O ano era 2018 ou 2019, não sei ao certo, e eu estava na mais estrangeira das terras que já habitei: o Instituto de Ciências Humanas e Sociais da Universidade Federal de Ouro Preto, ICHS/UFOP, em Mariana (MG). Não me lembro porque cargas d’água surgiu uma conversa fortuita com um colega que lá estava para pôr a cabo o mesmo desafio que eu: escrever uma dissertação para obter o título de Mestre em História. O assunto eu também não me recordo com detalhes, mas tinha a ver com política, e umas poucas notas de vida pessoal. Do que me lembro com vivacidade são duas coisas: o timbre de sua voz e seu sotaque, que eram incrivelmente parecidos com os do meu orientador, figura que me é caríssima, me passando uma extemporânea sensação de familiaridade apesar de todo desconhecimento mútuo e da estranheza ambiental, e a terna presença de algo brilhante em seu olhar, que me parecia, porém, tão estrangeiro quanto eu mesma naquela terra.
Saltamos para 2025, quando recebo, pelo Instagram, conteúdos da divulgação do lançamento do seu primeiro livro, o SEM, objeto desta resenha. Achei incrível, parabenizei o colega autor, desejei (e desejo) que seja o primeiro de muitos. Passado um par de meses, eu já tinha em mãos duas unidades do SEM, um para mim e outro para presentear uma amiga aniversariante do meio do ano. Não faz muito, comecei a leitura. Comecei e terminei. Li em exatos dois dias, processo fluidificado, em alguma medida, pela forma da escrita, uma espécie de coletânea de contos curtos narrados em mineirês, no empenho de linguagem cativante, simples e coloquial – o idioma falado em casa. Algumas histórias têm cheiro de alho frito refogando o feijão, outras de biscoito assando. Algumas têm gosto de bolacha maria, outras de salpicão no almoço de domingo. Todas são paisageadas nas interioranas infância e adolescência de um pobre rapazola, um de quatro irmãos, membro de uma sexteta família atravessada – literalmente dizendo, infartada e amputada – pela gramática da violência, pela gra-traumá-tica da agressão. Com a leitura, eu entendi muitas coisas.
“Revela-me, Pai, quem é este Teu filho”, pedi eu à Deus, em oração, pouco antes de comprar o SEM. Me referia a outro rapazola, é claro, e não ao meu colega escritor, do qual passei anos sem notícia. Filha perguntadeira à qual o Pai não deixa sem respostas, logo me chegou o SEM. Falando de maneira geral, o SEM é um livro sobre a construção social das masculinidades sob algumas condições, como, no ponto de partida, a pobreza financeira e, juntamente, a comunidade, isto é, o viver dentro do que é ordinariamente comum (para apenas um rapaz latinoamericano). Constroem este “comum” os fatos de se passar em uma cidade a 110 km da capital Belo Horizonte, Minas Gerais, de ser aquela família uma pequena parte de seus quase 232 mil habitantes, e do protagonista fazer parte de um grupo que faz do pai e da mãe não dele, unicamente, mas “nosso”, e nem dele especificamente, mas “O” pai, “A” mãe, quase como entidades corpóreas destas universais instituições. Esta comunidade, entretanto, vai cada vez mais ficando na origem, enquanto a chegada, por trabalho, por destino, por propósito, vai cada vez mais se revelando em processos de diferenciação e individuação, onde, também, vai se revelando a feição do extra-ordinário.
