?Sim. Ele comprara uma garrafa de Coca-Cola. Contudo, antes de iniciar sua incursão dedicada e destinada ao ócio, ao “ópio”, ligou sua televisão no principal canal de Moscou. Tirou os chinelos e depositou seus pés ásperos em uma confortável poltrona-cama.  Hoje, depois de uma longa e estafante jornada de trabalho, estava disposto a ver o noticiário. A sua Coca estava sobre a mesa da cozinha, esperando ser aberta para vaporizar todos os gases e toda a felicidade que o mundo Ocidental prometia. Passados alguns minutos, levantou-se de sua poltrona, foi até o armário e pegou um copo de cristal, onde podia-se ver seu rosto já exaurido de tanto trabalho e as rugas causadas pela beleza do cotidiano. 

Da cozinha, ele ouvia a repórter do canal dizendo a seguinte frase:

Mikhail Gorbachev, Secretário-Geral do Partido Comunista, renunciou à presidência da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Após tentar uma abertura política com a Glasnost, e uma abertura de mercado por meio da Perestroika, Gorbachev assumiu o risco de democratizar o país. Posteriormente ao seu discurso de renúncia televisionado para toda a nação, soldados retiraram a bandeira vermelha com a foice e o martelo do Kremlin e içaram a bandeira russa- azul, branca e vermelha. A partir deste momento, estava dissolvida a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, e estava criada a Federação Russa, herdeira jurídica e política do espólio soviético. É o fim de uma era que já durava 69 anos. As ex-repúblicas soviéticas terão um longo caminho pela frente para democratizar, estruturar e preparar suas economias para o livre mercado capitalista. Com esse intuito, a Rússia, sob o comando de Boris Yeltsin, implementará a chamada ‘terapia de choque’ no âmbito econômico, por meio de um rígido regime de austeridade fiscal, baseado no corte de subsídios governamentais, arrocho salarial, privatização acelerada de estatais e aumento dos impostos”.

De volta à poltrona, ao abrir o refrigerante, derramou no copo refletivo de cristal o néctar preto e sinestésico do mundo Ocidental. Sentiu e inalou gota por gota, intoxicada por CO2 e açúcar, ser vaporizada no ar. E ao sorver, deliciou-se, pela primeira vez, com as bolhas de CO2 e com o sabor refrescante da noz de cola africana. Deixou o sabor evaporar em suas papilas gustativas, até começar a sentir o gosto da liberdade. E, novamente, bebeu. Estava embriagado com a liberdade e com a aparente felicidade que o xarope americano despertava em si. Terminados o líquido ocidental e o jornal oriental, fora dormir.

Depois dessa experiência seminal e sensorial, ele bebia a liberdade engarrafada sempre. A vida, as horas derramavam-se e quebravam-se em vagas, em ondas cronofágicas; a Coca anestesiava seus dias, suas dores e dissabores. A sociedade já não existia mais para ele. Tampouco possuía compromisso com a verdade e com a mentira. A liberdade tomara conta de seu corpo. Era, enfim, autônomo. Ele era a liberdade; ou ao menos um autômato desta.

E ao provar, pela primeira vez, o Capitalismo, ficara tão eufórico que dizia, todos os dias, para si mesmo no espelho de seu banheiro:

– Hoje, eu sou um homem livre. Livre. Mais livre que a própria liberdade!

O espelho não lhe respondia. Entretanto, ele aceitava o silêncio como a sua resposta. A sua imagem livre e feliz, encarando-o no silente espelho, bastava.

Em um determinado dia, ele repetiu, sistematicamente, o mesmo processo que fazia desde que descobrira a Coca-Cola. A liturgia do capital; a letargia do trivial. No entanto, ao se deitar naquela noite, sentiu uma leve pontada no coração que aumentava, gradativamente, até ele não aguentar mais e gritar por socorro; porém a única coisa que o ouviu foi o silêncio de seu apartamento. Morrera da rotina infartante; mas morrera livre.

 

 

 


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