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Entrevistas e Diálogos contemporâneos

Planet Hemp, Juventudes e o Processo de Redemocratização: Censura e Autoritarismo na Década de 1990

Nesta entrevista, a historiadora Patrícia Marcondes de Barros (profa. do Departamento de História – UEL), pesquisadora dos movimentos contraculturais no Brasil, e o escritor, jornalista, quadrinista e biógrafo Pedro de Luna refletem sobre os desafios da democracia brasileira no período pós-1988, com foco nas juventudes e nas reações institucionais à atuação da banda Planet Hemp. O episódio da prisão de seus integrantes, em 1997, evidencia tensões entre o Estado e a liberdade de expressão artística. Confira a nossa conversa com eles.

 

Entrevistadores – Patrícia, como o contexto social e político do Brasil nos anos 1990 refletiu os limites da transição democrática, especialmente no que diz respeito às garantias de liberdade de expressão artística?

Patrícia – Nos anos 1990, o Brasil ainda estava lidando com as consequências e contradições da redemocratização iniciada no fim dos anos 1980, depois da ditadura civil-militar. A Constituição de 1988 foi um marco, garantindo direitos civis, políticos, sociais e reforçando a liberdade de expressão. Mas, na prática, logo ficou claro que essa transição tinha limites. Muitas estruturas conservadoras no Judiciário, na grande imprensa e entre as elites econômicas continuaram intactas, e isso acabou freando parte das promessas democráticas. O contexto político da década foi marcado pela consolidação do neoliberalismo como política de Estado, especialmente a partir do governo Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), que implementou reformas econômicas voltadas à abertura de mercados, privatizações e contenção de gastos sociais. Esse cenário enfraqueceu a capacidade do Estado de promover direitos sociais e culturais de forma ampla, e produziu tensões entre as garantias constitucionais e as práticas concretas de repressão, censura indireta e criminalização de movimentos sociais e manifestações artísticas.

Ou seja, em termos de liberdade de expressão artística, embora a Constituição de 1988 tenha formalmente garantido esse direito, na prática houve episódios de censura e repressão, sobretudo quando as manifestações culturais questionavam os valores religiosos, políticos e econômicos. A década de 1990 assistiu, por exemplo, à perseguição judicial e à repressão policial a bandas e artistas ligados ao universo do rap, do rock e das culturas periféricas, como o caso emblemático das acusações feitas contra o grupo Planet Hemp, de “apologia as drogas”. Esses episódios revelam como a liberdade de expressão ainda era (e continua sendo) frequentemente mediada por disputas morais, políticas e econômicas.

Portanto, embora o Brasil tenha formalmente superado o regime ditatorial e assegurado direitos fundamentais com a Constituição cidadã, a efetivação plena dessas liberdades, sobretudo no campo artístico e cultural, permaneceu tensionada por resquícios autoritários, pela lógica conservadora das instituições e pelas contradições de uma democracia que avançou mais no plano legal do que nas práticas cotidianas de garantia de direitos.

Entrevistadores – Pedro, dentro desse cenário político e artístico poderia comentar sobre os episódios mais marcantes de censura e repressão enfrentados pelo grupo Planet Hemp nos anos 90, especialmente o caso do show em Brasília que levou à prisão dos integrantes?

Pedro – Desde o início de sua trajetória, o Planet Hemp enfrentou resistências. O primeiro disco, Usuário (1995) demorou a tocar nas rádios, e a banda teve dificuldades para emplacar shows logo de início. À medida que conquistavam público e espaço na mídia, também atraíam a atenção e o incomodo de delegados, promotores, juízes e setores mais moralistas do judiciário e da sociedade. E foi assim que começaram os episódios sistemáticos de censura, repressão e perseguição. Naquela época, a banda estava há cerca de um ano numa rotina intensa, tocando em espaços alternativos e no circuito underground, até começar a chamar a atenção do grande público. Passaram por palcos como o Circo Voador, Fundição Progresso, Aeroanta, Blen Blen e festivais como o Abril Pro Rock (PE), Juntatribo (SP), SuperDemo (RJ) e Humaitá Pra Peixe (RJ).

Em 1995, ainda que majoritariamente ligados ao underground, já circulavam também por eventos maiores. Tocaram duas vezes no Metropolitan, na Barra da Tijuca (RJ): a primeira, em 25 de maio, foi na festa de 18 anos da Rádio Cidade FM, abrindo para Barão Vermelho, Blitz e Biquini Cavadão; a segunda, em 3 de outubro, no especial Som Brasil – Rita Lee da TV Globo.

Foi um crescimento gradual: levou um ano para o disco começar a tocar no rádio e alcançar a marca de 100 mil cópias vendidas, o que rendeu o disco de ouro. Ainda em 1995, o Planet Hemp foi indicado no primeiro MTV VMB e, em outubro, participou da festa de 5 anos da emissora, tocando um medley de “Zerovinteum” e “Rio 40 Graus”. Ou seja, no mesmo ano em que enfrentava censura e repressão, estava também em dois grandes eventos da MTV.

