Sempre lidei de maneira dúbia com a tecnologia. Ao mesmo tempo que ela me fascina, também me causa estranheza. Fui dos que demoraram a ter celular, depois custaram a ter aplicativos de comunicação. Rede social já foi um desafio maior. Eu tentei, confesso que até me esforcei, mas aquilo não é para mim. De verdade, admiro quem consegue conciliar o mundo das redes com o cultivo do silêncio; a agitação das informações com a calma que se exige para que a existência tenha algum sentido. 

O Facebook foi uma aventura curta. Jogava lá um monte de ideias, textos longos. Até que um dia, após publicar um “textão”, como se dizia, imediatamente uma pessoa amiga curtiu a publicação. Não havia se passado dez segundos. A frustração de qualquer autor não consiste necessariamente em não ser lido, mas em perceber que alguém gostou ou não do seu escrito sem ao menos ler.

Minha última desistência foi o Instagram. Tive, mas não usei, o que era uma contradição. Não faz sentido alguém ter um perfil sem usar. Ser “seguido” e não “seguir” ninguém é esquisito. O meu ficava lá, parado, estático. Então cancelei. Sei que perco muito com isso e fico fora de muita coisa. As agendas culturais basicamente são divulgadas por este meio em nossos tempos. 

Não quero, pois, posar de dono do melhor caminho ou coisa que o valha. De forma alguma! Escolhas são o que são. Neste caso, evitar as redes sociais é apenas a maneira como eu, criado no século passado sob céu de estrelas e sons de sapos, consigo manter alguma sanidade. O desafio maior está na relação com alunos e filhos.

Em casa, adiamos o quanto foi possível o uso do celular pelos pequenos, ao menos até a adolescência. Não tínhamos a noção tão elaborada dos efeitos do uso de dispositivos, a dependência da tela como hoje se define. Mas havia uma desconfiança de que, ao chegar o aparelho, perderíamos algumas coisas. E perdemos.

Recordo ainda a fase em que a grande questão era o “tempo de TV”. Duas horas pela tarde ou então mais duas pela manhã no período de férias; às vezes, alguma coisa a mais no fim de semana. O imaginário das crianças, ainda não sobrecarregado, era povoado de desenhos animados e filmes que não lhes tirava o interesse por outras coisas como brincar e desenhar. Contavam e ouviam histórias. E o mais interessante: elas liam. Personagens habitavam as conversas. Comprar um livro, quando havia condições para isso, era um acontecimento. A chegada pelo correio vinha cercada de expectativa. Abrir o embrulho, descobrir qual livro havíamos encomendado. Exemplares usados, certamente, mas livros, matéria tão rara em nossos tempos. Tudo superado por esse dispositivo mágico que contém universos infinitos. 

Sim, perdemos. Tivesse mais elementos na época, que só depois se mostraram, teria segurado pelo menos até quinze ou dezesseis anos para permitir o celular. Na verdade, dezoito anos seria o sensato. Por vezes, imagino que a legislação, num futuro próximo, venha a regular o uso de dispositivos eletrônicos assim como de cigarro e bebidas alcóolicas. Estranharemos, então, uma criança com um tablet ou celular como estranhamos hoje se a pegamos fumando ou bebendo. Devaneio meu, certamente.

Mas voltando à experiência com filhos. Era inevitável o incômodo quanto a impressão de que eles se sentiam diferentes de colegas que possuíam o aparelho desde cedo, alguns que pareciam tê-lo recebido ainda no berço. Pois é. O velho drama dos pais de quererem poupar suas crias de sofrimento. Hoje penso: muito melhor seriam as eventuais marcas psíquicas vindas da frustração por não ter celular do que o estrago que ele causa. As marcas se reelaboram com a vida; o estrago, dificilmente. Mas é tarde. Já foi. 

O leitor me achará retrógrado. Terá um pouco de razão. Eu estaria, por sinal, refém de uma nostalgia, uma saudade da infância em que tudo era diferente. Aceito isso também. Mas o essencial, e de fato pertinente, é outra coisa: o excesso de luz, informações, imagens e movimento condiciona nossos filhos – e a nós igualmente – a um estado mental no qual não existe espaço vazio. É preciso preenchê-lo o tempo todo. 

Tão logo aparece uma brecha, em qualquer situação, sacamos logo do bolso o aparelho e naufragamos um pouco mais. Consultamos de receita de bolo português a modelos de avião do Japão. Lavamos louça vendo um vídeo; limpamos a casa ouvindo um podcast. Na caminhada, na mesa, na cama e até no banheiro. O celular está lá, grudado em nós como uma prótese. 

O efeito dessa cultura de dependência de dispositivos já é amplamente estudado por especialistas. E deveríamos ouvi-los com seriedade. Sem contar o aspecto político presente. Há de se perguntar, sempre: quem ganha dinheiro com tudo isso? Siga-se o dinheiro e se chegará aos agentes que lucram absurdamente a partir da exploração de trabalho e de recursos naturais nessa imensa engrenagem da indústria digital. E o mais importante: ficará visível a que forças econômicas está ligada.

Da velha trincheira da filosofia, o que consigo ver é algo bem simples: estamos fugindo do silêncio e da calma; só que a calma é irmã do simples, com o diz a canção (Teixeira, 1982). Para usar uma formulação de Walter Benjamin, estamos perdendo a capacidade de nos entediar. Este filósofo pensava, há um século, os efeitos negativos do avanço da técnica e da tecnologia, sobretudo no bombardeio de informações diárias, o que dificulta a assimilação da mensagem por parte do ouvinte. Ele assim discutia a importância do tédio: “Esse processo de assimilação se dá em camadas muito profundas e exige um estado de distensão que se torna cada vez mais raro. Se o sono é o ponto alto da distensão física, o tédio é ponto mais alto da distensão psíquica. O tédio é o pássaro que choca os ovos da experiência” (Benjamin, 1987, p. 204).

