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Poesia

Passar Por Ali

Hoje passei na porta

da casa onde você morava.

 

Eu sempre passava,

fazia de tudo

pra passar por ali.

 

Hoje os pés pesaram.

O coração apertou.

 

Depois de tanto tempo,

consegui ficar ali

com o corpo inteiro.

 

Mas não foi a mesma coisa.

 

A porta não estava aberta

como sempre ficava.

E por não estar,

meu olhar procurou.

 

Não tinha o casal de idosos

com quem eu gostava

de brincar e conversar.

 

No lugar das vozes,

o silêncio encostou em mim.

 

Foi então que vi,

do lado de fora,

a cadeira de balanço

que você tanto esperou

e quase não usou.

 

Ela ainda estava ali,

parada no tempo,

como se soubesse

o peso do seu corpo

e esperasse o seu balanço.

 

Da escada,

quis gritar:

“Bença, vó. Bença, vô…”

 

Quis chamar:

“MariEva, como a senhora tá?”

e ouvir você responder:

“Tô bem, minha fia.

Entra pra tomar um cafezin.”

 

E eu dizer, rindo,

que não tomava café.

 

Mas eu só fiquei ali.

E nada disso aconteceu.

 

Até que o mesmo lugar

me devolveu outra cena:

o seu caixão

descendo aquelas escadas.

 

Não foi a morte.

 

Foi perceber

que eu ainda chamava

e você

já não podia responder.

 

 

 


Créditos na imagem de capa: inteligência artificial

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