Ele sabia outra história. Começou outra quando levantou a mão, porque sabia o começo da história. O pretexto, a pré-estreia, a pré-história. Sabia a formação, sua formatação. Levantou a mão, porque sabia outra. Só não sabia aonde perderia a cabeça.

Valdevino estava contentinho, como só no diminutivo do adjetivo poderia estar. Mas antes que findasse, que não pensasse, acabou por contar e começar outra história:

– Mal fiquei nesse conto e, já nem te conto, estou enjoado. Balanço no balanço das ondas em encontro, onda de conto em conto. Tenho mesmo? Já que sei, não sei, conto.

Quem conta mesmo este conto é o Ó da coisa. É o Ó do conto: enjoou de neném. De rebento que arrebenta e conta outra história:

– Comecei outro, quando tiver pronto te conto.

Foi quando sua mãe lhe disse que ficasse quieto. E o diminutivo diminuísse – diminuto, diminuído – em Alice que à garganta desce. Foi como se desse para depois de para lá de contente e decidido a contar, depois do que à garganta desce, o menino sem cabeça obedecesse a mãe. Na voz da mãe, o comando, a diligência:

– Não fale. Faça como Tatiana. Como Luciana. Faça como Maria e durma. Vire Mariazinha e empurre com o dedo sua fala pra dentro da vagem. Faça como Tatiana e não enxergue, ascenda.  Faça como Luciana e nane, narre sem nome, sem sobrenome. Navegue. Mas faça como Luciana: entre para o conto, de novo, ao entrar em casa e ir para a cama. Não fale, não conte nada: vista o pijama.

Ele – Valdevino, vagabundo, vadio e menino, no quintal da preguiça – a princípio não entendeu. Perdeu a cabeça.

E por desobediência, sem saber nem soubesse, desobedeceu por desobedecer. Desobedeceu como sempre desobedecia: sem saber que se soubesse que desobedecer desobedeceria, sem saber que seria uma desobediência conscientemente desobedecida. Desobediência narrativa. Narrativa já obtida, insistente, sem que a mãe soubesse. Não sabida soubesse. Fosse obedecida. Levantou a mão e falou. Outra das suas fez e começou.

Outra história durante horas de castigo e de silêncio, com seus amigos lá em baixo, no pátio ou à margem dos parágrafos. Ciente de uma delas esquecida, lambida, lambidela, coitada dela: lambeu a pedra dura e lascada da subida e contou. Dessa vez sem janelas, nem cardápios, nem pedida. Contou sem encomenda, nem festejos. Contou uma história durante anos esquecida. Encontrou sua cabeça perdida em oitivas que lambem o vento.  Recuperou a memória. Recuperou sua capacidade narrativa. Aquela que lambe os feitos. Os ouvidos que lambem os livros lidos. As orelhas dos livros eram lambidas por Valdevino. Ninguém sabia que escrevia, tinha lido, tinha livros.

Esse menino era um desobediente lambedor de livros. Na lentilha, lente, lambia os dedos ao ler romances, ao se servir deles, ao entrar da cavalaria. Lambia os dedos pra trocar as páginas dos livros lidos, lentes, contentes. Seus olhos lambiam os beiços. Seus dedos ficavam impressos, imprimidos. Levantou a mão e apanhou. Não entrou em casa, nem na cama. Depois, apanhou. Vestiu o pijama. Uma história bateu nele. Na porta de sua alma. Ele nunca mais a deixou. Outra o apanhou e o colocou onde contente estivesse. Onde:

– Entre, tranque a porta para abrir e destranque para fechá-la.

Uma chave fechava. Um obcláveo o guardava. Outra continha, o soltava. E por contar, continha. Por conter, contava. Uma delas abria:

– Essa história conheço. Não foi bem assim, mas agora é.

E por entrar na história trancada, fechou a história destrancada e entrou nela após fechá-la. Naquela que pulou a janela e ganhou o pasto. Ganhou um depois me acho e dou competência, engenho e arte:

– Me segue, que te dou uma reta, te dou uma linha. Depois, te acho.

Em toda parte havia outros meninos. Uns escondidos, de butuca, emboscada, no combate. Outros valdevinos … briguentos e encardidos. Rodavam botões-prêmios ao deixar nu dos meninos. Guerra de botões. Guerra de imagens. Rodavam outros contentes onde a mãe nunca batesse. Onde a mãe nunca os proibisse que falassem. A mãe fosse linguagem. Onde ela não queria que eles estivessem. Mais do que alegres. Pra lá de alegrinhos no aumentativo de alegre. Alegria mais do que duradoura. Alegrão. Alegrando e alegrados. Nunca atrás dos alambrados, enjaulados: que se desfizesse o encanto de os ter quietos. Que se desfizesse o encanto: calados. Contam-se desencantados. Não contados.

