Estava eu navegando na internet sem um destino muito claro, apenas concentrado em vídeos aleatórios trazidos por algoritmos distantes, quando, de repente, percebo no canto esquerdo da minha tela algo estranho, um quadrado colorido com o seguinte título: “fulano DESTRÓI ciclano”. Como assim “destrói?”. Curioso, cliquei no vídeo, esperando uma luta corporal, uma troca de tiros ou, no mínimo, uma partida online de Call of Duty. Nada disso… era apenas um simples debate entre pessoas sentadas em cadeiras desconfortáveis, ao redor de uma mesa grande e intimidadora. Segundo um dos comentários do vídeo (sempre a melhor parte do Youtube), fulano massacrou o ciclano com socos argumentativos e voadoras retóricas. O coitado foi ao chão, de joelhos, reduzido a cinzas pela força da racionalidade e dos fatos. Pobre criatura devorada retoricamente por um ser superior, digerida por uma linguagem poderosa. Sem forças, abatido, o adversário pede clemência com seus olhos cheios de lágrimas metafóricas. “Não tenha pena, acabe com ele, Fulano”, grita a plateia eufórica, como se o Youtube fosse alguma espécie de coliseu, mas não aquele com espadas, escudos e leões. A batalha agora é com significantes afiados e mortais.

 

Figura 1

 

 

Figura 2

 

Esse formato de “debate” atravessa os quatro cantos da internet, incluindo aqui todas as idades, cores, gêneros e perfis políticos e ideológicos. Existe algo de sedutor em um mundo assim, um espaço onde a linguagem é um escudo ou uma espada, além de uma constante luta por poder e domínio. Não quero soar habermasiano, de forma nenhuma, mas sinto um cheiro estranho no ar, não concorda? Canais como Jubilee, nos Estados Unidos, ou suas versões abrasileiradas, como Spectrum e Canal Foco, são apenas a cereja de um bolo longo, famoso… e podre. Com uma fachada liberal de defensores do pensamento crítico, espaços neutros de circulação de ideias criativas e diversas, essas plataformas, na verdade, oferecem um tipo meio pervertido de prazer, uma espécie de mais gozar, nas palavras de Žižek. A humilhação do outro é mais do que um simples efeito colateral… é a meta, um fim em si mesmo. Uma alegria estranha toma conta do espectador ingênuo, como uma guerra onde o extermínio do adversário é acompanhado de um tesão triunfal. Como não posso matar alguém fisicamente, nada impede disso acontecer no campo retórico, nas fronteiras confortáveis e seguras da linguagem. Uma morte aqui não é crime… é pensamento crítico!!!!

Além disso, vídeos no Instagram reproduzem algo parecido, com supostos entrevistadores fazendo “perguntas inocentes” aos membros do outro grupo ideológico, o inimigo. O objetivo aqui é provocar, revelando suas contradições, incoerências, falhas, desequilíbrios, como se fosse uma espécie de maiêutica socrática pervertida. Esses “infiltrados” sempre encontram o que buscam, ou seja, indivíduos confusos e sem uma justificativa elaborada sobre suas próprias ações. “Mas no cotidiano somos assim também, todos confusos, vagos e incertos”, diria o fenomenólogo Hubert Dreyfus. Em vez de reconhecer nesse gesto uma tendência comum na prática humana (afinal, as pessoas não têm uma explicação sofisticada ou até coerente sobre o que fazem e os valores em jogo nesse mesmo fazer), os “infiltrados” acreditam revelar em suas perguntas deslizes morais deliciosos, um puro prato de entretenimento com molho de polêmica.

 

Figura 3

 

Figura 4

 

Embora eu seja contra esse modelo de comunicação, centrado em uma certeza imposta a um outro que não sou eu, é possível imaginar essa atitude arrogante nas fronteiras de áreas paradigmáticas como física, química e biologia. Afinal, todas compartilham de um pacto sólido de conhecimento, um espaço óbvio e compartilhável de premissas e conclusões. Mas no campo das humanidades, e sua falta de um paradigma mínimo, uma comunicação agressiva não faz muito sentido, parece um delírio sustentado por mentes criativas demais. A arrogância é um privilégio de ciências mais duras, mais sólidas, ou seja, modelos epistêmicos firmes e previsíveis, o que não se aplica a mim ou a você… lamento. Quer humilhar alguém? Então, saia das ciências humanas…

Sem dúvida, somos cientistas, o que significa um campo metodológico razoavelmente confiável. Nossos artigos e ensaios não são pedaços aleatórios de palavras costuradas, elas carregam o selo de confiabilidade científica, passam por filtros importantes. Apesar de toda essa filtragem, nossos argumentos nas humanidades oferecem, no máximo, formas de persuadir, entreter ou questionar. Nossas condições metodológicas ou epistêmicas não permitem arrogância, muito menos práticas retóricas de humilhação. Um matemático pode ser arrogante, sem dúvida. Se 2+2=4, como dizem, então esse raciocínio dedutivo pode ser esfregado na cara de algum idiota qualquer. Embora não seja uma atitude recomendável, ela é um caminho possível em áreas paradigmáticas. Quando o assunto são as ciências sociais e a filosofia (meus territórios), a situação muda bastante, principalmente quando invadimos terras algorítmicas, ou seja, quando o professor se transforma em um tiktoker. Por razões metodológicas básicas, humilhar alguém é um sonho um pouco estranho, um objetivo difícil de entender nos limites da minha área.