”Estou aqui porque quero ser pai, um bom pai”, contou meu colega divulgador em um post próprio relacionado ao livro, no último 4 de julho, sobre o seu primeiro dia de terapia. Em termos de cronologia, a história do livro para mais ou menos nos 17 anos do rapazola, meia década depois da virada para o segundo milênio, cerca de 20 anos atrás. Neste mesmo sentido, a história do livro para, também, nos 46 anos de seu pai, SoVando, quando sua vida também parou. Mas, me parece, foi justamente aí que a verdadeira história do livro começou: aquela que se passou no interior do autor, marcada por emoções e afetos, silêncios e palavras, cotidiano e excepcionalidade, peças que estarão para sempre perdidas e outras que serão não somente encontradas como produzidas. Descobri que meu caro colega também passou a ser Mestre em História em 2019, há alguns anos, e que vem trabalhando na área da publicidade, com redação, há cinco. Em seu Instagram, li que, neste período, realizou sonhos: fez sua escrita acontecer, tornar-se objeto e resultado de seu próprio trabalho. Lançou seu livro autoral na Boutique do Livro, onde, aos 14 anos, comprou os dois primeiros volumes de Harry Potter, com o dinheiro do seu primeiro emprego (com o dinheiro de muita humilhação). E formou sua própria família, tornando-se pai de uma linda garotinha, cujo nome remete à “benção” e à “felicidade”.
Não me atreverei a falar do seu pai, Sr. Wander, jamais poderia, este personagem que todos nós, leitores, encontramos morto após arrombarmos uma certa porta e iniciarmos a leitura de SEM, mas, com a sua licença, posso falar da mancha roxa que ficou sobre o meu coração na construção íntima da minha meninidade, da minha mulheridade. Cresci em uma pequena zona dentro de um campo minado. Em razão de estar no meio de uma rede de intrigas, em que uma agressão àquela menina seria usada como arma uns contra os outros, escapei de uma iminente violência física, embora tenha vivido sob a ameaça dela. Ouvia o tempo todo, em tom de alerta, que ele era “uma panela de pressão que poderia explodir a qualquer momento”, e, por isso, virou meu o dever do resguardo, o dever da cautela, o dever de evitar que ele chegasse a tal temperatura. Um era o medo da dor que eu viria a sentir… Falo de um homem com mais de 120kg, e eu não tenho mais que 1.55m. Outro era o medo de ter que denunciá-lo à polícia, de tudo o que viria depois, caso ele chegasse a me desferir seus golpes. Por muito tempo, o tive no lugar de pai, e imaginá-lo deixando nossa casa algemado era o oposto do que meu coração desejava. Tive medo de estar no lugar de assumir esta posição, de que a vida nos conduzisse para este desfecho.
Escapei dessa violência física, também, porque era igualmente uma ameaça – no caso, para ele – a certeza de que haveria consequências caso ele o fizesse. O clima constante era o do limiar de uma pancadaria, o que não evitava que essa energia destrutiva fosse, de alguma forma, consumada. Ela era, em outros lugares, sempre necessariamente ao alcance dos meus olhos. Como toda criança, eu tinha uma roupa preferida, aquela que, para onde quer que eu fosse, chovesse chuva ou chovesse sol, eu queria estar vestida dela. Era um conjunto do Piu-Piu. Uma calça legging rosa pink cheia de pequenos Piu-Piuzinhos, com um moletom bem grandão rosa pink com um grande Piu-Piuzão na frente. Usei até rasgar e, por mim, continuaria usando rasgada. Era dia de folga deles, íamos almoçar fora, em um restaurante. Eu estava contente, me arrumei toda – sempre sozinha -, e cheguei na sala com o meu adorado conjunto do Piu-Piu, pronta para passearmos. Não me lembro de detalhes de como uma cena passou-se à outra, mas no corte seguinte estou com roupa de ficar em casa, chorando de soluçar, enquanto ele despedaça, estraçalha a minha roupa com as mãos (e com a raiva). Ele colocou o dedo em um daqueles rasgos e foi fazendo da peça pequeninos retalhos, em uma espécie de performance explosiva e cruel que necessitava do meu olhar para estar completa. Eu entendi perfeitamente que ele rasgava, retalhava aquele tecido como quem quisesse rasgar e retalhar a mim mesma. “Agora você não usa mais essa roupa”, finalizou, antes de jogar-se no sofá extasiado e seguir o dia, viver os anos, suportar a sua própria existência.