Valdevino não obedeceu, mesmo porque seu nome não deixava que o fizesse. Desceu o poço da vagem. E com a espada empunhada espetou o coração de dois feijões que se chamavam João e Maria. Ascendeu. Da vagina varginha vargem, saiu a menina:

– Sou Mariazinha.

Das fibras da vagem, da sua viagem, da vassalagem e das cantigas de amor saiu o amigo:

– No mundo non me sei parelha, sou Joãozinho, mentre me for como me vai.

Agora brincam no sabor das cantigas.

E naquele rodar até ficar tonto, onde os dois outros rodavam entre um poço e outro, Valdevino de os salvar do mouro, do muro mudo, do medo do monstro, ia ficar tonto. Moinho-tonto, moído. E de um minuto para o outro um gigante valentiniano, um herege em pele de santo. E naquele rodar até ficar tonto, Valdevino ficava tonto. Torto como Maria. Mentira como queria.

Um contava uma história. O outro ia ficar tonto:

– Você não tem escolha. Entre ou saia agora da história. Não tem mais jeito.

Ora, Valdevino. Ora, valdelivro: vaso onde se plantam fábulas, nós narrativos.

Outrora, era assim: uma mulher chamada Aurora. Na roda, um tonto, outro roda quando a história começava … laudatória, encomiástica, verborrágica e desencolhida. Desimpedida.

Valdevino montava. E pelo pasto ia, varrendo beijos estrada a fora, variando pedaços de mundo.

Ele, quando jovem, não fazia o retrato dele quando jovem. Lia o de Joyce no pasto do retrato de um certo Alexandre. Nada grande. Nada magno. E da biblioteca de Alexandria retirou alexandrefilia. Doze sílabas escandidas no metro. Doze Alexandres. Doze trabalhos de Hércules. Entrou na roda e se reconheceu menino, menin, parte da meninada, meninonada: morfologia da língua e dos contos de fada. Ao beber da fonte La Fontaine que levava pra escola ao sair de casa, ia pela floresta, que era outra, não era esta:

– Quem conta essa?

Dizem as más línguas que em outras vidas foi cinza, apagador. Foi borracha. Foi giz, apontador e lápis. Que aos sábados fazia isso: deixava o hábito. Aquele que lhe deram, quando sua mãe o colocou no seminário para que padre o fizesse. Deixava o hábito e passeava. Porque os dias para Valdevino eram eternos sábados, não domingos.

Ele era mais do que uma pauta e outra. Equilibrava-se entre mais do que duas margens, num parágrafo de três linhas, num dos caminhos da história.

Escolheu o mais torto. O caminho das tortas e o das histórias. Não escolheu o das Índias, embora viesse a gostar de uma índia. O caminho da real encruzilhada. Esse embricamento que conta histórias. Que o coloca na reta. Escolheu a porta aberta. A das retas. Aquela que era esta, não outra.

Aos sábados, o lápis contava para o apagador que, depois de se retirar da caverna, do mito da caverna, daquela que o fizera não entrar em casa na volta da escola, saia escrito em ponta. Terceira terça-feira. Terceira veia da história. Era cinza, mas poderia proporcionar tudo do branco: presença. Tudo do preto: ausência. Teoria das cores: cinema branco e preto. Teoria dos sons: cinema mudo. Era cinza, porque a contingência impingia. Porque não havia acontecido o canto da sereia em sua vida. Porque a razão não tinha uma índia; ainda.

Olhou com o olho que tange, com a antítese do seu nome, com o olho que toca, ao olho do conto, para o restante da lição a ser aprendida: esquecer a lição em dia de aula. Ser encantado por uma fada. Ele fora do uniforme, no ginete, de bainha e espada. Sem mala, pasta, mochila, lancheira. Pediu uma musa que o inspirasse. Uma donzela para defender. Defender-se de Dulcineia. Ainda que não soubesse – se souber soubesse – o que iria acontecer. Ele de folga, faltando em dia de aula, faltando na escola. Não fazendo prova:

– Quem conta essa?

Um par de pernas atesta. Verdade foi na veia da mentira. Chocalhou a lancheira pelas vertentes de uma festa. E de tanto chacoalhar, chocalhava e embalava, embaralhava as letras na lancheira. A garrafa térmica no refresco do recreio alfabetizava a molecada. Todas as histórias que lhe contavam. Todas que contava.

Ele tinha contos pra todos os bolsos, em todos os bolsos, para todas as cangas, cangalhas, em todos os ginetes que montava. Tinha contos para todos os bolsos, para todos os gostos. Todos os bolsos, todos os gastos. Todos os contos que o contavam ele contava. Sabia o começo da história. Sabia como ninguém como fazer para ver e ouvir a chave do tamanho entrar e não ficar apenas olhando o chaveiro, obcláveo, obscuro claviculário:

– Cadê você que não vejo?

