Saí de casa buscando alegria, nada além de alegria, na metade de um sábado tempestuoso. Os passos eram os mesmos, comportei-me em um par de meias brancas, tênis velho e calça jeans, a blusa preta de sempre. Senti-me despido, sabendo que minhas emoções caminhavam o mundo, dentro de mim, na ponta dos meus dedos, nas batidas ansiosas do meu coração. Encontrei-os. Ouvi-los contar as mesmas histórias, ri de piadas que não eram engraçadas e fui simpático ao ponto de mudar o meu tom de voz, precisar respirar fundo e sentir dor nas bochechas. Somos todos hipócritas. Foi o que percebi ao ser cruzado por uma vontade inquietante de não existir, mas permaneci, mais uma vez, no mesmo lugar. Parcialmente imóvel, murchando a barriga e sentindo falta de ar, fumei um cigarro. Você, de botas de couro, não me entenderia. Nem você, de cadarços coloridos, poderia me entender. Talvez ele, de lápis no olho, talvez ela, com unhas pintadas de verde e amarelo. Hoje tem jogo do Brasil e você não deveria refletir tanto sobre si mesmo, foi o que pensei. Então, pude observar a partida e todas aquelas pernas, a grama sintética e verde, os palavrões e a felicidade exagerada.
Depois de assistir, atenciosamente, à cena de dois lunáticos brigando por divergirem em suas opiniões, tomei outra caipirinha. Eu gosto do suco de limão, da sensação cítrica nos lábios e da cachaça, mas odeio o retrogosto amargo. Eu também não gosto de fígado acebolado, dipirona em gotas, bicicleta elétrica, dias frios ou muito quentes, café com açúcar, desodorante aerossol ou poesias que rimam. E odeio, sobretudo, quando todas as pessoas resolvem falar ao mesmo tempo e, assim, eu preciso falar cada vez mais alto para ser ouvido também. Quis ir embora e dividimos a conta. Dei passos longos na rua de paralelepípedo, saltei um buraco no passeio, havia poças de lama e acúmulo de água da chuva, fumei outro cigarro. Em sete dias, bebi vinho, gin, vodka e aperol, ouvi as mesmas músicas de sempre, brinquei com os cachorros do centro e, caminhando pelos corredores da praça, o vi beijando outro rapaz. Era mais novo e atraente que eu, parecia ser mais engraçado também. Fui carregado por uma nuvem ao fim da rota, uma grande nuvem gorda e cinzenta. Curiosamente, naquele dia não caiu uma única gota de chuva, não do lado de fora.
Aos oito anos de idade, minha tia me deixou provar um gole do seu copo de cerveja. Cuspi no mesmo instante, senti nojo, espanto e desespero. Aos dezesseis, tive o meu primeiro porre e pensei que fosse morrer. Chorei no meio de uma avenida. Os carros passavam, buzinavam, todos pareciam rir da minha respiração espasmódica. Foi assim que percebi a minha primeira fissura e senti-me letal. Nunca aprendi a conter meus sentimentos, eles apenas surgem sem aviso, no meio do nada, no meio de tudo. Assim passaram-se os anos, as percepções e não compreensões hiper-aguçadas, ninguém é perfeito. Desencontrei-me e procurei-me, durante uma vida inteira, nas superfícies planas, mas apenas pude me encontrar nas rachaduras. Nunca saberemos o quanto chorei naquele dia ou em todos os outros, muito menos lembrarei-me de cada motivo, pois eram tantos. As certezas que tenho escondem-se nas entrelinhas e nas verdades mentirosas que conto. Por isso, eu queria ser um peixe e me camuflar entre algas, pedras ou raízes, no fundo de um rio de águas cristalinas. Eu sei que o oceano é mais profundo e é disso que sinto medo.
Quero me enrolar nas cobertas, ouvir Naked no fone de ouvido e dançar de cueca no meu quarto, mas preciso ser adulto. O meu pai não agiu como adulto quando decidiu ir embora e, de qualquer forma, ele ainda era mais novo do que sou hoje. Às vezes, eu só queria ir embora também. Será que a minha mãe também pensou em fugir? Se fôssemos corajosos o suficiente, talvez pudéssemos fugir juntos. O mundo parece tão grande, tão impossível. Eu nunca andei de trem ou pulei de asa-delta, eu não conheço a Amazônia, eu não sei tocar violão. Eu poderia andar de trem com a minha mãe. A minha mãe não teria coragem de pular de asa-delta, mas ficaria feliz em me ver voar. Nós poderíamos conhecer a Amazônia ou, pelo menos, uma parte dela. Aprenderíamos a tocar violão, eu tocaria para que ela pudesse cantar. Me sinto careta agora, mas a minha mãe não me julgaria. Comecei a escrever antes de dormir e acordei com o bloco de notas aberto, senti-me um embrião. Senti-me em um casulo. Uma concha. Senti-me uma palavra perdida dentro de um livro fechado. Um ninho. Uma semente sob a terra. Tenho vontade de partir, ao mesmo tempo em que busco, constantemente, voltar para dentro.
