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Crônicas, contos e ficções

O Processo

Waltencir subiu preguiçosamente os dois lances de escadas do antigo prédio, pensando que aquele seria mais um dia cheio de muita monotonia no escritório de advocacia Waltencir & Associados, embalada ao som de um ventilador precário que girava pendulando e parecia prestes a despencar do teto empoeirado. Ao enfiar a chave na velha fechadura um “déjà vu” tomou conta dele. Só restara o Waltencir. Os associados já tinham ido há muito tempo, e os dias pareciam se arrastar mais e mais, como se não quisessem que ele se fosse também. Leu a placa na porta pela milionésima vez e, a cada releitura, pensava em mudar o nome do escritório, mas nem para isso havia ânimo.  Cada nova jornada diária se amontoava sobre a anterior e sequer conseguia se recordar do último caso, tanto tempo se passara desde que o cliente cruzara aquela porta descascada pelo uso e pelo tempo.

Entrou e continuava perdido nesses devaneios quando, de súbito, foi trazido de volta à realidade. Batidas na porta, que se entreabriu. Após um lapso de tempo que pareceu uma eternidade, atravessou o vão um homem de quase dois metros. Sólido qual um monolito, terno de corte italiano impecável, adentrou como se flutuasse.

— Pois não, em que posso servi-lo Sr…?

— Lúcifer, seu criado.

Waltencir sentiu um desconforto, aquele não era um nome comum. Além disso, por um momento foi como se o ambiente tivesse sido eclipsado, uma penumbra se instalou. Temeroso de ter-se traído e causado má impressão a um possível cliente, arriscou uma amabilidade forçada:

— Um nome raro!

Uma gargalhada ecoou tão potente que o advogado pôde jurar que as paredes ressoaram. Mais que isso, era como se o ar tivesse adquirido outra densidade. Engoliu em seco e tentou um sorriso que não foi além de uma mímica retorcida. Ofereceu uma cadeira.

— Preciso dos seus serviços.

Não era uma solicitação, as palavras pesavam como uma ordem, ou pior, uma sentença. Fazendo esforço no sentido de aparentar normalidade, Waltencir aquiesceu com a cabeça.

— Pois não Sr. Lúcifer, como posso ajudá-lo?

— Quero mover uma ação, por calúnia e difamação. Acusações sem provas, levianas.

— Claro, claro, isso é muito grave e eu lamento pelo seu infortúnio. Há quanto tempo vem ocorrendo?

— Há uns dois mil anos, pelo menos.

Waltencir sentiu uma leve vertigem, sua mente ficou confusa e num reflexo típico de quem está meio desnorteado, riu. Só podia ser uma brincadeira de alguém, era isso. Uma pegadinha. Mesmo assim, tratou de ser cuidadoso.

— Sr Lúcifer, o senhor quer dizer que tem muito tempo, não é isso? Mas é importante termos uma noção mais exata desse tempo.

— Outra gargalhada, ainda mais potente que a primeira. Um odor acre e intenso tomou conta do ambiente fazendo com que Waltencir não pudesse evitar a tosse, seguida de um certo sufocamento.

O cliente foi ao bebedouro e retornou com um copo d’água. O gesto e a água acalmaram a tosse do advogado, mas a partir desse instante Waltencir não conseguiria mais afastar certos pensamentos. Nunca fora religioso, pelo contrário, considerava-se agnóstico e jamais levara a sério certas possibilidades… até aquele momento. Com alguma dificuldade, falou:

— Sr. Lúcifer, não sei se estou lhe entendendo, se pudesse…

Mas foi interrompido.

— Waltencir, fique tranquilo. Pode me chamar de Lu, tenho vários nomes mesmo. E podemos ser amigos, se você quiser. Não vim lhe propor nenhum trato, não se preocupe. Apenas preciso que me represente em minha causa e vou lhe pagar muito bem.

A essa altura Waltencir suava, a gravata lhe sufocava. Afrouxou o nó e ajeitou-se na cadeira velha, que parecia ranger mais do que o de costume. Tentou recompor-se.

— Mas por que eu? Meu escritório é humilde, há tantos outros grandes e de prestígio na cidade Lu. Você seria muito mais bem representado.

— Não se deprecie homem! Eu sei que você foi o primeiro da sua turma de Direito. Além disso preciso de um advogado decente, honesto. E sei que você é. De mais a mais, você tem penado bastante e merece ser recompensado pelo esforço ao longo da vida. E com essa ação você vai poder comprar um lote no céu… eh eh eh

— Engraçado, eu achava que você fosse malvad…

Novamente Lúcifer o interrompeu:

— Eu sei, eu sei. Você acha que eu sou o Diab… digo, que eu sou um ser feito de pura maldade, não é? Como todos, aliás. Mas é justamente isso o que me traz aqui. Tenho sido vítima de uma campanha maldosa que atravessa séculos. Fake news, sabe como é? Cansei. Quero reabilitar meu nome. Sabia que eu era o anjo predileto dele? Aliás, deixa eu te perguntar uma coisa: alguém já lhe disse quem criou o inferno? Se não, faz uma busca no Google…

Waltencir já tinha ouvido falar de uma história de anjo caído, entre outras coisas, mas nunca buscara saber detalhes. Aquilo eram lendas, afinal… ou não seriam? Agora um pouco mais calmo, questionou:

— Mas Lu, em que se baseiam as suas alegações?

