O Tempo — esse Senhor das Contradições —
devora tudo, até a si mesmo.
egeo
Depois do erro, vem a retomada.
O tempo não é linha: é espiral.
O Retorno ocorre no sétimo dia — eco do ciclo lunar.
Aquilo que partiu reencontra seu caminho, mas não da mesma forma.
Não há culpa na demora: há aprendizado no recuo.
复 – Fu – O Retorno
O apito do trem soou ao longe, arrepiando o gato que dormia na estação. Havia uma eternidade que parecia prestes a chegar. Apertou o passo, aumentou o descompasso, mas como a vida estivesse pelo avesso e o tempo na contramão, quanto mais corria, tanto mais se atrasava, e por mais que tentasse se encontrar, mais se perdia no saguão da antiquíssima recém inaugurada estação. Olhou o relógio pregado na parede, há tanto tempo ali que se confundia com a alvenaria, desbotada de tanto ir e vir. Na contramão de sentido único, desesperadamente buscava um espelho, na esperança fugaz de um atalho para o beco de mil saídas, única via possível para quem percorre um caminho sem volta, derradeira esperança que lhe restava de não tomar o trem que sempre chegava, mesmo que não se pudesse determinar onde e nem quando. O apito haveria de colapsar a onda de probabilidade, mas e o gato? O que seria do gato? Nem Schrödinger saberia dizer.
A pergunta lhe martelava e, se existia, permanecia envolta em nebulosas de órion que se dissipavam como o tempo, escorrendo pela consciência num eclipse lunático, tal qual uma estrela reversa que nasce de um buraco negro.
A verdade, refletiu, está sempre oculta no seio da mentira, tal qual um sentido que espreita por detrás da irracionalidade que povoa o mundo e aguarda o momento de se manifestar sub-repticiamente. O relógio fez “Tic” e, antes que soasse o “Tac”, nesse interregno entre nada e coisa alguma, deu-se conta de algo que sempre soubera: só se reconhecia pela perspectiva de um passado tão violentamente comprimido que o dia de amanhã já lhe parecia ontem, misturado com incontáveis anteontens. E temia que qualquer futuro estivesse irremediavelmente perdido já no passado mesmo, muito antes da possibilidade de vir a ser. Era um ser fragmentado entre o já e o ainda, e no agora não conseguia mais do que se extraviar da pergunta e de si. “Tac”!
Como uma lanterna paradoxal que projeta um facho de escuridão, gerando buracos negros de massa desprezível, perdeu-se no exato instante em que se reencontrara num espaço-tempo que se curva sobre si mesmo, moldado e retorcido pela ação de uma singularidade de mil versões que tudo reconfigura à sua volta.
A realidade, que tentava libertar-se da neblina pegajosa e nojenta da contradição hipócrita entre falar e agir, surgia apenas em lampejos ofuscantes, escapando como o brilho efêmero de uma estrela prestes a desaparecer no horizonte da razão. Por um momento teve paz para, logo a seguir, deparar-se consigo mesmo numa esquina escura e chuvosa, e não reconhecer-se mais, sua imagem decomposta pelo prisma retorcido que desdenha do lord inglês num arco íris de grizes. Logo ele, que subiu em ombros de gigantes e teve a audácia de decompor essa quase mesma luz e, depois, recompô-la num giro vertiginoso e genial. Do agora sempre presente, sem tempo e sem espaço, não restou nada. Nunca resta nada, mas tudo recomeça, menos a verdade.
— Não… não sou eu – pensou – não posso ser eu… e tornou a perder-se no multinada de universos hiperbólicos, como trilhos de aço que nunca se encontram mas se tangenciam quando x tende a infinito, em qualquer tempo, desde que possa ser medido nos relógios derretidos de Dali.
Sentiu uma vertigem e, numa curva fechada do espaço, derrapou numa dessas dobras do tempo, como se esbarrasse num pedregulho perdido em um pretérito mais que esquecido… Mas perdido onde? Nas tramas do espaguete de lembranças refratadas pelo prisma do próprio tempo? Num futuro que se dissolve antes de se cumprir, esperança disfarçada do que poderia ter sido? Mas que futuro, afinal – o da memória, ou o da ausência vestida pelas cores que ela mesma inventa? “Tic.”
