“A vida é pra valer”. Preparar as malas, aproveitar os últimos momentos antes de se despedir da família. A mente e o coração estão ansiosos pela temporada em que vai morar em outro lar. Partir, muitas vezes, é caminhar em direção ao que devemos, sem saber o que realmente vamos encontrar. Dar um beijo na esposa, filhos, cachorrinhos, deixá-los em estado de espera, enquanto cumprimos uma significativa missão. No início deste ano, em 13 de janeiro, entravam na casa mais vigiada do Brasil as 12 duplas participantes da 25ª edição do Big Brother, um dos maiores reality shows do mundo, exibido, aqui, pela TV Globo. Recorde de audiência, a edição comemorou as bodas de prata do programa, vindo cheia de novidades. Mas este texto não é sobre o BBB 25. É sobre uma outra experiência de conexões humanas igualmente registrada e veiculada – não na televisão, mas nas redes sociais. Quase simultaneamente ao início do BBB 25, em 19 de janeiro começava a semana de Ricardo Cappelli na comunidade Sol Nascente, o primeiro trecho de uma expedição mensal cujo objetivo é conhecer as múltiplas possibilidades de vivência territorial em cada parte do Distrito Federal.

“DF Real”. Em um vídeo postado em 23 de janeiro no seu próprio perfil no Instagram temos uma apresentação inicial do programa. Sendo entrevistado em uma rádio, Ricardo Cappelli afirmou que criou um vínculo forte com o Distrito Federal após atuar como interventor federal na Secretaria de Estado de Segurança Pública, no contexto do golpe de 08 de janeiro[1], que o levou à reflexão sobre seu conhecimento deste solo.

 

“Veja, eu estou aqui há 21 anos, mas será que eu conheço o Distrito Federal como um todo? Eu me fiz essa pergunta e decidi conhecer a realidade do DF, que não é essa realidade aqui, nossa, do Plano Piloto. E aí, uma vez, todo mês, a gente vai tirar uma semana para morar, literalmente, em alguma das regiões administrativas, para sentir o chão real do DF, ouvir as pessoas”, disse.

 

Já em outro vídeo do mesmo dia e canal, de pé, em um ônibus ligeiramente cheio, por volta das 18h20, saindo do trabalho na ABDI (Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial) em direção à Sol Nascente, falou mais um pouco: “A gente vai vendo a situação concreta das pessoas. Sentir, poder vivenciar isso é muito importante.”

“Sonho meu” / “Me leva que eu vou!”.

 

“Tem muita gente me pedindo para ir em 26 de setembro, na Brazlândia, no Recanto. A gente vai para todas as regiões [administrativas] neste ano, para conhecer, vivenciar, compreender a realidade das pessoas, que são a maioria das que moram aqui no Distrito Federal”, prosseguiu.

 

A associação entre o projeto de Ricardo Cappelli com o BBB é somente uma das possíveis. O título da expedição também nos remete ao clássico slogan de Inês Brasil, “Me chama que eu vou” – viralizado, diga-se de passagem, na sua inscrição para este mesmo reality show -, ao quadro “Me leva Brasil”, do grande Maurício Kubrusly[2], que marcou a primeira década do segundo milênio da tv brasileira, e ao samba-enredo da Mangueira, de 1994, “Atrás da Verde e Rosa Só Não Vai Quem Já Morreu”, em homenagem aos Doces Bárbaros (1976), brasileiros e baianos, Maria Bethânia, Gal Costa, Gilberto Gil e Caetano Veloso[3]. Mesclando momentos de humor, tal qual o meme nos evoca, em cenas possíveis pelo temperamento alegre e brincalhão de R. Cappelli, com a seriedade do conteúdo, tendo em vista a concretude de muitas vidas que são apresentadas, tal qual nas viagens do fantástico jornalista aos lugares mais autênticos do nosso país, bem como o convite à arte e ao sonho, como na canção mangueirense, o nome “Me leva que eu vou!” parece fazer todo o sentido.

Vivências. Descobrir novas linhas de ônibus, desvendar seus trechos, errar e acertar as baldeações. Viajar em pé, conseguir um lugar sentado, cochilar no trajeto com o qual não se tem familiaridade. Sair de casa com folga no horário para não atrasar a chegada no escritório, mas deixar a cama arrumada e o banheiro limpo – afinal, é visita. Tomar um café preto corrido na rodoviária, jantar um hambúrguer, pastel ou cachorro-quente na esquina, conhecendo as iguarias do local. A mim, a ação trouxe uma grata memória afetiva dos anos 2015, 2016, década passada, quando eu fazia parte das Brigadas Populares, uma organização de esquerda militante que, em dezembro de 2024, fundiu-se ao Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST). Na época, as BP’s se organizavam por estruturas presentes em quatro estados, Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo, e no próprio Distrito Federal. Uma das atividades de militância chamava-se “Vivências”, que consistia no deslocamento territorial temporário dos militantes, a fim de diversificarem seus leques pessoais de experiências e conhecerem novas formas de organização política. “A gente vai seguir. A gente vai fazer isso o ano todo”, assegurou R. Cappelli, sobre essas novas vivências no DF, as quais, acima de tudo, o destino final é um só: o encontro com pessoas reais.

