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Ensaio

A MÁQUINA DO TEMPO E O FUTURO COMO FICÇÃO

Na modernidade, conforme a leitura clássica de Reinhart Koselleck (2006), as relações com o tempo adquirem novos significados. Nessa experiência temporal, há um afastamento entre passado e futuro. Com isso, as expectativas para o futuro, ordenadas em torno de conceitos como revolução ou progresso, marcam a projeção de uma nova época distante das experiências e problemas do passado. Nessa historicidade futurocentrada, as expectativas delineadas para o futuro incidem diretamente no modo como os humanos agem no presente. Diante da possibilidade de inauguração de uma nova era de progresso, o presente se torna momento privilegiado para as ações capazes de produzir o futuro esperado. Contudo, como demonstra a crítica literária Eva Horn (2018), essa expectativa centrada nos progressos da razão conviveu com projeções catastróficas que anunciavam a possibilidade de cataclismas que poderiam conduzir à extinção da espécie humana.

Nas primeiras décadas do século XIX, o poeta britânico Lord Byron, vinculado ao movimento romântico, escreveu um poema, intitulado Darkness, no qual imaginava o desaparecimento do Sol e o resfriamento drástico do planeta. Nesse cenário escuro e desolador, os traços civilizatórios que erigiram a humanidade são abandonados. Nesse retorno à barbárie, os humanos revelam a vileza de seus comportamentos. Como recorda Horn, o poema foi escrito na mesma noite em que Mary Shelley produziu Frankenstein. Ambos estavam hospedados juntos em uma casa, em conjunto com outros autores, em razão de um evento climático extremo que reduziu as temperaturas durante o verão. Assim, as histórias de horror que surgiram dessa noite estavam conectadas aos impactos gerados por uma emergência climática inesperada.

Portanto, ao analisar a ficção literária, Horn contribui para a percepção de uma historicidade moderna centrada em um futuro projetado como progresso da razão e da técnica ou como a revelação da verdade última da humanidade por meio de um cenário catastrófico. Assim, entre a esperança e a destruição, o futuro permanece como um tempo radicalmente diverso do presente e do passado. Diante disso, partindo dos apontamentos de Koselleck e Horn, pretendo propor uma leitura do livro Máquina do tempo, escrito em 1896 por Herbert George Wells, capaz de demonstrar como essa tensão temporal entre um futuro de esperança e decadência é constituída na narrativa que descreve a viagem de um cientista para o ano 802701.

A máquina do tempo

A narrativa do livro (Wells, 2021) é iniciada em meio a uma reunião de intelectuais. Entre personagens como um psicólogo, um médico e um editor, um homem, nomeado como Viajante do Tempo, apresenta aos convivas suas reflexões acerca da realidade. Para o Viajante, considerando o tempo como um espaço fisicamente percorrível, a realidade seria, na verdade, quadrimensional. Para explorar essa quarta dimensão, o homem construiu uma máquina do tempo na qual foi capaz de se transportar para um futuro longínquo. O público permaneceu incrédulo diante de suas ideias. No entanto, para comprovar a veracidade da viagem, além de mostrar a própria máquina, o Viajante narra suas experiências no futuro para os presentes.

Apesar de centrado nas experiências do Viajante, a história é contada por um dos ouvintes que transcrevera sua longa narração. Isso ocorre em razão, como descobrimos ao final da narrativa, do desaparecimento do Viajante, que, após expor seu relato, embarca em uma nova viagem no tempo e não retorna. Nesse sentido, embora o recurso das aspas seja utilizado durante todo o texto para garantir a literalidade do relato, a experiência da viagem é inevitavelmente mediada pelo narrador que afirma ter recolhido esse relato durante o encontro com o viajante.

Após configurar a máquina, o Viajante percorre o tempo e desembarca geograficamente no espaço ocupado anteriormente pela cidade de Londres. Projetado para um tempo radicalmente distante, o futuro torna-se estranho. Em meio a paisagem transformada, o homem dificilmente reconhece similaridades entre os mundos de partida e chegada. A estranheza perdura no primeiro contato com os seres que habitam esse tempo. Diferentes dos humanos do passado, os primeiros seres que avista são inocentes e pequeninos. Parecem divertir-se despreocupadamente por um terreno coberto por plantas.