Tentou se recompor ajustando as lentes de cor inexistente, emprestadas por Israel Pedrosa, e partiu, afinal nunca estivera verdadeiramente ali, mesmo que não conseguisse lembrar. Inconsciente de sua condição de indivíduo – mero fragmento de uma infinidade de estilhaços primordiais – lembrou-se, ou talvez delirasse – de que tudo não passava de um sonho. Um sonho que, num lapso de inconsciência, chamava a si mesmo por outro nome, enredando-se em uma recursão sem saída, um looping infinito que se perpetua por pura autoindução, como uma onda eletromagnética cujos campos se criam a si mesmos propagando-se indefinidamente.
— Será que sou eu? – pensou – Não, não posso ser eu…
Tac! Soou o mecanismo do relógio. Sentiu uma descabida urgência de tomar posse da imensa vantagem de nunca encontrar-se e nem saber como perder-se, e num gesto de coragem despediu-se das ilusões pretensiosas de passado, do tragicômico do presente, da prepotência do futuro. Olhou com um certo desprezo para todos os multiversos que nunca se alinham e discordam entre si, porque emaranhados nas onze cordas quânticas. E na certeza, dilacerada pelo ceticismo que nunca se foi, de estar mesmo em completa ausência, mergulhou no campo de papoulas de Higgs, onde tudo faz-se de nada e a pergunta jamais deixa de martelar: o que é que se encontra quando se abandona a procura?
Mas o relógio fundido na argamassa mole, essa maldita ampulheta da ilusão, eternamente girando, ele não para mesmo que não vá a canto algum, pregado naquela parede que o tempo, a despeito de aprisionado na ampola de vidro, há de transformar em escombros. Inconsistente consigo mesmo, esse tempo lhe persegue até a curva que contorna a beira do horizonte de eventos, onde tudo recomeça, como num girassol amarelo procurando um céu de estrelas retorcidas pelo pincel do mestre que nunca esteve aqui mas partiu assim mesmo, porque desistiu de ficar. Mas ficar onde, se não encontrava-se em canto algum desde sempre e não havia vestígio de conexão com o que quer que fosse?
Tudo no fundo não passava de um amontoado de rabiscos e borrões sem sentido, mas… como sem sentido se até Pollock é fractal? E deu-se conta de que estava de fato num labirinto de respingos em espiral desordenada que, de perto dão em nada, mas, de longe, desvelam tudo, como num ensaio sobre a cegueira mais profunda: a da racionalidade que camufla os sentidos mais abissais, a que divide pra conquistar, compartimentaliza, impede o encontro entre a mente e o corpo, aprisiona sentimento no caixão do utilitarismo e da dúvida metódica. E na escuridão, único domínio onde a luz pode se manifestar, refletiu acerca do prejuízo causado pelas boas intenções do filósofo de La Haye, como um reverso do não ser, um pensar mas não existir.
Havia, contudo, um plano de salvação, sempre se poderia sanear a própria loucura vendo-a refletida nos outros, que são o inferno inconsequente de uma vida de pseudo escolhas, já que a única atitude de liberdade autêntica era a não escolha. Mas isso era um segredo guardado a sete chaves desde tempos imemoriais. O relógio fez “Tic” e, num relâmpago, tudo ficou claro: um serrote cego, uma lima afiada, um conhaque, uma ideia, Montserrat Caballé no rádio, David Garret ao violino, tudo fazia sentido algum e tudo era a mesma coisa. A urgente sensação cortante de que não podia se perder num segundo sequer, o tempo havia parado, mas… como poderia se perder num segundo se um segundo ficara congelado numa eternidade? E tal qual viajante pelo buraco de minhoca, retornou ao início de tudo o que nunca começa e nem acaba, mas, para seu desespero, se depara novamente com infinitas portas, reflexos de uma só, como num jogo de espelhos de barbearia que não existe mais. Sabe que precisa entrar numa delas, mas infinitas levam a canto algum, ou seja, a uma toca do coelho que nunca existiu, mas onde tudo é possível. E antes que o tempo se extinguisse numa compressão infinita, saltou no abismo de esperança por mais um segundo que lhe garanta a construção do futuro, que o presente já está prestes a ser perdido novamente, vítima do descompasso entre o espaço de experiência e o horizonte de expectativa do Koselleck, – de onde ele tirou isso afinal? – pensou. Tudo o que se deseja é empurrar o amontoado de escombros que o anjo da história teima em não encarar, mas parece impossível, culpa do Klee? Não, as crianças mutiladas ao meio na Palestina, reconstruídas como um Picasso reverso e macabro, nos espreitam e fazemos de conta que não é de nossa conta… “Tac”!
