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A cura pelo avesso: Radiohead e meu nascimento

In the next World War/ In a jackknifed juggernaut/ I’m born again (…) In an interstellar burst/ I’m back to save the universe (…) In a fast german car/ I’m amazed that I survived/ An airbag saved my life[1].

 

Meu primeiro contato com Radiohead foi durante a minha adolescência, através de seu mais popular single: Creep, presente no álbum de estreia da banda (Pablo Honey, 1993). Eu achava sua sonoridade muito entristecedora e a letra um pouco cringe, como alguém pode considerar a si mesmo um creep, weirdo?  Além dos nomes pejorativos, a letra ultrapassa os limites da autodepreciação. O indivíduo não se reconhece como um sujeito, ele está perdido e não se reconhece em nenhum lugar, além de sofrer por não conseguir aceitar que ele não será aquilo que ele idealiza: I don’t care if it hurts/ I wanna have control/ I want a perfect body/ I want a perfect soul (…) I wish I was special/ But I’m a creep/ I’m a weirdo/ What the hell am I doing here?/ I don’t belong here[2].

Meu corpo não estava preparado para receber e para sentir a música do Radiohead. Eu não dispunha de uma bagagem ou de uma abertura que me faria criar identificação com tal tipo de produção musical. Entretanto, cerca de cinco anos depois, consegui entender parte do que aquela música queria me dizer. Poucos meses antes de receber meu diagnóstico de depressão, fiquei quieta por um momento para apreciar[3], em um novo estado, o álbum OK Computer (1997), da mesma banda. Foi a primeira vez que me identifiquei com o que o Thom Yorke, vocalista do grupo, estava cantando. Foi a primeira vez que aliviei parte do sofrimento que eu estava sentindo, através de uma descarga emocional que apareceu em forma de choro. Aquela música difícil de escutar parecia, agora, tão íntima e tão particular a mim, ao que pessoas como eu enfrentam.

Apesar do álbum ter se transformado em um lugar de conforto, ele também me gerou muitos estímulos afetivos que são considerados negativos. O desejo pelo meu autoextermínio esteve muito latente. Atualmente isto está um pouco inibido graças à ingestão de antipsicóticos e de reguladores de humor, em um tratamento violento e doloroso, mas que preciso me submeter e dependo para sobreviver, pois não lidamos muito bem com a ideia da morte voluntária frente a um estado de extrema angústia e de limite da vida. Qual o limite da vida? Como conviver com a angústia e ansiar por vida?

Minha linguagem ainda não consegue alcançar o que o OK Computer me causou e me causa, mas sinto necessidade de escrever e de expressar isso para fora de mim, ainda que eu encontre dificuldade para fazer isto de forma não redundante. Não acredito que alguém com o cérebro saudável possa entender, integralmente, o que o álbum quer dizer e o que ele transmite. A depressão me trouxe a um limbo, a um casulo escuro e grotesco onde posso experimentar este tipo de música e tentar entender onde estou. Diferente do eu lírico de Creep, eu me sentia deslocada, mas eu queria encontrar o meu lugar. Eu tenho um lugar.

For a minute there/ I lost myself, I lost myself[4], os versos cantados de forma lacrimosa e repetitiva ao final da canção Karma Police parecem me abraçar e me acalentar. Meu corpo adormece. OK Computer é um álbum sobre você reconhecer seu estado degradante, mas, ainda assim, continuar se movimentando, pois a dinâmica da vida não dá espaço para uma pausa antecipada, uma interrupção temporã. É um manifesto sobre a maquinação dos sujeitos, sobre a nossa perda de humanidade e, paradoxalmente, sobre a insistência em querer permanecer humano, I may be paranoid, but not an android[5]. Espero que meu texto fique como um convite para a escuta de um dos melhores álbuns de 1997 e, quiçá, um dos melhores do final do século XX.

 

 


Notas:

[1] Colin Greenwood. Airbag. OK Computer, Parlophone, 1997.

[2] Albert Hammond, Colin Greenwood, Ed O’Brien, Jonny Greenwood, Mike Hazlewood, Thom Yorke. Creep. Pablo Honey, Parlophone, 1993.

[3] GUMBRECHT, Hans Ulrich. Ficar quieto por um momento. In.: Serenidade, presença e poesia. Belo Horizonte: Relicário, 2016, p. 31-36.

[4] Colin Greenwood, Ed O’Brien, Jonny Greenwood, Phil Selway, Thom Yorke. Karma Police. OK Computer, Parlophone, 1997.

[5] Colin Greenwood, Ed O’Brien, Jonny Greenwood, Phil Selway, Thom Yorke. Paranoid Android. OK Computer, Parlophone, 1997.

 

 

 


Créditos na imagem de capa:

Releitura da capa do álbum “OK Computer” (1997), de autoria de Stanley Donwood e Thom Yorke, feita por estudantes da Cheney School para a exposição “This Is What You Get” (2025) do Ashmolean Museum. Reprodução: Instagram (@ashmoleanmuseum).

 

 

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