Ainda que fosse possível humilhar alguém no campo das humanas, ainda que essa premissa seja comprada e aceita como possível, a humilhação do outro não prova a veracidade do meu argumento, apenas revela a falha argumentativa daquele meu adversário específico. Isso significa que “destruir” alguém no campo retórico não legitima minhas palavras, apenas as torna mais persuasivas NAQUELE instante, NAQUELE contexto, contra AQUELA pessoa. Em geral, o parâmetro de debates (não acadêmicos e restritos ao jogo dos algoritmos) não é epistêmico (verdadeiro ou falso), como muitos acreditam, e sim estético (convincente ou não). Resumindo… um puro exercício de entretenimento, nada mais, nada menos.

Tudo bem… até agora ficou claro o que não é uma comunicação “saudável”, com vários exemplos e imagens extraídas do meu bolso, mas qual modelo comunicativo merece nosso aplauso? Qual é o parâmetro “saudável”, se é que você me permite o uso desse adjetivo tão “anti-Foucaultiano”. Quem me conhece sabe da minha admiração pela antropologia e sua capacidade de oferecer um ensinamento metodológico importante a qualquer um, do historiador até o cientista político. Quando um antropólogo viaja até um grupo tradicional distante, e percebe ali um costume diferente (exemplo: a dança da chuva), qual é a sua reação? A) classifica o outro como idiota, B) o define como atrasado e ideológico ou C) compreende a estrutura de sentido na fala desse outro, escutando os sons que saem da sua boca. Se você escolheu “C”, então acertou.

Cuidado… Eu não estou dizendo que a comunicação precisa ser amistosa, sem crises, ou condenações… não sou ingênuo, não sou habermasiano. A linguagem é, sim, um campo pantanoso, complexo e tenso, seja em conversas simples com vizinhos, até debates internacionais com especialistas bem vestidos. Apesar de reconhecer o tamanho dessa complexidade, a comunicação não precisa ser desrespeitosa, agressiva, muito menos destrutiva. A escuta é um recurso básico da etnografia, assim como da vida cotidiana, principalmente em um mundo complexo como o nosso. Se você acompanha meus textos sabe que eu não sou fã da chamada esquerda liberal e sua obsessão por linguagem. Tenho grandes suspeitas quando usam o pronome neutro e táticas identitárias específicas, como o “lugar de fala”, ao menos em sua versão deturpada. Mas, como sempre gosto de dizer, não acredito que os esquerdistas liberais são pessoas ruins ou idiotas. Eles vivem em um mundo complexo, fluido, frágil, onde a própria linguagem é objeto de crítica constante, um novo tabuleiro político nunca antes visto. “Por que pensam assim?”, “Quais argumentos mobilizam?”, “por que isso é significativo em suas vidas?”, essas são apenas algumas perguntas que iniciam nossa jornada antropológica diante do OUTRO. O objetivo nos meus textos, até aqueles mais “anti-identitários” (e peguem qualquer um), nunca é DESTRUIR alguém, por mais divertido que isso pareça. Ainda que tente qualquer gesto destrutivo (e, acredite, eu tento!!!), sou lembrado pelas ciências sociais e pela filosofia dos meus pés de barro, modelado por significantes flexíveis.

Aprendo, na base da força, o quanto é necessário exercitar primeiro a escuta, antes de qualquer coisa, antes de qualquer julgamento. A linguagem não é um campo de batalha, com vencedores e perdedores, mas um espaço tenso de negociação constante, ou até mesmo um palco divertido onde performances acontecem. Se você nasceu na terra dos não-paradigmáticos, dos filósofos, sociólogos e outros “-ologos” por aí, então captou minha mensagem… talvez. A humildade não é um mérito de corações acolhedores… nada disso. Muitos acreditam nessa fantasia liberal, na história de indivíduos autônomos com suas mentes abertas e tolerantes. O adjetivo “humilde” nada mais é do que um resultado direto da nossa incapacidade epistêmica, um reflexo imediato do solo não-paradigmático sob nossos pés. Eu defendo uma linguagem mais suave, menos bélica, não porque sou bondoso, ou sábio, não porque sou melhor do que você… nada disso. Eu apenas não tenho escolha, meu leitor, sou condenado a existir em um espaço contingente, na terra pantanosa das humanidades.

 

 

 


REFERÊNCIAS

Movimento Brasil Cortes. Infiltrado no MST. YouTube, 7 julho. 2025. Disponível em: <https://www.youtube.com/shorts/qc0NrY4sW1A. Acesso em 10 de setembro de 2025.

Nacionaliza!. Esquerdista Humilhado em Debate. YouTube, 15 set. 2024. Disponível em: < https://www.youtube.com/shorts/Dx1IqoOPQt8< Acessado em 10 de set. 2025.

TV Esquerda News. Bolsonaro Humilhado e Jornalista da Globonews Leva Lavada Histórica. YouTube, 10 agosto. 2025. Disponível em: <  https://www.youtube.com/watch?v=OjmZ7hksVVo< Acessado em 10 de set. 2025.

Rodo – Nexo Algum. Infiltrado arruma briga em manifestações bolsonaristas. YouTube, 5 março. 2023. Disponível em: < https://www.youtube.com/watch?v=woHSRU6xwU4&t=132s< Acessado em 10 de set. 2025.

 

 

 


Créditos na imagem de capa: Imagem IA