“Ave Maria nos seus andores (…) abençoai as cascatas e as borboletas que enfeitam as matas”.
Tava na relvinha, de olho nas margaridinhas de repente dei de cara com oco de árvore. Buraco desta historinha. Narrador encantado pelo oco entro, adentro e venho chegado. Este narrador, ao rés-do-chão, calçada, calçadão, dedo de pé na praia na areia agarra.
Oca concha acústica muda de lugar e sai daqui. Beija-flor negro suspenso no ar é amor denunciante. Muito suspenso, esvoaçante. Era poema aceso, desejoso. Poema sobre boca que da minha ainda não saiu.
Estudei com os padres. O pai tem amigos padres. Poderia ser Mariano. Não é não. Em certo sentido é. Com Salesianos, de Santa Terezinha, aprendi hinos, rosas vermelhas na boca. Rosário. Nos beneditinos, do Largo São Bento, era de Maria, mas não Mariano. Não me dedicava os sábados a culto alistado, soldado de esquadrão divino, da Rainha.
Cabeça sempre bati para Maria. Continência. Aprendi hinos, cânticos e cânticos. Amor de louvor, encanteria. Batuque na casa da tia. Sempre de Maria sempre. Maria disso, Maria daquilo. Maria com Ana. Nunca Mariano.
Cardinais os pontos. Os flashs de luz. Os feixes. Milagre dos peixes. Tilápia, carpa. Maria com manto ministrava, interferia interventora que é. Ela é mediadora, medianeira. Grande advogada. Oratória sacra. Eloquente parada. Boca que fala. Boca que beija.
Este narrador pede licença para Iemanjá para beijar: Oxum vira os olhos para lá, vou beijar. Vira os olhos de Maria, para Maria não me olhar.
Pisca-piscas piscavam. Pirilampos, vaga-lumes. No acende luz claríssima, o poema-beijo sai da boca. Escapa. Escapole. Ele vem escandido, sem métrica, sem esquema de rimas. De uma boca a outra. Poema-beijo na boca rasgada. Veio rasgado. É beijo rasgado de lado a lado. É extensão vastíssima.
Beijo cola no peito. Pasto. Amplo pastado. Pastagem. Maria gozava poema de Santa Tereza d’Ávila. A coisa ardia, ruborizava rosa magenta, vermelho; as cores todas das rosas. De Maria sempre. Ana Maria, Mariana. Só Ana. Santana. Imediações das árvores. O oco sopra lá, nele, segredo mocozeado em bicharada mocozeada. Dentro, colorido na sombra. Animação ao vivo da alma. Formas apequenadas das feras grandes.
Este narrador bicho-narrativo fica parado, calado, quieto, com olhos no buraco infinito da árvore. Iça a história de dentro. Do movimento. Fisga com a língua de tamanduá-bandeira. Língua gostosa que com a gosma gruda. Tira girinos, grilos. Mosquitos. Amor zumbido. Zabumba o tempo.
Falo da pequena água pela abelha carregada. Extemporâneo lirismo antigo, contemporâneo. Na água delicada, pororocada.
Este narrador Maria desalinha, deslinda. É de Maria, Mariano nunca.
Beijo consumado, Oxum desvira a cabeça. Maria de olhos destampados. Ela estende seu manto. Imantação da vibração. Encontro de língua por Maria sou abençoado. Ela sabe do poder constituidor de língua partícula do corpo.
Dou um sopro. Areia, partícula de vento. Areiazinha na folha da bananeira que em ti baila. Esta historinha é historinha pertinha. Historinha que te-ti continha, que, num agora ama, te contei.
Não canto mais musas. Não canto mais ninguém. No oco da árvore entrei. E de entrar, estou.
A história era uma vez que de me conter continha no era uma vez mais uma vez de mais uma historinha.