Meu irmão não escapou. Eu tinha 11 anos quando uma ligação de telefone anunciou que um bebê “mestiço” aguardava em um abrigo seus pais (?) adotivos (“Meu filho” soa incompatível com a violência – GONTIJO, 2025, p. 80). Tinha os mesmos 11 anos quando fomos visitá-lo, quando o vi em um berço com mais dois nenéns. Ele tinha 5 meses de idade, e em poucas semanas já estava em casa. Pouco se sabia sobre aquele bebê, exceto que ele tinha um nome, e que havia sido espancado. Cuidei dele. Como típico no processo de construção da feminilidade, a limpeza da casa, a alimentação dos adultos e a criação do bebê foram deixadas para a primogênita. A mulher da casa arrotava o quanto era moderna e independente, só que a fantasia de liberdade, sexo, drogas e rock’n roll se sustentava sobre um bem arcaico pilar: a exploração da menina. Com o passar dos anos, adquiriu um mórbido gosto em dizer que seus filhos estavam mortos – isso os que sobreviveram! Tal qual a hamster, os teria comido. Cuidei do meu irmão de verdade, assumi suas tarefas sozinha e, sozinha, a maior de todas: amá-lo. Meu pequeno foi feito bode expiatório, e depositário da ira. Ele apanhava na rua, quando não tinha ninguém em casa, quando a plateia estava de costas. Aos poucos e às surras. Com tapas e com palavras humilhantes e vexatórias. Sob a ameaça de ser devolvido. Apanhava baixinho e à portas fechadas. Com ele, eu já não poderia ver. O show precisava acontecer longe dos meus olhos. Mas, uma vez, eu estava lá. Não diante da plena execução do horror, pois Deus sabe que eu não aguentaria. Mas eu estava em casa. Minha criança foi arrastada para um cômodo vazio, e eu não posso detalhar o ocorrido. Mas, após finalizar, todo suado, seu pai encostou o nariz no meu e, cuspindo minha face adentro, confessou: “Eu bati nele porque não posso bater em você”.
Ele deixou o apartamento sabe Deus em direção a qual inferno, e eu corri para acudir meu irmão. O encontrei tal qual o avistamento de um anjo barroco de Aleijadinho, com o rosto paralisado, o semblante como de quem chora ao olhar para as trevas, mas sem fôlego algum para isso. Não sei como sobrevivemos às horas posteriores, não lembro o que aconteceu na sequência, como continuamos morando naquele lugar, em que momento tudo se “normalizou”, que milagre nos fez chegar até aqui. Sei que do inferno que ele foi, ele voltou. Houve outras vezes em que ao meu irmão foi feito o mal com o intuito de machucar, também, a mim. Gostaria de registrar, porém, que nas minhas lembranças o meu irmão está pulando, dançando, agitando os bracinhos, alegre, carinhoso (um grude, para ser mais precisa <3), ingênuo, artista, estiloso, perguntador, bom de cozinha e de natureza protetora, sem que ninguém o tenha ensinado a sê-lo. Minha alma caminha com a dele nessa jornada na Terra, ambos de mãos dadas à Jesus Cristo. Seu espírito é generoso, caridoso e perdoador. E seus olhos também guardam aquela ternura estranha, estrangeira para quem sofreu tantos ataques de embrutecimento.
A violência que se externaliza dorme no mesmo quarto que as crianças, reside nas agressões verbais, nos tapas desmoralizantes, nas surras que deixam cicatrizes, no abuso sexual, no estupro “corretivo”. O Brasil é um país violento não só pelo que está fora do privado, na impessoalidade das inseguranças públicas, mas principalmente pelo que nos é íntimo. Temos intimidade com a violência muito em razão dela nos ser imposta nos primeiros e primordiais momentos da nossa existência. A socialização masculina, em particular, os rituais de ingresso da criança no mundo do menino e a passagem para a fase adulta como homem, são marcadas pela violência, uma violência absurda. Um processo de brutalização é colocado em curso cujos inícios e fins são nefastos. É uma covarde máquina de produzir covardes. E o covarde não é mais que um homúnculo autômato internamente controlado por um caralhinho de um demônio infantilóide, atrofiado, esgotício, mefítico, putrefato e necrosado. Um caralhinho de um demônio que, por sua perversidade, come o que caga, e não o contrário.
