Aline Besouro é nascida e residente no Rio de Janeiro (RJ) e atuou como professora de serigrafia no Centro Cultural São Paulo (SP) e na Escola A Base, em Lisboa. A prática artística da investigadora e visualista opera a partir da serigrafia, expandindo-a enquanto suporte para ensaios narrativos. Seus trabalhos localizam-se em um território híbrido entre o design e a arte, o grafismo e a visualidade têxtil, conferindo centralidade à fabulação e à potência ritualística do objeto-amuleto. Aline é Mestra pelo Programa de Pós-Graduação em Artes da UERJ (PPGARTES) e bacharel em História da Arte pela mesma instituição. Sua linha de pesquisa problematiza as fraturas sociais da ditadura militar no Brasil. A partir da metodologia da caminhada e da flânerie urbana, a artista cartografa apagamentos e traumas históricos, elegendo o DOPS-RJ e o Trevo Estudante Edson Luís como eixos centrais de análise. Sua atuação profissional abrange, ainda, o ensino de técnicas de gravura e a ilustração.
Na obra de Aline, o Rio de Janeiro é, não por acaso, uma das suas principais inspirações, servindo como campo de estudo, matéria-prima visual e espacial. Além do trabalho com a serigrafia, a artista também tem obras que hoje ocupam o espaço urbano através do muralismo, reinventando o método serigráfico e tornando-o parte da paisagem, como no mural “As Palavras”. Inicio o texto com essa observação pois o que salta aos olhos ao conhecer o trabalho de Aline é, justamente, os processos técnicos de expansão da serigrafia que levam a sua obra a alcançar um interessante hibridismo visual, tensionando os limites tradicionais da gravura e transformando a reprodutibilidade técnica em um campo de experimentação narrativa. Essas zonas de fronteira entre a serigrafia e o design também são exploradas a partir da diversidade de suportes, que vão do papel ao algodão, e da cerâmica às paredes. A transitoriedade evidencia a versatilidade da técnica da serigrafia, que é um tipo de impressão feita com um estêncil e com tinta aplicada através de uma tela vazada com o formato do desenho. No trabalho de Aline Besouro, há uma recusa à rigidez e uma preferência pela funcionalidade do design e pela manualidade, que se complementam em forma e conceito.
Uma das poéticas mais presentes em seu conjunto de obras é a narrativa do amuleto, que se manifesta na necessidade intrínseca de se contar histórias através da imagem e da transformação da obra de arte em um amuleto. Com essa abordagem, Aline transpõe o objeto artístico para as dimensões simbólicas, afetivas e ritualísticas, a exemplo da série “A Ilha do Eu” (2018), uma instalação em que podemos ver duas folhas com um texto impresso, algumas peças de cerâmica e uma serigrafia de um Ouroboros, símbolo de provável origem egípcia que representa a renovação, o ciclo infinito da vida e a própria eternidade. O texto impresso em papel se encontra sobre dois pedaços de tecido e tem a forma de um diário, como um náufrago que alcança a ilha de si mesmo e precisa aprender a se adaptar e a lidar com as dificuldades. A mistura de materiais, suportes e narrativas articula a fabulação junto àquilo que nos é tangível, criando experiências intimistas e repletas de memórias. A complexidade do ser também é tema da obra “Labirinto”, de 2023, que traz várias figuras em momentos de contemplação, de angústia e de calma. Em “Quero voltar pra casa” (2025), uma figura nos traz traços da inocência da infância e das contradições da vida adulta na busca por segurança e estabilidade. A sensibilidade da obra se conecta a “Mãe”, do mesmo ano.
A prática da deriva, que aqui se compreende como o caminhar pela cidade, possibilita tecer as relações entre a arte, a memória e o espaço urbano e abraça ambas as dimensões estéticas e políticas, à maneira da performance coletiva “Mitos Vadios”, da qual tratamos em outro texto e que contou a idealização de Hélio Oiticica. Em Aline Besouro, temos topografias do trauma e da resistência, uma mobilização que busca ressignificar a opressão experimentada nos anos 70 e que persiste em regiões periféricas como as cariocas. A artista trabalha com o que podemos chamar de anacronismos urbanos. Tal qual um mural, a presença de estruturas originadas no período da Ditadura Militar é espectral, um fantasma com desdobramentos sociais na contemporaneidade, visíveis na arquitetura e nas dinâmicas sociais da capital do Rio de Janeiro, assim como acontece em outras cidades Brasil afora. A investigação de Aline besouro atesta a indissociabilidade entre arte, e educação uma vez que, através da delicadeza e da potencialidade da imagem impressa, a artista e educadora pinta memórias coletivas que se firmam como resistência nos dias da pós-verdade. Sua produção consolida-se, por fim, como um campo de convergência crucial entre a experimentação técnica e o engajamento historiográfico. Ao expandir as fronteiras da serigrafia para além da reprodutibilidade mecânica, a artista-pesquisadora ressignifica o suporte gráfico como um dispositivo de fabulação e afeto, materializado na poética dos objetos-amuletos. Paralelamente, sua metodologia pautada na deriva urbana transcende a mera representação visual do Rio de Janeiro; converte-se, fundamentalmente, em uma prática de contra-memória capaz de friccionar as visagens institucionais da ditadura militar brasileira.
Referências:
Aline Besouro – Portifólio. Disponível em: https://www.besouroaline.com/
Acesso em 05 de julho de 2026.
Prêmio Pipa – Aline Besouro. Disponível em: https://www.premiopipa.com/aline-besouro/ Acesso em 05 de julho de 2026.
Créditos na imagem dme capa:Reprodução. Mãe Lua, de Moara Tupinambá, 2017. Prêmio Pipa – Moara Tupinambá. Disponível em:https://www.premiopipa.com/moara-tupinamba/Memória