Os shows do Planet Hemp eram frequentemente cancelados de forma deliberada, muitas vezes no próprio dia da apresentação, e de preferência pouco antes do horário marcado. Isso causava prejuízos financeiros consideráveis aos produtores locais, que, após arcar com as perdas, raramente arriscavam trazer a banda novamente. Muitas vezes, sequer conseguiam retomar a produção de outros eventos, tamanha a quebra. E havia também o impacto direto no público: pessoas que compravam ingresso e se viam impedidas de assistir ao show, quando não sofriam abordagens violentas ou mesmo agressões físicas por parte da polícia.

E foram muitos os episódios de repressão. Um dos casos mais marcantes aconteceu em Salvador. Lá, bastava uma pessoa usar uma camiseta do Bob Marley, muitas vezes sem qualquer imagem de folha de maconha ou alusão direta, para ser abordada com violência, agredida ou mesmo presa pela polícia.

A repressão então não se dirigia apenas aos integrantes do Planet Hemp, mas também ao seu público. Frequentadores dos shows, jovens identificados com o visual, a postura e o discurso da banda, tornaram-se alvos constantes de perseguição. Era como se a simples estética ou presença simbólica já representasse uma ameaça à ordem conservadora e justificasse a violência policial.

A banda e sua base sofreram muita repressão e perseguição ao longo dos anos 1990. Um dos episódios mais simbólicos de censura foi o do primeiro videoclipe da música “Legalize Já”. Imagine: o tão sonhado primeiro clipe da banda. A MTV, logo de cara, submeteu o vídeo ao órgão federal responsável pela radiodifusão, e o resultado foi uma censura velada: o clipe só pôde ser exibido após as 23 horas, como se fosse material impróprio. Isso é apenas um exemplo, entre tantos, das estratégias de silenciamento que o grupo enfrentou.

Houve também momentos de pura tensão e vigilância direta. Em Uberlândia, por exemplo, ao chegarem no aeroporto e pegarem as malas, a banda percebeu a presença da polícia do lado de fora. Foi uma corrida até o banheiro para se desfazer de qualquer coisa que pudessem estar carregando, um clima constante de medo.

A prisão mais conhecida foi a de Brasília, mas, na verdade, um dia antes eles já tinham passado por uma experiência parecida em Belo Horizonte. Na capital mineira, os integrantes foram detidos dentro da própria casa de shows onde se apresentaram, levados para a delegacia e trancados numa cela durante toda a madrugada. Ninguém soube na época e de manhã, foram liberados. Só que aquela noite foi pesada: terror psicológico com cães latindo perto da grade, barulho de cassetetes, privação de sono. Já a prisão de Brasília, no dia seguinte, foi bem mais ostensiva e ganhou repercussão nacional. Nessa eles passaram vários dias no xilindró.

Entrevistadores – Pedro, como você avalia a relação entre a perseguição sofrida pelo Planet Hemp nos anos 90 e o contexto social e político da época? De que forma essa repressão impactou a banda e seu discurso?

Pedro – Olha, na minha opinião, perseguir uma banda de rock não tinha nada a ver com combater a apologia às drogas. Até porque eles falavam especificamente da cannabis. Enquanto isso, a população, sobretudo preta e pobre, ou mesmo os usuários em geral, sofria diariamente com violência policial, extorsão, brutalidade. E aí queriam tapar o sol com a peneira, colocando a culpa numa banda de rock? Ainda mais uma banda que, naquele momento, nem tinha alcance massivo, não falava com as grandes massas.

Na prática, aconteceu o contrário: a prisão do Planet Hemp é que colocou a banda no centro das atenções. Foi anunciada em cadeia nacional naquele domingo: “Planet Hemp está preso em Brasília” e, ao longo de toda a semana, estava em todos os noticiários, em todos os grandes jornais. De repente, todo mundo sabia quem era aquela banda chamada Planet Hemp. Ou seja, o tiro saiu pela culatra: a prisão deu visibilidade. Eles venderam muitos discos naquela semana.

Claro que isso não quer dizer que tenha sido fácil. Gerou um transtorno enorme, afinal, ninguém gosta de ser preso. Eu por exemplo, não gostaria de ser preso só para vender mais livros. E tenho certeza de que eles também não gostaram da experiência. Por isso, entendo que aquilo tinha muito mais a ver com um incômodo político e moral diante do discurso contestador da banda.

Tanto que, no segundo disco, Os cães ladram, mas a caravana não pára (1997), lançado justamente no ano da prisão, uma das acusações da promotoria se referia à música “Queimando Tudo”, em que o Marcelo canta: “Eu canto assim porque eu fumo maconha”. Veja bem: ele fala sobre si, não está dizendo “fume maconha”. Talvez no primeiro disco houvesse, sim, um tom mais provocativo, como em “Não Compre, Plante!”, que era uma crítica ao tráfico, ou em “Legalize Já”, que pedia a legalização. Mas isso é liberdade de expressão: se o artista quer cantar pedindo a legalização, ele tem esse direito.

