咸 (Xián) – A Influência (A Consonância)[1]
Sentir em conjunto.
A suspeita inaugural
Algo range sob os arquivos e ressoa na sala de aula. É desses temas que nos assombra, um fantasma que vai e vem. E a cada reaparição o espectro reabre um debate acalorado, porque traz o incômodo de uma pergunta mal resolvida. A História, essa senhora austera — e ultimamente tão difamada —, de tantos nomes e reverências, se diz ciência. Mais que isso — e mais complicado que isso: meio ciência, meio arte. Sendo eu como sou, deveria me sentir muito à vontade por aqui, mas… a cada nova versão em disputa, a cada silêncio revelado, a cada grito que escapa dos silenciamentos mantidos a ferro, a cada recalque emergente do passado, cresce a sensação de que algo não encaixa.
Muitos historiadores (sobretudo no século XX) passaram a usar o termo “ciências humanas” ou “ciências sociais”, reivindicando uma metodologia sistemática, rigor investigativo, uso de fontes, cruzamento de dados etc. Autores como Marc Bloch, Fernand Braudel e a Escola dos Annales defendiam que a História podia sim operar com métodos científicos — só que ajustados à natureza do seu objeto. Nada de previsões tipo física newtoniana, mas sim análises estruturais, probabilísticas e contextualizadas.
Com Foucault, Derrida, Hayden White, a coisa muda de figura. Passa-se a entender que toda História é narrativa construída — e não espelho do real; toda escolha de fontes, de enfoque, de linguagem, é política; e que o historiador não revela fatos: fabrica sentidos.
O que este ensaio propõe não é a negação do valor da História. Muito pelo contrário: é sua redenção poético-filosófica. Para isso, é preciso romper com o mito cientificista que a empareda, que a encaixota. Liberdade para as borboletas.
Entre a História e a Literatura: o problema da narrativa e a crítica ao historicismo hegeliano
Não é de hoje que se reconhece o caráter narrativo da História. Hayden White mostrou com brilho: toda história contada é uma escolha estilística, uma forma literária disfarçada de rigor. O historiador, como o romancista, encadeia fatos, recorta silêncios, escolhe protagonistas. À diferença da ciência, que busca leis gerais e resultados replicáveis, a História conta uma história. Ela organiza os fatos segundo estruturas narrativas — épico, trágico, cômico, satírico. Ou seja: o historiador é um contador de histórias com aparato crítico, mas não um cientista no molde duro. E toda história contada é uma versão. Nesse ponto, ela mais se aproxima do romance que da biologia.
O historicismo é o grande delírio da Razão moderna — é o fantasma do progresso. Ou a falácia fantasmagórica dele. Hegel sonhou com um tempo que avança em direção ao Absoluto, e com ele, toda uma geração passou a ler a História como uma escada da consciência. E mais que isso: em nome dessa ilusão, há quem acredite que o historiador tem poderes mediúnicos, pode prever o futuro, enxergar para além da escada. Mas quem sobe essa escada? Quem fica de fora? Quem a construiu? E por quê? Para quê?
Benjamin reagiu com a força de um anjo empurrado para o futuro pelos destroços do passado. Para ele, a História verdadeira é um estilhaço, um lampejo, uma interrupção. Não um progresso, mas uma fissura.
Memória, voz e sangue: a História oral e a ancestralidade dos vencidos
Talvez o erro — se é que há, não estou afirmando — seja tentar encaixar a História num molde que pertence à física ou à biologia. Talvez a História seja um campo misto, um tipo de saber poético, simbólico, filosófico, narrativo e investigativo ao mesmo tempo. Um lugar onde o passado não é dado, mas convocado — como um espírito ou como xamanismo do tempo, não como estatística.
A História, como disciplina ocidental, exige documentos, arquivos, assinaturas. Mas o mundo está repleto de outros modos de lembrar: cantos, mitos, danças, sonhos, narrativas de fogo e fogueira. Para os povos originários, o tempo não é linear: é espiral, é retorno. A História oral não se prova por data, mas por presença. Quem exige comprovação escrita para validar a memória só faz repetir o gesto colonial. Silenciar o que não se arquiva é apagar modos inteiros de existir.