Demônios crescem nos quadriláteros sombrios da nossa alma, em áreas não tocadas, nas quinas mofadas de nossa existência que evitamos muitas vezes por medo, muitas vezes por orgulho, muitas vezes pela arrogância incapacitante do “sou normal” (e o SEM é um livro que também traz com sensibilidade o problema do estigma da loucura, presença marcante nas Minas Gerais por ser o estado em que se localizava o Hospital Colônia de Barbacena, mas igualmente uma marca da nossa cultura, leniente frente a essa Auschwitz brasileira onde foram internadas mais de 60 mil pessoas). E eles realmente crescem. Crescem escondidos, mas ficam na espreita, esperando o tempo oportuno para se manifestarem e avançarem sobre os outros, sobre a nossa descendência. Se a mim, naquele campo minado, fui introduzida às explorações do mundo feminino, meu irmão ali conheceu aquelas masculinidades cruéis (para não abordar, ainda, as mazelas raciais e relacionadas ao sofrimento mental…). Fato é que o pelourinho nunca foi desmontado. Ele está instalado no coração da parentada, na sala de estar de muitas casas, e pode se atualizar no território dos filhos, se estes não assumem uma tarefa real de derrubada. Uma das mais malignas ações que se pode empreender é roubar das crianças a sua infância – e basta olhar para a nossa sociedade para comprovar isso.
O SEM vem de um incômodo, e vem para incomodar, como o próprio autor disse. E incomoda, mesmo. Incomoda não só quando fala do pai, mas também quando fala do ambiente da rua, do jovial trabalho, porque nos faz enxergar como muitos homúnculos nunca os deixaram, e seguem encarnando os mesmos brutais personagens: o que coloca medo nos outros, o maior e mais forte que vale-se do seu tamanho e força física contra os menores, o espertão que atrai o ingênuo para dar-lhe um cuecão, o patrão que humilha e rouba-lhe o salário, o que zomba de nossas vulnerabilidades até aquelas relacionadas à saúde, o que invade o espaço alheio para vilipendiar-lhe as partes íntimas – e, por partes íntimas, entenda-se não somente nossa genitália, bundas e seios, mas também são nossas partes íntimas aquele lugar que confiamos ao outro quando compartilhamos a dor que sentimos pelo adoecimento de um irmão, a preocupação com a saúde e o medo da perda da nossa pet companheira, a felicidade em sobreviver e realizar sonhos apesar de tantas coisas que ficamos sem, a vontade de alcançar aquilo que está no futuro e que, dia-a-dia, lutamos para encontrar saudáveis… Nos faz enxergar os muitos que estão na alcova da covardia, despejando suposta vingança em animais, em mulheres, em seus filhos e filhas, em quem lhes estende a mão e dirige perdoadoramente aquela alienígena ternura do olhar da qual tenho falado… Mas o livro não é só isso. Também tem a beleza do amor de uma mãe que corre atrás de um tratamento para coluna do filho, que faz faculdade, que sobe com o menino a rampa de uma biblioteca pela primeira vez.
“A verdade prova que o tempo é o senhor / Dos dois destinos, dos dois destinos / Já que pra ser homem tem que ter / A grandeza de um menino, de um menino”, diz a poesia Girassol, de Toni Garrido. Na orelha, Vinícius Gontijo menciona que, apesar de serem a criança e o pai marcados pelo mesmo trauma, cada um encontrou uma saída diferente. Na contracapa, fala do livro como um convite a quebrarmos ciclos de violência diante da sensibilidade dos filhos. É aí que tudo se torna verdadeiramente extraordinário: quando paramos de sustentar a pedra de Sísifo e, mesmo que seja com uma ferramenta mínima, a que for possível, a que estiver ao alcance de nossas mãos, nos colocamos a talhá-la. O autor conta que a leitura foi, muitas vezes, o lugar de uma fuga. Uma fuga imaginativa, o escapar para onde todas as crianças são reis e rainhas. Em outro momento, fala que, mesmo crescido, guardou em si o seu adolescente. Também conta que não apanhou antes dos dois anos de idade. Talvez tenham sido estes os estrangeiros que reconheci no olhar do meu velho colega. Quando nascemos, temos a vida toda pela frente, tudo é novo. Crianças, brincamos e, na brincadeira, criamos a nossa realidade. Na adolescência, a rebeldia intrínseca vem do desejo de subverter e modificar toda a podridão. Na velhice, muitos renascem, recomeçam a vida, se regozijam do tempo disponível, devoram o viver sabendo que está acabando, e mesmo aqueles que adquirem uma doença degenerativa tal qual o Alzheimer, de uma forma extremamente difícil, acabam “retornando”… É na fase adulta que morremos. É adulto que matamos o encantamento com a novidade, matamos o prazer da imaginação, matamos o potencial de nos modificar diante da realidade em que existimos, nos sentimos fartos do que foi e matamos o apetite para o que virá, matamos os recomeços, e, assim, por pura inércia, nos entregamos à morte.
