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Ensaios e opiniões

O Colégio como fonte: cultura escolar e história em Macaé

Um dos maiores desafios para o professor de História é revelar aos seus estudantes que o “que está aí” nem sempre “esteve aí”. Em outras palavras, desnaturalizar o presente. E um dos fatores que dificulta tanto essa tarefa é justamente a força magnética da vida cotidiana sobre todos nós.

Afinal, se o cotidiano é composto, dentre outros elementos, pela espontaneidade e o pragmatismo, como aponta Agnes Heller (1992, p. 29), não é surpresa que ela se concentre a maior parte do tempo na atualidade.

Ainda assim, há tantos vínculos entre o cotidiano e a história quanto se possa imaginar; seja na forma de valores e tradições repassadas adiante pela família ou pela comunidade, seja pela própria vivência dos indivíduos, que também testemunha a mudança da sociedade. Portanto, é preciso ressaltar que

 

A vida cotidiana não está ‘fora’ da história, mas no ‘centro’ do acontecer histórico: é a verdadeira ‘essência’ da substância social. (…) As grandes ações não cotidianas que são contadas nos livros de história partem da vida cotidiana e a ela retornam. Toda grande façanha histórica concreta torna-se particular e histórica precisamente graças a seu posterior efeito na cotidianidade (HELLER, 1992, p. 20)

 

No entanto, muitos analistas têm observado que nosso momento histórico tem sido definido por uma experiência de aceleração do tempo que empurra cada vez mais para longe de nosso horizonte social tanto o passado quanto o futuro. Nesse sentido, muitas das ansiedades e questões que vivenciamos no cotidiano podem ser originadas dessa nova percepção temporal.

Talvez seja melhor reformular nossa afirmativa anterior: não é a força magnética do cotidiano que nos oblitera para outras temporalidades, mas a forma como determinada estrutura social satura esse cotidiano.

O que a História pode fazer nesse contexto? O que sempre foi sua maior prerrogativa, de acordo com Jörn Rüsen: orientar-nos na formação de nossa identidade e em nosso processo de decisão.

Conscientes de nossas origens e de nosso repertório cultural podemos navegar mais seguro pelo conturbado mar do presente. Familiarizados com o fundo social das narrativas histórias ficamos mais atentos ao subtexto das mensagens que chegam até nós. Em suma, a História nos prepara para um mundo mais complexo do que aparenta.

Claro que a consciência histórica não nos ajuda apenas a viver no presente. Como esclarece o historiador alemão, o futuro também é contemplado, uma vez que ela atua sobre o “horizonte de experiência de orientação humana” (…) “no qual o passado está presente de diferentes modos, e o horizonte de expectativa, no qual o agir (e o sofrer) se projeta(m) de modo finalista” (RÜSEN, 2014, p. 98).

Mas para que a História contribua a seu modo para minar esse problema é preciso não só que justifique sua legitimidade – o que nós, professores de História da Educação Básica, temos feito com uma frequência cada vez maior no cotidiano escolar nos últimos dez anos – mas também ofereça algum tipo de “sedução” para os corações e mentes do “público”. Nesse sentido, desejo abordar aqui uma experiência com um elemento que ainda possui um inegável apelo: a materialidade.

Entre o cotidiano e a história

Embora na mesma rua se encontrem casarões como o Solar dos Melos, atualmente um dos mais importantes museus e centros culturais de Macaé (RJ), o Colégio Estadual Matias Neto estampa na fachada de seu prédio principal alguns símbolos que destoam com as demais habitações históricas da cidade.

O estilo eclético, por exemplo, contrasta com a própria estrutura interna do colégio: ao lado do prédio principal se localiza um bloco de três andares, conhecido apenas como “anexo”, construído bem depois e que não possui a mesma preocupação estética da primeira edificação.

A escadaria em arco, as janelas com formato losangular em sua parte superior e o brasão do estado do Rio de Janeiro inscrito na fachada indicam que o colégio não é obra recente, tampouco barata. Para os estudantes, assim que ingressam na instituição, tudo isso sugere que ali nem sempre foi um colégio.

Dentro do prédio principal, o estranhamento aumenta: o chão é composto por azulejos xadrez e há um pátio interno, que mais se assemelha a um espaçoso jardim de inverno, rodeado de pequenas salas. Essas características são o suficiente para suscitar muitas teorias entre os discentes: ali teria sido um hospital? Um asilo? Um hospício? Uma loja maçônica?