— Provas Waltencir, provas. Estou passando pelo mesmo infer… digo, sofrimento por que passou o Lula. Condenado por indícios. Mas o Lula pelo menos visitou o tal apartamento no Guarujá, frequentava Atibaia. Eu nem sei onde fica Atibaia! Já ouvi inclusive gente dizendo que eu tenho parte com o Moro! Olha a que ponto a minha reputação foi destruída Waltencir! Eu, parceiro do Moro, veja se tem cabimento uma coisa dessas.

Te pergunto: Onde estão as provas dos atos pelos quais sou acusado? Você já teve acesso a alguma prova?

Waltencir vasculhou a mente, em busca de qualquer coisa. Inútil, nunca sequer pensara no assunto. Lúcifer percebeu e arrematou:

— Está vendo, está vendo? Nem você, homem da lei, encontra nada contra mim. E por que me acusam, então? Eu nunca fiz mal a uma mosca. Bom, teve o coitado do Jó, é fato. Mas Raimundo e todo mundo sabe que foi a mando dele, Doutor. Não foi ideia minha! Ele me tentou!

Foi então que Waltencir se recordou da passagem que relata a tentação no deserto. E seus olhos brilharam, quem sabe pudesse dissuadir o cliente e escapar de se tornar advogado do Diabo. Com muito tato, buscando cuidadosamente as palavras, arriscou:

— Lu, mas tem aquela passagem no deserto, no Novo Testamento, lembra?

— Ah Waltencir, você não pode estar falando sério homem de Deus! Aquele “assediozinho” de titica? Estou sendo enxovalhado há dois mil anos por aquilo? Você sabe melhor do que eu que aquilo ali não dá nem pena de serviços comunitários, muito mal um fornecimento de cesta básica!

— Bem, tenho que admitir que você tem razão, não foi tão grave assim, além disso você era réu primário…

— Era não, eu sou!  E, no entanto, olha pra Ele. Há toneladas de provas documentais, tudo registrado naquele livro de capa bonita, com milhares de páginas. Atrocidades inomináveis descritas com minúcias de detalhes, requintes de crueldade, pragas, genocídios de crianças, dilúvios com extinção em massa, cidades carbonizadas, o Diab… digo, maldades a balde! Tudo documentado pelos próprios seguidores dele, ou seja, são réus confessos Doutor! Nem a família Bolsonaro faria tanta cagad… quero dizer, se auto incriminaria dessa maneira. E no final, quem é o malvadão? Eu!

Agora Waltencir estava completamente absorto em seus pensamentos. A argumentação, apesar do insólito da situação, fazia muito sentido. Foi arrebatado pela voz trovejante de Lúcifer:

— Doutor, o senhor sabe que a história é escrita pelos vencedores. Eu sou um perdedor, Waltencir, vítima da narrativa deles. Quero meu direito de participar desse tal giro decolonial da história e contar minha versão.  O senhor já leu sobre isso Doutor, história de baixo pra cima, essas coisas?

E tem mais… além do reparo pelas calúnias e acusações que já citei, quero também receber meus direitos de imagem, tudo retroativo. Andei fazendo umas contas, dois mil anos a juros de mercado, dá pra bater o pib do Tio Sam fácil.

— Não, não li nada sobre esse giro que você falou aí… mas espera um pouco, direitos de imagem? Como assim Lu?

— Claro Doutor! Centenas de milhares de igrejas pelo mundo afora faturam alto há séculos, manchando minha reputação. Pastores, padres e pregadores de toda sorte nos quatro cantos passam mais tempo falando de mim do que dele, usando minha imagem para impor medo e fazer extorsão. Depois de me pintarem de capiroto me usaram até pra sujar a barra do coitado do Exu, que não tem nada que ver com essa história toda. Já falei pra ele: Processa Exu, processa! Mas ele é de paz, prefere deixar pra lá.
Enfim, quero todos os meus direitos. Não é porque sou da velha guarda que caí em domínio público, essa não! Se o Machado de Assis não reclama, problema dele. Eu reclamo!

Waltencir se dividia. A causa parecia boa, mas não estava inteiramente convencido. Foi franco:

— Lu, tenho uma preocupação que preciso compartilhar contigo, já que será meu cliente.

— Diga, pode falar sem rodeios.

— Você conhece o Brasil. Se isso chegar ao Congresso, a bancada evangélica irá criar uma CPI dos Infernos. E nem Ele sabe onde isso vai dar. Você está pronto para enfrentar o que pode vir por aí?

— Waltencir, toca o barco. A gente paga uma moeda ao Caronte e vai em frente. Se eles vierem com um quente, tenho dois fervendo… se é que me entende…

— Por fim Lu, não tenho certeza se temos alegações convincentes para apresentar a Ele.

— Como assim Doutor, Ele é quem irá julgar a causa?

— Ué Lu, quem mais poderia?

— Waltencir, você perdeu o juízo, homem? Se Ele julgar é causa perdida, Ele é parte interessada, tem que ser impugnado. Não pode ser Ele de jeito nenhum, Deus nos liv…, digo, não pode, não pode!

— Mas Lu, se não for Ele, quem seria? Não imagino…

— Bom, eu estava pensando no Alexandre… o que você acha?

— Qual, o Grande da Macedônia?

— Não criatura do céu!!! O de Moraes!

 

 

 


Créditos na imagem de capa: egeo

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