Carioca, o atual presidente da ABDI, Ricardo Garcia Cappelli, nasceu em 11 de fevereiro de 1972, mas veio estudar jornalismo em Brasília (DF). Estabeleceu, aqui, um padrão que se manteve por um tempo: transitou política e profissionalmente entre o Rio e o BSB, deslocando-se para o Maranhão, excepcionalmente, já em uma fase madura de sua vida. Sua vasta trajetória começou como presidente da União Nacional Dos Estudantes (UNE) (1997 a 1999), passou pelo Governo do Estado do Rio de Janeiro (coordenador Especial de Políticas Públicas para Juventude, de 1999 a 2002), pelo Ministério do Esporte (diretor de Esporte Universitário, de 2003 a 2005, e diretor de Incentivo e Fomento e presidente da Comissão Técnica da Lei Federal de Incentivo ao Esporte, de 2009 a 2013, e secretário Nacional de Esporte, Educação, Lazer e Inclusão Social, de 2013 a 2015). De 2015 a 2021, mesmo no Maranhão, manteve um pé no Planalto Central, atuando como secretário Estadual da Representação Institucional do Governo do Maranhão no Distrito Federal, durante o governo de Flávio Dino. De 2021 a 2022, foi secretário de Estado de Comunicação Social nos governos Flávio Dino e Carlos Brandão. Com a posse de Flávio Dino como ministro da Justiça e Segurança Pública, passou a secretário-executivo da pasta e, em 8 de janeiro de 2023, mediante os ataques na Praça dos Três Poderes, foi nomeado interventor federal na Secretaria de Estado de Segurança Pública do DF. Entre 19 de abril e 4 de maio de 2023, assumiu de forma interina o cargo de ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República. Mas, na Sol Nascente, R. Cappelli foi, para além de outras qualificações, um hóspede na casa de pessoas gentis e receptivas.

De corpo presente, durante a estadia, R. Cappelli presenteou e foi presenteado, em um gesto singelo que guarda uma grandeza própria e nos conduz a estruturas arcaicas da cultura. Em “A memória dos mortais: notas para uma definição de cultura a partir de uma leitura da Odisseia”, ensaio publicado no livro “Lembrar, Escrever, Esquecer” (2009), a filósofa Jeanne Marie Gagnebin voltou à “Odisseia” de Ulisses (e de Homero) para argumentar que a hospitalidade é um elemento essencial da civilização, enquanto seu oposto, o tratamento hostil ao estrangeiro, um índice patológico da não aceitação do outro. A reflexão foi construída a partir do contraste entre duas situações narradas: a primeira, a cena da entrada de Ulisses na terra do ciclope, onde o monstro que recebe o viajante o embebeda para, na sequência, assassiná-lo, a ele e seus amigos, e, no sentido contrário, a cena em que Ulisses é recebido com um jantar e contribui, para a alegria de todos, com suas histórias sobre os mares que navegou, os portos que desembarcou e os povos que conheceu. Neste caso, Ulisses compartilhou, na mesa, com outros comensais ao redor da comida, conteúdos únicos de diversas vivências, dispostos à troca pela recepção naquela casa. Já no caso do ciclope, quase foi aniquilado por representar um ameaçador outro/forasteiro, na impossibilidade de se estabelecer um convívio. Na primeira cena, do encontro decorre a violência, enquanto, na segunda cena, a comunicação política. R. Cappelli deixou para uma criança, filha de um casal anfitrião, uma boneca de presente, e recebeu de volta um outro boneco: si mesmo, como um desenho, portando uma faixa presidencial. Independentemente do que o futuro os guarda, algo já aconteceu: se encontraram, se comunicaram, se presentearam.

