Documentos auto-bio-ficcionais de terror da vida real
Ouvi repetidas vezes, quando criança, este conto. Ele me dizia que tinha deixado a velha cidade e decidido que tudo ficaria para trás. Até o dia que, na nova terra, foi na macumba, onde um preto velho lhe falou: “vassuncê deixou uma semente plantada e vai ter que ir lá buscar a colheita…”.
“Minha filha”, pensou. Chegou dizendo que se eu não existisse, Deus teria que me criar.
A paternidade não foi dele – não a biológica, nem a cartorária. A socioafetiva, por um tempo, foi, mas, após tanto esforço, desfez-se na infertilidade de sua própria terra. [Que grão brotará da infecundidade?]. Ser pai é dádiva e cultivo. Tem que prestar para o trabalho.
A verdade é que nunca foi um semeador. Muito menos um lavrador. Preguiçoso e estéril, dava mais para fruto podre, para joio e nunca trigo. [Jamais forjou/fartou-se do milagre do pão]. Morreu do arrancar, com raiz e tudo, o maior dos sentimentos, quando veio contra mim. “Eu te odeio!”, bradei. Repeti: “Eu te odeio!”, e ali matou-se.
Tropeçou no lamaçal e afogou-se no barro. Caiu no valão e não pôde ser salvo, pois já estava em decomposição, indiferente ao ambiente [já hiperoxigenado]. Comia o que cagava, e não o contrário. [Perverso.]. Quem sabe, na próxima vida, desta matéria-prima, molde-se de um outro pó…
Amor é estrutura [quem terá?]. Na falta, torna-se insuportável. Desmorona. Amor não é somente a cabeça do fósforo que explode por ter pólvora, mas a madeira seca que segue queimando. Amor é a sarça que Moisés viu incendiada no alto do Monte Horebe, se revelando como árvore em chamas em razão da nossa fraqueza humana para enxergar a imensa luz que é o Amor. [É fogo que arde sem se ver.] Se “no Amor não existe medo; antes, o perfeito Amor lança fora o medo” (1 João 4:18), o medo faz anaeróbico o ambiente do Amor.
Cão raivoso, farejou em mim o medo mas não encontrou. O rabo foi parar no meio das pernas. Ele quem seguiu com o medo de quem carrega a mentira. Dizem que o ódio não é o oposto do Amor… Não sei. O oposto do Amor é um demônio de muitas faces. É o medo, a mentira, o ódio, a covardia, o nojo. [Que nojo!] É Satanás em seu lugar por excelência: na queda.
A tal semente germinou. A tal semente era trama, era história. Com início, meio e fim.
E Deus Flor.
(Pode um homem herdar um neto sem nunca ter se brotado pai? Saco vazio: eis sua verdadeira colheita.)
Sementes
De Mia Couto
Olhos,
vale tê-los
se, de quando em quando
somos cegos
e o que vemos
não é o que olhamos
mas o que o olhar semeia no mais denso escuro.
Vida
vale vivê-la
se, de quando em quando,
morremos
e o que vivemos
não é o que a Vida nos dá
nem o que dela colhemos
mas o que semeamos em pleno deserto.
REFERÊNCIAS:
Em Poemas Escolhidos, São Paulo: Companhia das Letras, 2016.
Ana Carolina Monay
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História da Historiografia: International
Journal of Theory and History of Historiography
ISSN: 1983-9928
Qualis Periódiocos:
A1 História / A2 Filosofia
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