– Reconheço com o tato. Recoloco, mas não vejo?

Indagou Tatiana recorrente, reincidente. Sorridente. E disse:

– Também, ele é filho da mãe das narrativas. Nascido do ventre tagarela.

Por isso, Valdevino levantou a mão e perguntou:

– Com quem eu brinco, se raptaram o começo da história e levaram longe daqui? Com quem eu luto, se não o conheço? Começo a história, porque não acho. Honro o sangue dos meus antepassados, honro minha linhagem. Não o conheço. Não me conheço. Mas me acho. Sou macho, sou macho, sou macho. Com quem eu falo, se mergulharam no lago? No riacho?

Valdevino sabia casos, coisas e oitivas de outrora – coisas do tempo de Aurora – mais do que ninguém. Nele, a natureza denunciava. Testemunhas de Valdevino o denunciavam. Testemunhas de seu tempo. Testemunhavam as garças, um menino de outorga, competência e autoridade. Verdade. Autoridade daquelas de outrora, que Aurora agora o outorga, por ora. Um menino homem. Menino nada. Um macho homem: uma machadada na porta da entrada.

Era no tempo em que o tempo não havia ganhado medição. Era na época em que as linhas do tempo não tinham conexão. Mas ele – da linhagem do linho, dos melhores livros, dos melhores vinhos – levantou uma história com uma das mãos e a batizou de cena da história, cena da origem, num gesto, gesta de purificação. Contou com uma das mãos.

E de visita, de passagem na terra – no ritmo dos dedos, no ritual das linhas das mãos, surgido – sugeriu um menino que se parecesse parecido com o destino de um contador de histórias, um engolidor de fogo, um plantador de figos: um contador de histórias na lâmpada do gênio. E numa das suas, daquelas histórias, contou outra:

– Me fiz conforme fecho os olhos e me vejo. Conforme, retiro o hábito, o uniforme de meu nome. E esse vejo-não-vejo é o mesmo do desejo de me aproximar dentro, dos outros tempos, dos outros tentos, contentamentos redondos. Nos outros contos dos outros. Dos olhos alheios.

No verbo era o princípio e a tábua redonda de conjugação. No verso, a tabula rasa da prosa que contava na prosa funda a outra margem do verso que se dilacerava: o inverso do pronome. Do prenome. Um meio de conversa. Uma história que avançava.

Ele não era de milícias. Não era sargento. Não tinha tormento, nem tormenta que o figurasse, nem que o ameaçasse. Até um determinado momento. Configurava-se. Confeccionava-se. Era como sargento. Pança. Era muito mais lento do que a velocidade das velas ao vento. Um almocreve que não perde tempo. Dizia o barro nos seus sapatos ao sabor da cor local, ao sabor do tempo:

– O mundo não para, porque tem burros.

E ele por não ser descobridor, descobriu a menina, a Margarida contida num prato de vagens, de lentilhas da lentidão do tempo. Descobriu a América. Tudo que se contava sobre meninos e meninas. E ficou com vontade de fazer parte. De participar da história. Tudo em seu lugar. Vila, vilarejo. Quitanda. Cantinho. Cantina:

– No mundo non me sei parelha …

Ladeira abaixo, ladeira acima. Ladeando ladeado. Cadeando cadeado: Maria, Mariazinha. Verdade e mentira. Torta e anjo. Muito pelo contrário.

Valdevino era mais extenso do que o papel extenso. Era mais extenso que a Terceira Terça-feira. Não tinha margem. Não tinha fundo. Uma relação de correspondência com o engenho e a arte. Era mais em ordem do que as bibliotecas, do que as bibliografias em ordem alfabética. Era mais do que uma referência: apud Monteiro, apud Lobato. Apud milênios de Orlando. Milênios de gente.

Um dia, na hora do recreio, na hora amarela, macela, amarelinha, engoliu um dicionário e uma enciclopédia. Um dicionarista, outro enciclopedista. Enquanto a digestão dava conta dos verbetes, o menino fazia os estudos primários, secundários, universitários. Enquanto engolia e digeria, formava-se bacharel, mestre, doutor; nunca padre. E passou a não mais assistir às aulas, a ser assistente. Passou a ministrá-las. Regente. Maestro. Ministro. Na regência, passou a ser mais organizado do que os organizadores de textos. Do que os críticos literários. E da mãe não mais precisou. Nem broncas escutou, nem enjaulado ficou. Contente de feliz de alegre de felicidade: órfão de pai e mãe e de maldade. Alegria duradoura. Alegria alegre. Passou a estralar as aulas com sua voz cata-vento. Passou a usar o giz, o apagador e a não mais precisar de lápis. De cinza à Fênix. De aquisição à linguagem. Ao contrário do que se previa, ao contrário do seu nome.

 

 

 


Créditos na imagem de capa: ‘Meninos Soltando Pipas’, de João Cândido Portinari