Foi um momento muito delicado, realmente tenso. Mas, no fim das contas, acabou projetando muito a banda. O grande entrave, a meu ver, veio depois, internamente. Alguns integrantes achavam que, após a prisão, o próximo disco deveria ser uma resposta direta à polícia; outros achavam melhor recuar, dar um tempo. Foi aí que o Marcelo D2 saiu em carreira solo. Tudo isso está contado com muitos detalhes nas quase 500 páginas da biografia Planet Hemp: Mantenha o Respeito.

Entrevistadores – Patrícia, o caso do Planet Hemp marcou uma geração inteira nos anos 1990. Na sua opinião, qual o legado histórico e cultural dessa banda para as juventudes brasileiras que viveram sob o impacto do Plano Collor, da violência urbana e da descrença nas instituições?

Patricia – O legado do Planet Hemp é importante pois eles foram uma espécie de catalisadores da insatisfação de parte da juventude que vinha dos anos 1980 cheia de esperança com a redemocratização, mas que nos anos 1990 deu de cara com a realidade: desemprego, confisco de poupança pelo Collor, corrupção, falta de perspectiva. O rock deles, permeados de elementos do rap, do hardcore, com um discurso direto, foi uma forma de protesto. Eles conseguiram dar voz a parte de uma juventude que já não se via representada em lugar nenhum: nem na política, nem na mídia tradicional, nem mesmo em parte do rock mais engajado, que já estava entrando num circuito mais mercadológico. E faziam isso com um som potente, que misturava crítica social e estética urbana. Isso fica como registro histórico, como documento mesmo de época de transição no Brasil, onde a juventude estava órfã de projetos coletivos e encontrou na cultura uma trincheira de resistência.

Então o legado dessa banda foi o de escancarar contradições, questionar estruturas, provocar. E isso, tanto para o campo da História quanto para o rock, é fundamental. Porque nos ajuda a decifrar os afetos, os medos e os desejos de uma geração que, diante do desmonte dos sonhos coletivos, buscava algum sentido no caos. O grito do Planet Hemp e outras bandas de rock dos mais diversos estilos musicais que surgiram neste contexto, traduziram a insubmissão de toda uma juventude que se recusava a ser domesticada.

O livro Planet Hemp: mantenha o respeito, de Pedro de Luna, disponível em e-book (Amazon) e em audiolivro (Storytel), mostra como o rap-rock da banda sintetizou irreverência, contestação e crítica social, enfrentando a censura e refletindo o desencanto de parte da juventude dos anos 1990. Em diálogo com essa abordagem, indico também a dissertação de mestrado de Helena Carvalho Molina (UEL, Ciências Sociais), Democracia, canções e denúncias: análise das narrativas políticas e sociais entre 1994 e 2002 nas bandas Chico Science & Nação Zumbi, O Rappa e Planet Hemp, que revelam como a música articulou discursos de denúncia e resistência no período, fundindo influências locais e globais.

Para compreender as juventudes e suas tendências musicais no Brasil pós-ditadura, indo além do rap, é preciso observar as múltiplas sonoridades e cenas que se entrelaçaram na construção de identidades, resistências e discursos políticos. Nesse sentido, a obra Meninos em Fúria (2016), de Marcelo Rubens Paiva e Clemente Tadeu Nascimento, é referência fundamental: traça um panorama do punk brasileiro, evidenciando como o movimento dialogou com o desencanto político e o inconformismo juvenil, muitas vezes à margem do circuito midiático. As memórias de ambos, situadas na São Paulo dos anos 1980, atravessam todo o livro e revelam mudanças significativas em diferentes esferas sociais e culturais.

Já Magnéticos 90 – A Geração do Rock Brasileiro Lançada em Fita Cassete (2016) de Gabriel Thomaz do Autoramas e Little Quail & The Mad Birds e Rock Baiano (2022), de Ednilson Sacramento, destacam a efervescência das cenas alternativas regionais, mostrando como o rock produzido fora dos grandes centros absorveu e reinterpretou tendências globais, preservando uma estética independente e um forte vínculo com identidades locais.

Ao reunir essas perspectivas, percebe-se que as juventudes do período pós-ditadura se expressaram por meio do rap, do punk, do rock alternativo e de misturas regionais atravessadas pela estética anárquica e pelo espírito do “faça você mesmo”, sempre em busca do novo e do diferente. Mais que estilos musicais, essas manifestações funcionaram como linguagens de resistência e construção cultural, refletindo os dilemas, os sonhos e as contradições de uma geração que cresceu durante a redemocratização, mas que continuava a enfrentar profundas desigualdades e heranças autoritárias. Bandas como o Planet Hemp se tornaram a voz de parte dessa juventude, escancarando tensões sociais e políticas e revelando, de forma contundente, os limites da liberdade de expressão em um país em transição.

Entrevista realizada por Julia Faramilio de Souza e Murilo Albertini de Oliveira – Graduandos do curso de Licenciatura em Ciências Sociais da Universidade Estadual de Londrina (UEL)

 

 

 


Créditos na imagem de capa: Imagens reproduzidas da internet

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