Rio, [data não legível].
Oi, Milena!
Há quanto tempo, né? (Tanto tempo quanto dura uma vergonha.) Como você está? (Eu vou bem… Do meu jeito de estar bem: esquivo, evitativo.) Te vi esses dias e você estava solar, radiante. (Como sempre… Quase sempre, melhor dizendo. Na penúltima vez que nos vimos, quando me despedi de você, só havia tempestade em seus olhos.) Não tive coragem de me aproximar, mas te vi. (Te vejo sempre, e em tudo.)
Te vejo sempre e em tudo, Milena, mesmo que já tenham se passado 15 anos (e podem se passar 30, 60, milênios, milênios no ar.) É como se você morasse no fundo da minha retina (da minha alma. Eu nunca mais quis ser somente eu. Na verdade, é muito difícil ser somente eu.) A vida pela sua perspectiva tem cores (de Almodóvar, de Frida Kahlo), sons (de pássaros), cheiros (de comida fresca), ritmo (de samba). E não há ausência possível. Minha alma sempre foi sua morada (e, você, o farol da minha alma).
Sinto muito, Milena. (Muita vergonha. Fui covarde.) É duro chegar à beira dos 50, só com metade da cabeça povoada por fios de cabelo, e admitir que, sim, fui um pastel (tive muito medo). Sabe? Medo de tudo se tornar real (e eu sustentaria?). É duro, Milena (e eu não sei se você entende…): paralisar, morrer de medo quando se está diante daquilo que mais se deseja. (E no que o desejo se sustentará depois da sensação de satisfação?)
No fundo (e é duríssimo admitir), só agora que meu pai partiu eu…, eu vou entendendo algumas coisas (e começando a deixar de ser filho). É estranho… Meu pai era o cara! Me aconselhava, sempre tinha – sabe? – a palavra certa na hora certa! Eu queria ser como ele, queria muito, mas olho pra trás e… Quanto mais eu tentava, mais moleque eu ficava (menino, à sua sombra). Mesmo que a minha barba já estivesse grisalha! (Eu pensei em pintar o cabelo, você acredita? Mas fiquei com medo de cair… E eu já vinha perdendo muito cabelo).
Você sabia disso, Milly? (Não sei se ainda posso te chamar assim.) Sabia que meu pai morreu? Pois é… Muitos anos de cigarro, né? (Não lembro se cheguei a te falar disso.) O coração não aguenta. Mas, mesmo assim, a sensação é que foi tão de repente. (Clichê, mas verdade: a vida é um sopro… E eu já beiro os 50… Conta cheia, alma vazia.)
A gente lota a nossa agenda, Milly… Não sei… Movimento, sabe? Vida em movimento. Mas, de noite, olha pra trás, abre a perspectiva (cinema): e o que realmente importa? É muito duro, Milly, mas eu sinto muito. No fundo, eu sei que não foi porque você me amava, mas porque eu te faria sofrer de um jeito específico. Foi por isso tudo, o nosso encontro. (E eu me sinto ainda mais miserável por isso. A culpa corrói tudo por dentro.) Não, não, isso não me isenta dos meus erros, de forma nenhuma. Não leve para esse lado. Sei da minha miséria. (À beira dos 50, calvo e cinza, é mais difícil fugir de nós mesmos.) Sei que seguiu cada vez mais linda, solar, radiante. Que voltou a se sentir feliz. É esquisito, Milly, porque, por mim, você só se sentiria assim: feliz. É a minha lei, sabe? Minha Milly Lilly feliz. Mas, ao mesmo tempo, sei que, quando bati à sua porta, o que eu tinha para te entregar era um tipo específico de sofrimento.
Por isso, te vi mas não tive coragem de me aproximar. Fiquei te olhando de longe. Você nem sabe disso. É duro dizer, mas não sei o que tenho pra ti. Já faz tanto tempo, tanta vida… E você parece bem. Não quis estragar (e mais uma rejeição sua… Eu nem sei! Me despedaçaria!). É estranho, né, Milly? A gente chega em uma certa idade e olha pra trás e parece que a vida é um amontoado de culpa e arrependimento. Não importa o que a gente fez de bom. O sentimento é duro. (Minto: no meu caso, sortudo que sou, consigo ver uma coisa boa ou outra pela sua lente. Mas, até isso me dói. Também quer dizer que você não está aqui. É duro admitir.)
Meu pai, com a minha idade, tinha uma família. Eu mesmo já estava saindo da faculdade, Milly. E eu só tenho algumas coisas. Vou retirar agora os dividendos de um investimento que eu fiz há uns anos… Investimento em que, na verdade? Eu nem sei. É estranho, Milly. Eu queria tanto ser como o meu pai, passei a vida tentando ser igual a ele, e parece que isso só fez com que eu chegasse a esse ponto da vida extremamente diferente. Será que se eu tivesse desagradado ele lá atrás isso teria feito de mim um homem, cheio de moral e decisões? É estranho, Milly. E é muito duro.
Mas é isso, Milly (Lilly, Ninny… Sempre minha Milly, mesmo que você talvez nem me permita mais te chamar assim.) Eu já vou. Vou deitar. Tenho gostado de te escrever. Parece que está mais perto. Espero que um dia você leia (melhor que seja depois que eu morrer). Te vi e você estava linda. Eu queria fazer só isso: ficar te olhando. Por mim, a vida podia ser só isso.
Carta 68/252. Acervo pessoal [fictício].
P.S.: O nome da personagem foi escolhido como homenagem à Milena Carvalho, autora de Quem é essa mulher? (2018), cujo enredo foi construído pela disrupção interna causada pelo recebimento de uma carta de um namorado antigo. Trata-se de referência e inspiração.
Créditos na imagem de capa: Cena de “O Eterno Feminino” (2017), de Natalia Beristáin Egurrola.
Ana Carolina Monay
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História da Historiografia: International
Journal of Theory and History of Historiography
ISSN: 1983-9928
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A1 História / A2 Filosofia
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