No melhor espírito das subjetividades que não se firmam, pensou infinitos casamentos, encontros e desencontros que jamais de se deram uns aos outros. Já não se tratava mais de ser ou não ser, estar ou não estar. Era para além, muito aquém disso. Porque no fim tudo não passa de depois, zig zag e vai e vem. Quem sabe quem?
A fumaça da velha locomotiva, como cortina do tempo, cerrou o entorno novamente e um pássaro azul, que nunca voa, se resigna e canta seu lamento de eternidade. Esse pode ser o último antes que tudo recomece, a eterna volta dos que não foram, o sem fim que parte do inescapável colapso que jamais se consuma, mas sempre nos espreita, como um messias indeciso que sabe da inexistência do caminho, e que nunca retornou porque os vendilhões do templo precisam prosperar para que a ordem natural das coisas jamais se perca e tudo seja com sempre foi, e ele, o tempo, se faça ao caminhar para trás.
Tudo e nada, aqui e ali, não passam de ilusões encrustadas no eterno presente e, nesse emaranhado de delírios entrecortados por relâmpagos de lucidez, passado e futuro são meras perspectivas de um espaço de tempo colapsado pela gravidade. Quem diria hein Sir Isaac? “Tic”.
Consciente da necessidade urgente de tudo ignorar, já que o nada está dado, tentou acordar para se certificar de ainda viver, mas os olhos pesam toneladas de areia e solidão, misturadas por um vento tão sutil e introspectivo quanto a ânsia que media entre o ser e o nada. O deserto, frio como o gelo que contradiz a água quando dilata, tórrido como uma estrela que nunca se apaga e morre de tédio, sopra um vento gelado pela gare da estação e aguarda ansioso pela sua hora da estrela, o derradeiro dia em que leste e oeste se encontram numa praia do Leme e nada mais importa, porque ali a vida não faz mais o menor sentido e cabe toda na solidão de um apto repleto de letras e palavras que não se dão muito bem, como notícias de jornal que não refletem o real, como sempre foi, que se parecem com a solidão que só conhece o bêbado em noite de lua nova. E se reconheceu em todos os que estão desacompanhados até de si mesmos. E não era pra ser? “Tac”.
Um calor ensurdecedor retorcia tanto o ar que pairava acima dos trilhos, que a miragem de uma mulher morena esguia e linda, de cabelos negros e olhos profundos, se desfez em realidade colorida pela ilusão da luz que se refratava nos vitrais escorridos, de densidade indefinida e cambaleante. Tão indecisa quanto o messias que não sabe voltar, ela estava lá e não estava lá e tanto podia ficar quanto partir no próximo trem, era indiferente, porquanto jamais iria chegar, já que não tinha aonde ir. Presa de um lapso temporal de infinitesimal duração infinita, ela era e não era, como um sonho aprisionado pela vigília que não tem descanso. O trem, que partira no início de tudo para nunca mais voltar, apitou tão forte que a onda de choque transmutou a imagem dela em realidade, e o sonho se partiu, rumo a algum passado que não pode ser determinado, mas que certamente não existe senão como um colapso de probabilidade improvável, uma incerteza de insustentável leveza do não ser, eterna contradição que permeia um multiverso caótico que ordena a si mesmo em dualidade de opostos que se anulam em nada criador, num ciclo interminável e inexplicável a si mesmo, como uma superfície que só tem um lado e duas faces. Onde fica a borda da plataforma? “Tic”.
Olhou em volta, em busca de um refúgio, e encontrou um beiral de telhado que escapara aos escombros da modernização de vidro, aço e concreto armado, último vestígio de memórias que não se comunicam mais, mas que escancaram a pobreza de experiência que o Benjamin tanto denunciou e que ninguém ouviu. Lembrou de Starry, Starry Night, do McLean, e pensou nos incontáveis Van Goghs que perambulavam invisíveis no saguão da estação, tal qual os meninos que comem luz do Chico Buarque, ah esses saltimbancos trapalhões, perdidos no globo. Tudo era uma coisa só, martelando a consciência de uns poucos e tornando a solidão, a cada dia que não passava, mais e mais insuportável. Em total desânimo buscou os ponteiros do relógio, mas em lugar deles pensou ver lâminas de uma navalha cega e enferrujada, aço solingen alemão. “Tac”.