A História usa ciência, mas não é uma. Assim como o Direito se apoia na lógica, mas é linguagem normativa; ou a Medicina se vale da biologia, mas é prática situada; ou as Engenharias, que utilizam intensivamente a ciência — embora jamais um engenheiro tenha requerido o status de cientista —, a História se utiliza da ciência, mas opera entre disciplinas. Seu gesto central é filosófico, ético, simbólico. Ela pensa o tempo a partir do corpo das ausências. Sua linguagem é encarnada, sensível, situada. Tal como o xamã, o historiador não descobre o passado: ele o invoca.
O historiador como agente político: Benjamin, Fanon, Trouillot
Enquanto a literatura lida abertamente com a ficção, a História muitas vezes mantém a ilusão da objetividade, escondendo sob sua retórica acadêmica uma multiplicidade de escolhas subjetivas e ideológicas. O historiador, assim como o romancista, é um artífice de sentidos. A diferença é que o primeiro frequentemente disfarça seu artifício sob o véu do “fato”, enquanto o segundo assume sua tessitura poética.
A História não é neutra. Nunca foi. Benjamin já dizia que todo documento de civilização é também um documento de barbárie. Fanon mostrou que a história dos colonizados é sistematicamente negada, e que recontá-la é um gesto de cura coletiva. Trouillot foi direto: a História oficial é uma máquina de silenciar, e esse silenciamento ocorre na escolha das fontes, na edição, na escrita. O historiador não observa: ele escolhe. Ele decide. Ele toma partido.
Proposta: fundar uma nova categoria epistemológica
Não estaria na hora de abandonar o simulacro? Será mesmo que a História precisa de jaleco branco? Não será a obsessão pelo linguajar hermético, frequentemente esterilizante, um fetiche de cientificidade desnecessário?
Propomos, então, uma nova categoria: a Histopoética. Um saber que conjuga filosofia, escuta ancestral, narratividade e responsabilidade política. E ciência, por que não? Um modo de lidar com o tempo que reconhece o conflito, o silêncio, o mito e o trauma. Que não busca apenas compreender o que foi, mas restituir voz ao que não pôde ser dito.
Escrever História é mais que relatar. É mais que organizar cronologias. É tentar ouvir o que o tempo não conseguiu calar. A História, liberta do cientificismo, pode enfim voltar a ser o que talvez sempre foi: um ritual de escuta, um ofício entre mundos, um gesto de devolver a fala aos mortos.
Nos últimos cem anos, pensadores como Nietzsche, Benjamin, Foucault, Bourdieu, Debord e outros passaram a ocupar um papel central na reflexão historiográfica. Nenhum deles é historiador de formação, tampouco reivindica o título de cientista. Todos operam nas margens férteis entre filosofia, literatura, estética e crítica social. Esse fato, por si só, deveria nos dizer algo: talvez os horizontes mais fecundos da História estejam exatamente fora de seus limites disciplinares tradicionais — no território onde o pensamento se faz gesto simbólico, poético e insurgente. E é nesse sentido que criamos aqui, livremente, a ideia de Histopoética, na falta de um melhor termo e esperança de que os mortos possam, enfim, descansar em paz.
NOTAS
[1] Xián é o hexagrama da influência sutil, simbólica, vibracional. Ele fala da capacidade de algo nos tocar tão profundamente que nos transforma — não por força, mas por consonância. Ele descreve aquilo que entra em ressonância com a alma, como uma lembrança ancestral, um gesto ético, ou uma visão que rompe o hábito.
Créditos na imagem de capa: egeo
Erich Georg
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História da Historiografia: International
Journal of Theory and History of Historiography
ISSN: 1983-9928
Qualis Periódiocos:
A1 História / A2 Filosofia
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