Na vasta planície do Rio Aracati Mirim, com infinidade de seres da Natureza – habitantes do mangue, do lagamar, Navegante Tremembé retira a matéria-prima, argilo-arenosa, para extrair as tintas de diversas cores. Esse aprendizado se deu com Maria Navegante, outra artista Tremembé que a conduziu no mundo dos murais – das pinturas nas paredes de suas casas e que, até hoje, é lembrada com saudade.

 

É com o texto acima, repleto de memórias ancestrais e afetivas que circundam o fazer artístico, que Maria de Fátima Andrade Sousa, conhecida como Navegante Tremembé, artista 60+ natural da aldeia Varjota, localizada em Itarema (CE), onde vive e trabalha atualmente, é apresentada em um vídeo de registro de seu processo criativo, Tons da terra, e que, não de outra forma, apresenta as noções integrativas entre a experiência humana, a arte e a natureza. A trajetória artística de Navegante Tremembé, com mais de quarenta anos de dedicação, manifesta-se predominantemente através da pintura, empregando o Toá, um pigmento natural extraído do solo do mangue. As tonalidades desse material são intrinsecamente ligadas às formações geológicas da Terra, desenvolvidas ao longo de milhões de anos. A escolha do Toá não é fortuita: representa uma profunda conexão com o território e a memória do povo Tremembé, sendo um conhecimento transmitido pelas gerações mais velhas da comunidade. Inicialmente empregado na pintura de paredes domésticas, o trabalho de Navegante rapidamente ganhou reconhecimento, consolidando-a como artista.

Seu repertório artístico abrange uma diversidade de suportes, desde muralismos até telas e papel. A artista também contribuiu com ilustrações para publicações, como A Tradição Por Trás da Criação: Cartilha do Povo Tremembé (SILVA, 1998) e Os Tremembé no Ceará: Tradição e Resistência (LEITE, 2020). Além de seu papel como representante e guardiã cultural, Navegante Tremembé atua ativamente na transmissão dos saberes de seu povo, lecionando em escolas indígenas da região. As obras de Navegante retratam a biodiversidade local e as vivências Tremembé, exemplificadas por trabalhos como Roçado de milho e feijão (2025), Oca (2025) e a série Arte Tremembé, desenvolvida ao longo de anos e que conta com fotografias e pinturas diversas. Os desafios enfrentados em sua jornada como artista e professora também se convertem em inspiração, como vemos em Passagem entre a vargem e o rio (2025). Embora o registro da história e da cultura Tremembé predomine em sua produção, há também um espaço para o imaginário e a subjetividade, presente em obras como Flor Imaginada (2019), Pé imaginado (2019) e Sonho na rede (2019). A artista enfatiza a importância da coabitação harmoniosa entre as espécies e o respeito ao meio ambiente em sua complexidade. Segundo Navegante, seu principal objetivo é fortalecer a importância de transmitir esses conhecimentos às novas gerações, visando a reafirmação étnica, cultural e social do Povo Tremembé. Ela sustenta que o trabalho com crianças e jovens em escolas indígenas é crucial para a preservação do conhecimento e o fortalecimento da identidade na luta pela demarcação de suas terras.

O vídeo Tons da Terra, resultado de uma pesquisa etnográfica coordenada por Maria Amélia Bernardes Mamede, documenta o processo de extração e preparo do pigmento Toá. Para o presente estudo, destacam-se as dimensões históricas e sociais desse estudo. Os primeiros registros das comunidades Tremembé datam do período colonial, quando ocupavam uma vasta área litorânea nos séculos XVI e XVII. Atualmente, essas comunidades estão localizadas nos municípios de Almofala, Itarema, Acaraú e Itapipoca, no Ceará. Apesar dos impactos coloniais e da supressão oficial de sua existência em 1858, por uma lei provincial, os Tremembé resistiram em Almofala. A dança do Torém (também conhecido como Toré) desempenhou um papel crucial na visibilidade e no reconhecimento de sua identidade étnica, impulsionando a reivindicação oficial de sua identidade a partir da década de 1980, em um contexto de crescente invasão latifundiária. Outro elemento cultural preservado é o mocororó, um suco de caju fermentado. A cultura e a tradição Tremembé têm sido amplamente documentadas em publicações recentes, como as séries Saberes Tremembé do Céu, da Terra e do Mar (2013/2022) e Povo Tremembé de Almofala: cultura e história (2014/2022), organizadas pelo Dr. José Mendes Fonteles Filho, que abordam a cultura, educação, e o conhecimento social, histórico e cultural desse povo.

Na trajetória de Navegante Tremembé, houve também episódios que ainda hoje se fazem frequentes, relacionados ao roubo/plágio da arte indígena. Segundo seu texto de apresentação em seu blog, Arte Tremembé, antes de ser consolidada como artista, ela vivenciou uma situação desagradável e desrespeitosa quando descobriu que um artista vinha se utilizando dos rascunhos originais para produzir a “arte” dele. Navegante, então, se deu conta da dimensão da importância de sua arte, e passou a exercê-la com propriedade, fortalecendo ainda mais o compromisso com sua ancestralidade. A colaboração entre Navegante e Maria Ferreira dos Santos, conhecida como Maria Rosa Tremembé, já falecida, culminou na criação de um painel pictórico exposto no Museu do Ceará, em Fortaleza, integrando o acervo dedicado às culturas indígenas. Maria Rosa Tremembé foi uma figura central na referida produção, foi motivada pela observação das manifestações artísticas ancestrais de seu povo. Essa inspiração a impulsionou a desenvolver uma prática artística que, para além da mera replicação, constituía uma expressão singular de sua identidade cultural. A abordagem artística de Maria Rosa era caracterizada pela integração de elementos da natureza, como flora e fauna, em suas composições. Tal prática configurava uma escritura ritualística, que estabelecia uma conexão intrínseca entre a etnia Tremembé e o domínio do sagrado. Sua simplicidade intrínseca, contudo, não diminuía a profundidade com que transpunha emoções e percepções em suas obras. Da memória de Maria Rosa Tremembé vem a inspiração para a arte e para a luta de Navegante Tremembé pelos direitos de sua comunidade.

Por fim, é perceptível que a produção artística de Navegante Tremembé transcende o domínio estético para se firmar como um vetor crucial na reafirmação da identidade e na luta pelos direitos do povo Tremembé. A utilização do Toá, um pigmento carregado de memória e ancestralidade, aliada à sua atuação pedagógica em escolas indígenas, não apenas contribui para a perpetuação dos saberes tradicionais, mas também inspira as futuras gerações na defesa de sua herança cultural e na promoção de uma coexistência sustentável. Sua obra, nesse sentido, representa um poderoso instrumento de resistência cultural e política, evidenciando a intersecção entre arte, educação e a demarcação territorial como elementos indissociáveis para a continuidade e visibilidade dos povos indígenas.

 

 

 


REFERÊNCIAS

LEITE, Amélia. Os Tremembé no Ceará: Tradição e Resistência. Fortaleza: Secult/CE, 2020.

Prêmio Pipa – Navegante Tremembé. Disponível em: https://www.premiopipa.com/navegante-tremembe/ Acesso em 30 de julho de 2025.

SILVA, Evaldo Mendes da; SOUSA, Ivo; VIRGÍNIA, Karla. A tradição por trás da criação–Cartilha do povo Tremembé. Fortaleza: SEDUC, 1998.

 

 

 


Créditos na imagem de capa: Reprodução. Passagem entre a vargem e o rio, de Navegante Tremembé. Disponível em: https://www.premiopipa.com/navegante-tremembe/ Acesso em 30 de julho de 2025.