Hoje passei na porta
da casa onde você morava.
Eu sempre passava,
fazia de tudo
pra passar por ali.
Hoje os pés pesaram.
O coração apertou.
Depois de tanto tempo,
consegui ficar ali
com o corpo inteiro.
Mas não foi a mesma coisa.
A porta não estava aberta
como sempre ficava.
E por não estar,
meu olhar procurou.
Não tinha o casal de idosos
com quem eu gostava
de brincar e conversar.
No lugar das vozes,
o silêncio encostou em mim.
Foi então que vi,
do lado de fora,
a cadeira de balanço
que você tanto esperou
e quase não usou.
Ela ainda estava ali,
parada no tempo,
como se soubesse
o peso do seu corpo
e esperasse o seu balanço.
Da escada,
quis gritar:
“Bença, vó. Bença, vô…”
Quis chamar:
“MariEva, como a senhora tá?”
e ouvir você responder:
“Tô bem, minha fia.
Entra pra tomar um cafezin.”
E eu dizer, rindo,
que não tomava café.
Mas eu só fiquei ali.
E nada disso aconteceu.
Até que o mesmo lugar
me devolveu outra cena:
o seu caixão
descendo aquelas escadas.
Não foi a morte.
Foi perceber
que eu ainda chamava
e você
já não podia responder.
Créditos na imagem de capa: inteligência artificial
