Camila Proto é natural de Porto Alegre (RS), vive e trabalha em Melun, na França. Sua produção desenvolve-se na interseção epistêmica entre arte, ciência, literatura e filosofia, mobilizando situações poéticas como dispositivos de investigação. O escopo de sua pesquisa poética reside na investigação das latências e das virtualidades inerentes ao acontecimento, ao arquivo e ao lugar, desaguando em desdobramentos transmidiáticos, tais como filmes-ensaio, livros de artista e instalações. Nesse artigo, falaremos sobre o filme-ensaio Microerosões, de 2020.
O trabalho de Proto é conhecido pela sua imersividade, possibilitada a partir dos usos do som e da imagem que criam uma narrativa multissensorial. As obras da artista abordam temas diversificados, com destaque para as poéticas e as sensibilidades dos lugares, assim como suas relações com a memória individual e coletiva. Microerosões é um filme-ensaio que nos convida à uma jornada polifônica que articula diferentes temporalidades para contrapor a curta duração, que dá o título à obra, à longa duração. O vídeo se inicia com a projeção de imagens de paisagens naturais acompanhados de um texto narrado pela artista que trata da complexa experiência do tempo frente a situações de distanciamento e de ausência. A fala de Proto alcança distintas situações e subjetividades, uma vez que a falta é um elemento onipresente na vida: seja de uma pessoa, de um sentimento, de um animal de estimação ou mesmo de um objeto associado a um momento bom da vida. Ela explora esse pressuposto a partir da (im)possibilidade de previsibilidade e da certeza de que algo muda ou se esvai a cada dia que passa. São as pequenas erosões, os pequenos desgastes ou modulações, que transformam as bases ou as estruturas de uma experiência. A dimensão poética do trabalho da artista aciona afetos singulares a partir de uma composição que torna a escrita de si uma prática que se complementa com a recepção do espectador.
Trazidas para o ofício do historiador, é difícil não associar as microerosões à micro-história, à História do Cotidiano ou a longa-duração como elaborada pelos Annales, mas a particularidade das microerosões reside na continuidade ininterrupta. A rocha é atingida pelo tempo de pouco a pouco, mas não há como antever o que irá se formar e, por conseguinte, como o ambiente responderá a essas mudanças. Assim, o desgaste sutil das estruturas seria a chave para uma leitura do imperceptível. Um exemplo plausível é a mobilização em redes sociais em torno de um tema ou causa. De like em like, de comentários a compartilhamentos, ações que levam segundos podem se tornar sólidas ao ponto de irromper discursos e práticas de poder e de controle, ou contribuir para a sua manutenção. O trato com as microerosões, na História, é comum às fontes consideradas “à margem” de algo: processos judiciais cotidianos, diários, cartas e inventários e atas em geral. Nesse tipo de material podemos encontrar, por exemplo, repetições de atos que demonstram a não adesão a normas sociais ou leis, mudanças sutis de vocabulário, de hábitos e de costumes. Conectar essa perspectiva à erosão das grandes estruturas ou à ressignificação das mesmas é um desafio ao ofício historiográfico ao qual Michel Foucault se refere como a microfísica do poder.
A obra de Camila Proto em análise pode ser lida como uma ferramenta de análise dinâmica que, através da metáfora geológica, nos possibilita adentrar os domínios do fazer histórico foucaultiano. Para o autor, o poder não é um objeto, um lugar ou uma posse, mas sim, um exercício. A capilaridade do poder, em Foucault, em muito dialoga com a perspectiva relacional proposta pela artista porto-alegrense através dos sons e das imagens. Se, nas teses do autor francês, nós temos o saber-poder que legitimas as práticas de controles, temos também as resistências, que não são externas ao poder. Não se trata, nesse sentido, de esperar uma revolução a nível monumental, mas de se perceber que a resistência existe de maneira coextensiva e na mesma proporção na qual o poder opera. Ambos coexistem de forma fragmentária. A rigidez imposta pelos dispositivos de poder se choca, justamente, com a transigência da resistência e a sua capacidade de reinvenção. Pensando nas discursividades, o poder opera a partir daquilo que é considerado hegemônico ou oficial. As microerosões estariam, por exemplo, nas mesas de bar ou nas conversas entre famílias e amigos. As microerosões seriam, na leitura foucaultiana, a física da resistência ou aquilo que opera os desgastes nos dispositivos de controle.
A análise do filme-ensaio Microerosões demonstra, no limite, como as linguagens artísticas contemporâneas podem atuar como potentes dispositivos de reflexão teórica e metodológica para a ciência histórica. Ao tencionar as fronteiras entre a curta e a longa duração por meio de uma narrativa multissensorial, a artista oferece ao historiador uma refinada metáfora geológica para pensar as dinâmicas sociais. A sutil e ininterrupta ação do tempo sobre as estruturas, capturada pela sensibilidade poética de Proto, encontra perfeita consonância com a microfísica do poder de Michel Foucault, lembrando-nos de que a história e as relações de força não se solidificam ou se desfazem apenas em eventos monumentais, mas na capilaridade do cotidiano. A dimensão subjetiva da obra convida o espectador e, por extensão, o pesquisador, a olhar para os arquivos e para as fontes não como repositórios estáticos, mas como palcos de atritos e reconfigurações constantes. Compreender as microerosões cotidianas, portanto, é reconhecer a física das resistências silenciosas que operam os desgastes definitivos nos dispositivos de controle e abrem frestas para a reinvenção da experiência humana no tempo.
Referências:
Camila Proto – site oficial. Disponível em: https://www.camilaproto.com/.
FOUCAULT, Michel. A escrita de si. In.: MOTTA, M. B. (Org.). Ética, sexualidade, política. 3. Ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2017. (Coleção Ditos e Escritos V).
FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Organização e tradução de Roberto Machado. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1979.
Créditos na imagem de capa: Reprodução. Still de Microerosões, de Camila Proto, 2020. Disponível em: https://www.camilaproto.com/