Nas redes, a incursão mostrou resultados. Uma rápida pesquisa feita diretamente em seu próprio Instagram no fim de 26 de janeiro mostrou que, na primeira semana da ação, quando esteve na Sol Nascente, os 56 posts realizados somaram 116.6 mil curtidas e quase 10 mil comentários. Os reels obtiveram cerca de 47 mil visualizações. Uma semana após os posts, centenas de novos seguidores passaram a integrar sua rede. Seriam moradores dos locais visitados? É possível que sim, se considerarmos, também, o conjunto dos comentários: a maioria visível celebrava a presença de R. Cappelli, o convidava para ir a outros lugares, reafirmava a importância de tê-lo nas comunidades. E R. Cappelli respondeu com empenho, fosse na escuta presencial, enquanto fazia o corpo a corpo comunitário, fosse em um quadro específico para o digital em que interagiu com o público “Lendo os comentários”. Por parte dos moradores, mostraram que sentiram-se vistos e lisonjeados com a visita de uma autoridade pública, impacto relevante no off e no online, sobretudo mediante o diagnóstico a partir do qual R. Cappelli avançava: as comunidades estão esquecidas pelo governador do DF. Impacto político e cultural, ressalta-se, a prática de uma escuta ativa, preocupada e respeitosa. Certamente, ganham os moradores do DF e o próprio sorridente R. Cappelli.

A pedagogia das vivências proporciona algo fundamental no trabalho político: voltar às bases, dispor-se ao encontro. Não fiz nenhuma “Vivências” enquanto estava nas Brigadas Populares – não aquelas formais, propostas pela organização. De uma outra forma maior (e mais bonita), olho para trás e vejo que grande vivência foi estar lá, no dia a dia, entre compas de militância e as pessoas atendidas pela organização. Aprendi muito sobre coisas que não têm preço, mas têm valor: hospitalidade, companheirismo, trocas[4]. A política é concreta e atravessa as vidas. Da porta para fora, exige intestino. Da porta para dentro, se deve ter coração. Acompanhar o conteúdo do “reality show” – que é pautado em muita reality e o show emerge na justa medida da estratégia de comunicação – tem sido observar os deslocamentos de R. Cappelli e sua desenvoltura nesses trânsitos, dar risada da sua busca por um produto que faça crescer cabelo, querer escapar da dieta e devorar uns lanches, prometer começar a ginástica ou a dança na semana que vem, até mesmo conhecer belas cachoeiras deste trecho do cerrado brasileiro pouco valorizadas, mas, principalmente, ser informada das dificuldades enfrentadas pelo povo para ter acesso à saúde, saneamento básico, pavimentação, transporte, estar à par do impacto destes obstáculos em seus cotidianos e, enfim, engajar-nos em um processo de escolha pela transformação de nossas realidades. A relação entre política, comunicação e arte não está dada. Precisa-se de esforço humano para que estas pontes sejam construídas. Por isso, no todo, guardei uma grande lição que vejo reiterada em “Me leva que eu vou!”: assim como “a vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida” (Vinícius de Moraes e Baden Powell, em “Samba da Benção”, 1967), também o é fazer política, encontrar-se e nos encontrar, e ganhar, apesar do tanto que perdermos pelo caminho. O bom samba, e a boa política, são formas de oração?

 

 

 


NOTAS:

[1] No último 8 de julho, Ricardo Cappelli lançou o livro “O 8 de janeiro que o Brasil não viu”, pela editora Estrada Real/Intrínseca, contando os bastidores da resistência ao golpe de Estado colocado em curso pelo grupo vinculado a Jair Bolsonaro.

[2] Vale mencionar o sensibilíssimo documentário lançado no Globoplay, em 4 de dezembro de 2024, sobre a vida deste homem que, aos 79 anos, encara a demência frontotemporal. Maurício Kubrusly começou sua carreira como jornalista no impresso em 1964. Em 1984, foi para a televisão. Também passou pelo rádio, onde vivenciou seu imenso encantamento pela música. Apesar de sofrer com a atrofia da massa cinzenta de seu cérebro, segue sendo tocado pelas ondas das canções. O título do filme reitera versos da composição “Esotérico”, de Gilberto Gil, “Mistérios sempre há de pintar por aí”. Mistério e encontros. Desencontrado de si mesmo, não se desencontra de seu amor, sua mulher Beatriz, único nome nunca esquecido quando até o seu exige exercício para recordar. O documentário parte do desejo da esposa em não somente reter a memória de sua carreira, mas de conhecer seu marido mais a fundo do que o próprio pôde mostrar, já quase sexagenário na data do primeiro encontro. Mistério: com 16 anos a menos que ele, o tempo reservado aos dois parece ter implicado o propósito de cuidar no período dessa grave doença. O filme mostra que pensar e sentir são faculdades distintas e independentes, que o amor é do corpo todo, não apenas da mente. Kubra está perdendo a linguagem, mas eles se cantam, se dançam, se amam. É impossível assistir o documentário e não embalar-se no ritmo deste amor maduro, não ficar cantarolando (quem sabe, assoviando) por aí: Não adianta nem me abandonar / Porque mistérios sempre há de pintar por aí / Pessoas até muito mais vão lhe amar / Até muito mais difíceis que eu pra você / Que eu, que dois, que dez, que dez milhões / Todos iguais / Até que nem tanto esotérico assim / Se eu sou algo incompreensível / Meu Deus é mais / Mistério sempre há de pintar por aí / Não adianta nem me abandonar / Nem ficar tão apaixonada, que nada / Que não sabe nadar / E morre afogada por mim.