É isso o SEM, em síntese, na minha leitura: um livro de contos com o som do sotaque mineiro, um voltar ao passado a partir de um presente modificado, e um futuro brilhando como próprio aos olhos de uma criança, de uma filha, que convoca a ser construído, vivido e conhecida. É um beirar a loucura, mas embarcar em um trem de doido, tão maluco quanto um adulto burro velho que, em um salto de fé, crê que dá para fazer algo novo, diferente e melhor. É um livro cujo sentido é a violência infantil, mas que, na viagem, como acontece na complexidade vivida por uma criança, por um adolescente acocorado fazendo beatbox, também sente-se o cheiro de panqueca ficando pronta e gosto de pastel com Coca-Cola. Por sinal, é um livro que se pode comer rápido, mas a digestão é lenta. E é um livro de quando pode-se e deve-se se nutrir de manteiga com pão. O amor aparece quase como aquele estrangeiro que senta-se ao nosso lado no vagão e que, fatalmente, fala uma outra língua, mas, no final das contas, dá para entendê-lo. Ou, usando outra imagem, como um feixe de luz que adentra uma estranha obra barroca rasgando-lhe a escuridão, como a deformada e exagerada beleza quebrada da rudez pelo artista aleijado em obras que estão, barrocamente, escondidas e expostas nos altos e baixos das ladeiras de Ouro Preto (onde fui bem menos alienígena que em Mariana). É um livro sobre alteridades.
Todo perdão é difícil uma vez que perdoar é, (in)justamente, doar+além/no limite da implosão/no talo das condições de possibilidade. Doar, neste caso, refere-se a quem concede o perdão, e o além, por outro lado, refere-se à quem é perdoado. Além do que? Além do merecimento, se fosse usada uma métrica padrão – e não é, não teria como ser. Por isso todo perdão é doloroso e, também, necessariamente nascido da fartura. Está além de tudo o que ficou SEM. Às vezes o perdão é nobre, às vezes condição de sobrevivência, impossível de ser concedido em nome de outrem, mas sempre filho da generosidade. O SEM, como quebra de tanta brutalidade, é perdão, e sendo perdão, nos lembra que tocar as almas exige toda a delicadeza do mundo. Tudo fica muito grave quando nos damos conta de que, ao esbarrarmos com alguém na vida, trocarmos meia dúzia de palavras, não temos nenhum conhecimento de sua história, de seu passado, de seu futuro, do que ela carrega, do que resta no fundo de si que se reflete na retina. E não temos noção do quanto de experiências de dor podemos estar partilhando no campo do sensível invisível, apesar de tantas diferenças, que fundamentam uma cumplicidade mesmo que distante e etérea. O coração das pessoas é terra que não se pisa. É terra SEM que se celebra quando chega a chuva.
Avante, companheiro!
REFERÊNCIAS
Livro
GONTIJO, Vinícius. Sem. Cotia: Editora Urutau, 2025, p. 124.
Música
GARRIDO, Toni. Girassol. 2002.
Créditos na imagem de capa: Capa do livro Sem, de Vinícius Gontijo (2025), no site da editora. Ver: https://editoraurutau.com/titulo/sem.