Entre outros aspectos, ele estava preocupado com a perda da importância da narração, esse exercício humano tão antigo quanto a linguagem. Narrar exige a concentração de quem fala e a atenção de quem ouve. A incapacidade de conviver com o tédio que a sociedade da técnica nos impõe coloca em risco de extinção a figura do narrador. Desse modo, diz o autor, “desaparece o dom de ouvir”, por um lado, e também, por outro, “desaparece a comunidade dos ouvintes” (Benjamin, 1987, p. 205). Convido o leitor a buscar na memória quando foi a última vez que conseguiu parar, sem consultar o celular, para ouvir histórias de pessoas mais velhas.

O leitor me advertirá de exagero, posto que a tecnologia de hoje – simbolizada no aparelho celular – ao invés de nos limitar, potencializa nossa percepção e amplia nosso conhecimento. Aí é que está: não acho. O que sinto, do modesto lugar de pai, é que os filhos e seus colegas vão ficando menos atentos, menos críticos. Eles são rápidos e muito criativos; têm um arsenal de informações, mas isso não quer dizer conhecimento. Superficialidade e distração, o que exige que se peça a mesma coisa várias vezes até que nos ouçam. Do lugar de professor, sinto a mesma coisa em sala de aula: parece que dou aula para hologramas. Nas palavras de Benjamin, adolescentes e jovens estão empobrecendo sua experiência.

A escola nos salvará! A esta advertência do leitor eu responderia: não, ela já sucumbiu. Esta instituição, há muito tempo ultrapassada na forma e no conteúdo, corre atrás do prejuízo ao tentar, sem sucesso, acompanhar a dinâmica das novas gerações. E, para isto, adapta-se à cultura imperante a fim de parecer arejada. Ela poderia ser o contraponto desta cultura, enfatizando, exatamente, outros aspectos fundamentais da formação humana. Mas não o faz. O único saldo da escola de nossos tempos é, por força da lei e por algumas horas, tirar nossos filhos do celular. Quase nada além disso.

Caminhamos a passos largos para uma sociedade de zumbis. Não suportamos o tédio – nós adultos, tanto quando nossos pequenos. Aquele vazio, aquele enfado, aquele incômodo que possibilita repensar fatos, ter ideias novas, acomodar afetos, ensaiar uma poesia, treinar uma declaração de amor, rever um trauma, rememorar algo importante, tudo isso não temos mais. Continuamos precisando de ideias, de entender afetos, de uma poesia e de uma declaração de amor etc. Porém, quando isso acontece, sacamos logo do dispositivo e consultamos o oráculo de nossos tempos, essa divindade contemporânea da inteligência artificial.

Eu não sei o que será dos meus alunos. Não sei nem mesmo o que será de meus filhos. Temo por eles, temo pelo futuro. Enquanto há uma geração que viveu antes do celular, há um contraponto: temos na memória coletiva a referência de uma existência não dependente de dispositivos. Mas daqui a algumas décadas não mais haverá. Aí, então, quem fará o balanço? Numa sociedade que só tenha passageiros, para onde vai o ônibus sem motorista?

Impotente e derrotado, o que tento fazer é minimizar estragos quando possível. No mais, estar perto, cuidar e torcer para que os filhos cheguem aos cinquenta anos com alguma capacidade cognitiva e afetiva. No mais, seguir a briga dia e noite – sobretudo à noite – com a tecnologia, em especial com o aparelho celular. Tenho a sorte de não depender dele para trabalhar, o que me torna privilegiado. Uso calculadora a pilha; mantenho a agenda escrita à mão; comprei há algum tempo um despertador e, assim que possível, pretendo ter novamente um rádio. Ainda não descartei até mesmo a ideia de restringir a comunicação por mensagem ao e-mail. Aí, sim, devolveria o celular ao lugar do qual nunca deveria ter saído: o de simples aparelho telefônico.

No mais, resta vivenciar a impotência diante das gerações mais novas, da multidão de pescoço curvado sobre o aparelho, dos filhos abduzidos pela tela com sorriso congelado, dos estudantes que me olham dando aula sem me enxergar. Além disso, espalhar pequenos ramos secos e folhas pela casa, pelo trabalho e pelas ruas para ver se o pássaro do tédio constrói algum ninho e ponha ali os seus ovos. 

O leitor tentará um último argumento: tudo bem, tudo bonito, mas o fato é que só consigo ler o que você escreveu por meio de uma tela, portanto, graças ao celular! Concordarei de novo. Longe qualquer hipocrisia ou passadismo sem graça. Você está correto!

Mas não deixarei de lembrá-lo que houve tempos em que ideias, conteúdos, afetos e conhecimento eram compartilhados sem a dependência de aparelhos que nos hipnotizam. É preciso refletir seriamente: como isso era possível? 

Comunicação, partilha, convivência e outras práticas não surgiram agora: elas vieram antes do celular. Tais práticas são de um tempo em que a vida era, por certo, mais entediante. E, por isso mesmo, mais interessante.


REFERÊNCIAS:

BENJAMIN, Walter.  Obras Escolhidas. Vol. I. Magia e técnica, arte e política. Ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Brasiliense, 1987. 

TEIXEIRA, Renato. Irmãos da Lua. In: Um brasileiro errante. São Paulo: RCA Victor, 1982. 1 disco de vinil (4min 22s).


Créditos na imagem de capa: Desenho em Nanquim “Walter Benjamin”. Autor: Jean Selz (1933).