Podemos dizer que essas suspeitas já fazem parte de uma cultura escolar do Matias Neto, na qual também se incluem diversos relatos de avistamentos de fantasmas, inclusive pelos alunos egressos da instituição que hoje são pais dos alunos ou mesmo professores do colégio.

Ainda assim, é curioso que por mais que a antiguidade do Matias Neto seja um dado reconhecido por todos, poucos sabem algo de sólido sobre a história do colégio. Mesmo funcionários de longa data não são capazes de afirmar muita coisa além do que é de conhecimento geral.

Essa amnésia relativa é especialmente intrigante se levarmos em consideração que as paredes do prédio principal ostentam placas comemorando o cinquentenário do colégio em 1970 e sua inauguração em 14 de novembro de 1920 pelo então presidente do Estado do Rio de Janeiro, Raul Veiga.

Uma placa, com o título de “Histórico do Colégio Matias Neto”, oferece mais detalhes: segundo o texto, ali seria construído um hospital para a Sociedade Beneficente Portuguesa de Macaé em 1871, mas desde que as obras começaram em 1875 encontraram muitos percalços sendo entregues ao estado em 1911 que as concluiu somente em novembro de 1920, agora como instituição escolar.

Ou seja, as lendas sobre a origem hospitalar do colégio possuem algum sentido, muito embora o local nunca tenha funcionado enquanto tal. Quanto ao fato das obras terem se estendido tanto, atravessando do Império à República, parece mais relacionado às crises da economia canavieira, da qual Macaé e Campos dos Goytacazes dependiam, do que propriamente a algum tipo de “maldição”.

Mas voltemos ao “Histórico”. Inicialmente, a instituição chamava-se Grupo Escolar Raul Veiga, homenageando a autoridade que a inaugurou, mas em 1931 foi batizada como G. E. Visconde de Quissamã e, por fim, em 1953 como Colégio Matias Neto em honra a “um dos maiores educadores macaense”.

Logo acima dessa placa está um retrato de um homem negro, calvo e com um vistoso bigode que se supõe ser Matias Neto. Ou melhor, Ignácio Giraldo Mathias Netto, de acordo com a grafia original do nome (FLEURY, 2009). Mas essa informação precisa ser buscada em outras fontes, como o livro de Márcia Mathias Netto Fleury, sua descendente: Ignácio Giraldo Mathias Netto, Uma Trajetória de Sucesso.

Atentar-se a esses e outros tantos elementos que a estrutura material do colégio carrega é o ponto de partida para entender melhor sua história, mas o aprendizado será incompleto se não formos além do que é apresentado.

É interessante saber que o atual patrono do colégio era um professor negro, mas em que contexto ele viveu? Qual sua trajetória até ser reconhecido pelas autoridades locais? Saber da construção do prédio pode ser pertinente, mas e as pessoas? Por que os indivíduos ocupam espaço tão reduzido no “Histórico?

Se o colégio oferece tantos vestígios do seu passado, não se pode contentar apenas com eles. É preciso investigar mais e explorar as contradições e as intencionalidades (explícitas e implícitas) das narrativas que nos chegam. Em outras palavras, é preciso ler o colégio como uma fonte histórica.

Em sala de aula, ensinar e aprender História é sempre mais proveitoso quando temos uma fonte para analisar. A fonte dá a concretude que ao estudante escapa quando se pensa em outros tempos. Analisá-la demonstra a dinâmica do ofício do historiador na prática. Aos poucos fica claro que ser historiador não é “decorar” coisas, que existem métodos e habilidades específicos para esse trabalho.

Mas por mais que fique clara a lógica do saber histórico para os alunos, ainda assim ela parecerá algo compartimentado em um dado espaço ou momento, algo ainda distante do seu dia a dia.

Não há como culpá-los por isso quando nós mesmo reproduzimos o mesmo senso ao distinguir entre “nossa vida” e a “História”, como se fossem esferas cambiáveis apenas em casos excepcionais.

Por isso analisar o colégio como uma fonte histórica guarda o grande mérito de borrar as fronteiras entre o cotidiano e a História, uma vez que a maior parte da vida desses estudantes se passa na escola.

