Douglas Souza Angeli

 

            As eleições de 2026 foram marcadas por fatos que evidenciam os impasses da esquerda e os desafios para a sobrevivência da democracia no Brasil. Luiz Inácio Lula da Silva venceu a disputa presidencial pela quarta vez e sua presença é uma marca incontornável na política brasileira há mais de 40 anos. Maior que o seu partido e maior do que a esquerda, Lula representou, na crise do pacto da Nova República – que vivemos desde 2014 – um grande impasse, sendo a maior chance de vitória da esquerda e, ao mesmo tempo, a força que bloqueou a ascensão eleitoral de novos nomes.

Nas eleições de 2026 ficaram evidentes tanto a sua grandeza política e eleitoral quanto o seu desgaste diante de uma sociedade e de um cenário político que em quase nada lembra o da redemocratização. O resultado do primeiro turno foi desalentador para a militância de esquerda: Lula terminou dois pontos percentuais abaixo de Flávio Bolsonaro e o PL, que se consolidou como força de direita / extrema-direita, avançou esmagadoramente no Congresso Nacional, especialmente no Senado. E nas últimas três semanas vivemos uma campanha de segundo turno que ficará marcada na memória de toda uma geração.

De tempos em tempos, as esquerdas e o centro democrático são lembrados de que seus valores, que parecem tão óbvios e universalmente aceitos, precisam ser defendidos com veemência. De uma campanha de primeiro turno morna e burocrática, passou-se a um segundo turno marcado pela mobilização e pela tomada das redes sociais pela esquerda. No clima de vitória contra o golpismo, lanço ao papel estes comentários em pílulas a partir de anotações das últimas três longas semanas.

 

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A eleição para a Câmara dos Deputados consolidou um fenômeno que já estava sendo observado: o encolhimento dos partidos que formavam o eixo da centro-direita dos anos 1990 a 2010. O PSDB elegeu apenas 11 deputados. Não lançou candidato a presidente. De uma candidatura de Aécio Neves a outra, o partido se esfarelou: em 2014, Aécio perdeu, não aceitou o resultado, e fez sua parte para derrubar Dilma Rousseff dois anos depois; não conseguindo vencer o PT eleitoralmente, fomentou a crise; em 2026, esboçou uma candidatura que não empolgou e desistiu, restando a ele um modestíssimo sétimo lugar na disputa pelo Senado em Minas Gerais.

O MDB, que já ostentou as maiores bancadas do Congresso, também segue colhendo os frutos da crise que ajudou a promover: elegeu 36 deputados federais. Mesmo o PSD, que parecia se consolidar no novo centro pragmático, reduziu sua bancada em 2026. Em comum, pode se dizer que todos eles foram engolidos pela força eleitoral do PL, do bolsonarismo e do extremismo que, em alianças conjunturais dos últimos anos, as forças do antigo centro ajudaram a fomentar.

O PL, de Jair Bolsonaro e Valdemar da Costa Neto, elegeu impressionantes 121 deputados federais e 19 senadores – que se somam aos eleitos em 2022 para formar uma bancada de 28 membros (pouco mais de um terço do Senado). Não se vislumbra uma recomposição da centro-direita. As novas direitas, mais pendentes à extrema-direita, são a nova realidade no antagonismo com a centro-esquerda. Não adianta em nada sentir saudades do PSDB: adversário não se escolhe. Ou a centro-esquerda antagoniza com a extrema-direita ou se esvazia.

 

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Muito mais do que uma eleição marcada por celebridades na política, o pleito de 2026 indicou uma tendência: os políticos-influencers. À direita, deputados como Nikolas Ferreira (PL-MG) e Lucas Pavanato (PL-SP) colheram os frutos do trabalho nas redes sociais; à esquerda, Érika Hilton (PSOL-SP) e Jones Manoel (PSOL-PE) figuram como deputados que cresceram com elas. Com 21 anos de idade e mais de 500 mil votos, Ana Elisa (PT-MG) surgiu como surpresa. Suas entrevistas, logo após o primeiro turno, chamaram a atenção ao defender que a esquerda precisa disputar as redes sociais se quiser crescer entre os jovens. E que “as redes têm memória curta”, portanto é possível vencer o debate em pautas que hoje parecem perdidas.

Uma das primeiras ações da campanha de Lula no segundo turno foi um ato político com os deputados eleitos pela esquerda e que fazem uso sistemático das redes sociais. Desde então, vimos o presidente octogenário tentar a difícil tarefa de gravar vídeos com o celular e publicar nas redes. Demonstrou bons resultados de visualização e engajamento digital. Por sua vez, o “Exército de Lula” no Whats App, comandado pelo deputado André Janones (Rede-MG), deu o tom da campanha no segundo turno, com tarefas coletivas que fizeram a militância de esquerda atingir níveis de mobilização digital inéditos: pela primeira vez, vimos a esquerda pautando e dominando o debate digital. Se o adversário hoje é outro, o repertório e a forma da propaganda política não poderiam continuar presos ao passado analógico.

 

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Na mobilização política, forma e conteúdo são importantes. Não basta ter um programa de governo melhor que o adversário, é necessário dar forma à mobilização, criar significantes, imagens e narrativas e fazê-las chegar à diversidade do público. No fim da noite do dia 4 de outubro, primeiro turno das eleições, tudo parecia perdido: o discurso de Lula, em um palco, com pessoas tristonhas ao fundo, repetindo a mensagem que supostamente não havia chegado ao público, era em tudo ultrapassado – na forma e no conteúdo. E contrastava com o pronunciamento mais despojado de seu adversário, que se apresentava como agente da mudança ao eleitorado.

O que vimos, a partir daquele momento, foi a tomada das ruas pelos estudantes. A partir desta iniciativa, o campo das esquerdas esqueceu, momentaneamente, suas diferenças, e se uniu em busca da reversão da abstenção e da virada de votos. As manifestações de rua que se seguiram foram as maiores desde a redemocratização. Mas por si só, não garantiram a virada. A razão do sucesso eleitoral pode ser encontrada na forma como a mobilização foi combinada com a tomada das redes sociais. A militância digital apelou aos perigos aos direitos sociais e à democracia representados pelo bolsonarismo. As pesquisas apontavam, há tempos, a presença de um desejo de mudança entre os eleitores, mas Lula não conseguiu captar suficientemente, no primeiro turno, estas expectativas. No segundo turno, a militância conseguiu demonstrar, por uma comparação aparentemente óbvia, mas cujo convencimento era necessário, que Lula continuava sendo a melhor opção. E, bem sabemos, a única comprometida com a democracia.

Nesse momento, a vitória de Lula impediu o excesso de poder nas mãos dos golpistas. Eleições, na democracia, têm esse encanto: permitem o inesperado. Quando tudo parecia perdido, a esquerda se renovou, tomou fôlego e achou um caminho: a combinação entre mobilização nas ruas e tomada da pauta nas redes sociais. E esse caminho será, certamente, muito importante para enfrentar, nos próximos anos, um Congresso Nacional mais conservador e sedento pela manutenção de privilégios.