Último inteiro, na última página. Naquela canção em que João, o pneu cantava, um fiat tinha que ser verde, não ter calotas e ter o banco da frente estourado. Tinha que ter um banco cão sem plumas. O ônibus desafinava, mas levava uma fada para casa, batendo no peito dos desafinados, porque no peito dos desafinados também bate um coração. Porque o que contava era a marcha, o samba e a canção nas manobras que seu carro dava: era a rosa que o príncipe dava, a Rolerflex na declaração.

 

 

 


Créditos na imagem de capa: Super 8 em cena de “Ainda Estou Aqui” — Foto: Reprodução