A ressignificação do lugar

Na condição de professor de História do Colégio Matias Neto, venho me empenhando desde 2018 para explorar essa cultura escolar tão rica. No célere calendário escolar, as melhores oportunidades para isso se dão justamente em novembro, quando a instituição comemora seu aniversário e quando se celebra o Dia da Consciência Negra.

A maior dificuldade inicialmente era reunir mais fontes para que os estudantes confrontassem com aquilo que podiam garimpar num simples passeio pelo colégio. Aliás, o passeio, ou o “tour histórico”, se tornou uma tradição, interrompida somente pela pandemia de COVID-19.

Num desses passeios, alguém comentou de forma jocosa que a “lacração” tinha começado em 1953 quando o governo trocou o nome do colégio de um nobre branco para um professor negro. Com base nessa brincadeira focamos mais naquele ano em pesquisar a vida de Mathias Netto.

Nesse ano, uma aluna genuinamente surpresa exclamou: “Nossa, toda essa preocupação com uma escola pública!” Seu pequeno gesto de espanto demonstra como para as atuais gerações o descaso com a escola pública – que sabemos muito bem que é mais um projeto político do que uma contingência – se naturalizou ao ponto de um tempo no qual ela era reconhecida como símbolo de status soe como algo totalmente surreal.

É incrível como poucas pessoas da comunidade escolar se dão conta de quão privilegiado o Colégio Matias Neto é. Não é qualquer instituição da área em Macaé que conta com a mesma história. Mas também espanta como mesmo os funcionários mais antigos desconhecem esse passado, afinal parte dele está literalmente estampado nas paredes. Como não perceber?

A resposta é bem simples: apesar de passar tanto tempo ali, o colégio têm se tornado cada vez mais um lugar de passagem. Não que a perspectiva de três anos de duração do Ensino Médio seja tão duradoura assim, mas laços de sociabilidade e, consequentemente, de pertencimento eram forjados nesse processo.

Para os estudantes o local perde a importância diante de canais de sociabilidade alternativos e mais atraentes, como as redes sociais, e para os profissionais da educação, equilibrando-se entre tarefas e horários em outras escolas, fica difícil dedicar um momento para usufruir do espaço.

A realidade é que o ambiente escolar têm se tornado cada vez menos confortável para ambos os lados, mas em nossa rotina atribulada não ousamos nos questionar o que é possível fazer para mudar isso.

Claro que boa parte dos problemas dependem de outros graus de competência, mas exigir de tais autoridades uma mudança não deveria ser algo lógico? Por que é tão mais comum aceitar a deterioração do espaço e das relações sociais nas escolas?

Como atesta a exclamação de nossa aluna, certa imagem da escola pública associada à ineficiência, violência e decadência já se cristalizou no imaginário atual.

Encarar o colégio como fonte histórica desnaturaliza o cotidiano escolar, mas também implica em ressignificar nossa relação com ele. Não é possível analisar o colégio como fonte sem que nos obriguemos a contemplá-lo com mais calma e interesse.

Uma nova disposição do olhar para a escola não é a solução mágica que tanto esperávamos, mas pode ser um primeiro passo para unir a comunidade escolar. Saber da importância histórica de um local tem pouco desdobramento se não há uma importância afetiva.

Nesse ponto, talvez seja interessante averiguar de que forma outras pessoas que passaram pela instituição têm atribuído significados afetivos a esse lugar. Se o contraste entre elementos oficiais e materiais, como patronos e estruturas arquitetônicas, demonstra descontinuidades e permanências tão inusitadas, o que revelaria essa história sentimental do Colégio Matias Neto? Essa é uma tarefa que fará parte do meu cotidiano nos próximos anos.

 

 

 


REFERÊNCIAS:

FLEURY, Márcia Mathias Netto. Ignácio Giraldo Mathias Netto, uma trajetória de sucesso. Teresópolis: Editora Zem, 2009.

HELLER, Agnes. O cotidiano e a história. Trad. Carlos Nelson Coutinho e Leandro Konder. 4ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992.

RÜSEN, Jörn. Cultura faz sentido: orientações entre o hoje e o amanhã. Trad. Nélio Schneider. Petrópolis: Vozes, 2014.

 

 

 


Créditos na imagem de capa: Saguão do prédio principal do Colégio Matias Neto, 2025. Foto do Autor.

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