Recordações em cores desbotadas, como as de um arco íris lavado a seco num improvável dia de sol londrino, se empilhavam como papéis na mesa do general burocrata da era do chumbo, que teima retornar em toda a truculência porque as lições dos porões não foram passadas a limpo. Já não era possível distinguir as primeiras das últimas, tão mesclados estavam os tempos, como uma roda da fortuna girando anti-horário. Numa banca de jornais, das que só vendem balas, doces e brinquedos baratos, a última edição não exibia data, porque isso não importa mais e as notícias são intercambiáveis no tempo e no espaço. Globalização, pensaria, não fosse o som estridente do apito do trem, que não chegava e nem partia. Comprou um jornal e, ao abri-lo, deparou com um anúncio do Ford Corcel 73, cor de mel, como o do Marcos Valle! Afinal, quando estamos aonde? O trem não passou. E tampouco parou.
Tudo parecia tão absurdo e desprovido de sentido que não podia ser nada além de um sonho envelhecido. Mas sonhos não envelhecem, ou envelhecem? Bem, o certo é que sonhos morrem e se não morrem de velhice, de que morrem? Morrem de abandono, de esperar na estação, de errar o vagão, morrem ao léu, na porta do céu ou “in the hell”. Mas morrem, numa noite de verão ou num dia de inverno, morrem quando ninguém está olhando. Morrem.
Um aguaceiro desabou pela gare da estação e a lágrima escorreu feroz como um oceano que se confunde com uma chuva fina e sobe ladeiras infindas, se dissolvendo em calçadas sem limites. Todas, sem exceção, levam a algum engano e a música, outrora tão gentil, se confunde em acordes dissonantes e atônitos. A poesia se desfaz em pó, as palavras de significados perdidos como um sonho que erra de madrugada, se extravia e perde, não sabe mais voltar e nem ousa tentar. A solitude, amiga outrora tão bem-vinda, se transmuta em solidão, covarde invasora, cruel opressora, malvada e inoportuna.
Hoje, o medo é maior que a esperança, ainda haverá dois relógios em sincronismo? Ou apenas um descompasso, perdido no espaço? Haverá quem saiba dizer? A felicidade, hoje, é prisioneira de dolorosa lembrança e essa não se dilui nem numa centena de Niágaras.
O carteiro parou e, ao invés de carta, lhe deu um abraço tão forte que quase machucava. As malas prontas, estavam deitadas ali no chão, denunciando a partida. Ficou claro que corrente da última âncora com esse mundo medonho estava prestes a se romper e, dali por diante, tudo o que era familiar deixaria de existir, porque não haveria mais como dividir as recordações. E mesmo que houvesse, que diferença faria? Se tudo o que conecta ao aqui e agora já vai, o que resta é esperar, quem sabe, outro sonho. “Tic”.
— Senhor, senhor, precisa embarcar, o trem já vai partir.
Era o fiscal da estação que lhe falava, delicadamente. Num gesto mecânico, assentiu com a cabeça. Entrou, sentou-se e olhou pela janela enquanto o trem apitava e começava a partir. A mulher, na plataforma, lhe acenou, sorriu e desapareceu da lembrança. O gato também.
NOTAS
¹ O Hexagrama 24 do I Ching, denominado Fu (復), costuma ser traduzido como “O Retorno”. Associado ao ciclo lunar de 7 dias, à passagem do solstício de inverno e ao princípio da restauração, Fu simboliza o momento em que algo retorna ao caminho após um desvio — não como repetição literal, mas como reintegração transformada. O trovão, escondido sob a terra, anuncia silenciosamente a volta do movimento. Nesse símbolo milenar, o tempo deixa de ser linha para tornar-se espiral: há um atraso que, longe de significar perda, contém a chave de uma reinserção orgânica ao fluxo da vida. Assim, o “retorno” aqui não é regressão nostálgica, mas o reatar do fio oculto que conecta memória, presença e devir.
Créditos da imagem de capa: Egeo