[3] Me leva que eu vou / Sonho meu / Atrás da Verde e Rosa / Só não vai quem já morreu. Misteriosamente, chama a atenção que o samba-enredo da Mangueira, citado por lembrar o nome da vivência de Ricardo Cappelli, tenha homenageado o grupo Doces Bárbaros, que gravaram originalmente a canção “Esotérico” que, por sua vez, veio a compor o álbum “Um Banda Um” de Gilberto Gil em 1982, seis anos após a primeira versão – citado, aqui, pela referência no documentário sobre Maurício Kubrusly. Redes: não as sociais, mas as incompreensíveis, esotéricas, da vida. “Cuidado, companheiro! A vida é pra valer […] A vida não é de brincadeira, amigo…” (MORAES; POWELL, 1967).

[4] Registro a lembrança de que, nas Brigadas Populares, fui recebida por pessoas como Gabriel Siqueira, que me acolheu e tanto me cuidou em questões familiares delicadas, para o que a gratidão é eterna. Com Raquel Silveira, Ana Catharina Mesquita, Mariana Lannes, construímos um rico companheirismo feminista na Frente de Mulheres. Recebi Clara Moreira quando chegou no Rio de Janeiro (RJ), visitei Magide Vieira em Miguel Pereira (RJ), e fui hóspede de Ana Malaco, que agora aguarda a chegada de Yamandú, seu filho, quando estive em Mariana/Ouro Preto (MG). Tão generosos foram comigo Derê Gomes, Franco Nascimento, Fillipe dos Anjos, Roberto Santana. São relações cujos laços, independentemente do tempo e dos caminhos que cada um tomou, serão sempre valiosos.

 

 

 

 


REFERÊNCIAS:

CAPPELLI, Ricardo. O 8 de janeiro que o Brasil não viu. Rio de Janeiro: História Real/Intrínseca, 2025.

CAPPELLI, Ricardo. Perfil. Instagram. Sem data. Em: https://www.instagram.com/cappelli.ricardo/. Acesso: 30/07/2025.

CAVECHINI, Caio; KURIKI, Evelin. Kubrusly: Mistérios sempre há de pintar por aí. Online: Globoplay, 2024. Em: https://globoplay.globo.com/kubrusly-misterio-sempre-ha-de-pintar-por-ai/t/wZbThhPdxK/. Acesso: 30/07/2025.

GAGNEBIN, Jeanne Marie. A memória dos mortais: notas para uma definição de cultura a partir de uma leitura da Odisseia. Em: ______. Lembrar, Escrever, Esquecer. São Paulo: Editora 34, 2009.

GIL, Gilberto. Esotérico. Em: _____. Um Banda Um, Rio de Janeiro: Warner, 1982. Em: https://www.youtube.com/watch?v=9eayEjCdiys&list=RD9eayEjCdiys&start_radio=1. Acesso: 30/07/2025.

G.R.E.S. ESTAÇÃO PRIMEIRA DE MANGUEIRA. Atrás da Verde e Rosa só não vai quem já morreu. (Compositores: Bira Do Ponto / Carlos Sena / David Correa / Paulinho Carvalho). Rio de Janeiro, 1994. Em: https://www.youtube.com/watch?v=5MS0tLrL1P4. Acesso: 30/07/2025.

MORAES, Vinicius de; POWELL, Baden. Samba da Benção. 1967. Em: https://www.youtube.com/watch?v=Fz0eddwTjnk&list=RDFz0eddwTjnk&start_radio=1. Acesso: 30/07/2025.

WIKIPÉDIA. Brigadas Populares. Online. Em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Brigadas_Populares. Acesso: 30/07/2025.

WIKIPÉDIA. Ricardo Cappelli. Online. Em:https://pt.wikipedia.org/wiki/Ricardo_Cappelli. Acesso: 30/07/2025.

 

 

 


Créditos na imagem de capa: Printscreen de vídeo postado no canal próprio de Ricardo Cappelli no Instagram. Em: https://www.instagram.com/p/DFL70YUJ5gB/. Acesso: 30/07/2025.