Diante da ausência de familiaridade com o mundo, o Viajante procura encontrar meios de se comunicar com os pequeninos. No entanto, a língua desses seres também havia se afastado de qualquer similaridade com o passado. Incapaz de se comunicar, ele esboça suas primeiras hipóteses explicativas. O vislumbre do futuro, como assinala Horn, demanda a produção de uma história capaz de encontrar os elos com o passado. Todavia, a busca por esses elos aparece como uma projeção do passado para o futuro:

Em um terraço no qual parei para descansar um pouco, olhei ao redor e, de súbito, notei algo: não havia construções pequenas à vista. Ao que parecia, o conceito de casa individual, e possivelmente de lar, não existia mais. Aqui e ali, em meio à vegetação, era possível ver algumas construções similares a palácios – mas as casas e os chalés que hoje são tão característicos das paisagens inglesas haviam sumido. “Comunismo”, disse a mim mesmo. (Wells, 2021, p. 68)

Ao analisarem a historicidade característica do conceito moderno de história, Zoltán Simon e Marek Tamm (2023) afirmam que as explicações processuais produzem uma domesticação do passado. Para os historiadores, a noção de processo é incapaz de conceber a emergência de novidades na história. Isso ocorre em virtude de que seu modo de se relacionar com as mudanças é uma “ruptura temporal e, ao mesmo tempo, uma ‘domesticação temporal’ dessa ruptura por meio da integração da novidade experimentada e esperada dentro de um processo histórico”. (Simon; Tamm, 2023, posição 353) [tradução minha]. Nesse sentido, a percepção do tempo formulada pelo Viajante, marcada por essa historicidade moderna, reconhece a novidade integrando-a a uma narrativa na qual o futuro aparece como um desdobramento do passado deste futuro.

Essa domesticação do futuro atua como mecanismo redutor dos estranhamentos. Diante de um mundo completamente diverso, os sentidos constituídos pelo Viajante tornam uma realidade rebelde aos sentidos mais familiar aos olhares do habitante estrangeiro. Por outro lado, novamente recorrendo a Horn, a posição desse sujeito no futuro abre um novo horizonte epistemológico. O vislumbre do futuro incide necessariamente sobre o presente do qual o sujeito é oriundo. Com isso, nessas primeiras tentativas de explicação dos vínculos entre o futuro e seu passado, o Viajante confirma as expectativas modernas de progresso e tranquiliza os temores diante de um porvir desconhecido.

Contudo, a medida em que suas explorações progridem, novos aspectos da realidade perturbam as interpretações iniciais. A imagem de uma existência comum proporcionada pelo comunismo, marcada pela inocência e ausência de medo dos seres do futuro, é confrontada pela descoberta de outros seres habitam poços subterrâneos e sem iluminação. A confirmação dos progressos da razão cede espaço para a compreensão de um mundo derivado da intensificação da exploração entre dois grupos sociais distintos. Ao notar as diferenças entre os seres da superfície, conhecido como Elóis, e os do subterrâneo, nomeados como Morloques, o viajante conclui que essa exploração produziu uma radical diferenciação na espécie humana:

Os Elóis, como os reis carolíngios, haviam decaído a um estado de mera futilidade bela. Ainda possuíam domínio sobre a terra, porque os Morloques, transformados em seres subterrâneos após inúmeras gerações, haviam enfim chegado a um ponto de considerar a luz do sol intolerável. (…) Mas estava claro que parte da ordem anterior das coisas já fora revertida. A nêmese dos seres mais delicados se aproximava rápido. Eras antes, milhares de gerações antes, o ser humano exilara sua espécie irmã, expulsando-a de um lugar de tranquilidade e luz solar. E agora tal espécie voltava – mudada! Os Elóis já haviam começado a reaprender aquela antiga lição: estavam se familiarizando novamente com o Medo. (Wells, 2021, p. 102)

Mesmo em uma distância temporal de centenas de milhares de anos, a história do século XIX permanece seguindo seu curso. Nessa nova interpretação, o Viajante percebe os resultados sociais e biológicos da desigualdade e da exploração iniciadas na modernidade. No desdobramento da luta entre Elóis e Morloques, os primeiros atingiram uma sociedade sem medo por meio da expulsão dos últimos para o subterrâneo. Em 802701, os Morloques retornam para a superfície e, durante a escuridão da noite, caçam os Elóis. Nessa nova leitura, a compreensão do futuro projeta inquietação sobre o passado. Ao se tornar visível, a possibilidade da catástrofe demanda ações preventivas para a humanidade.

Após suas agruras com a perseguição dos Morloques, o Viajante recupera sua máquina do tempo e escapa para um futuro ainda mais longínquo. Percorrendo escalas temporais que apontam para um futuro 30 milhões de anos à frente, o homem contempla o resultado do tempo em que estava anteriormente. Nesse novo futuro, não há qualquer traço da existência humana. Com isso, a nova visita parece confirmar os prognósticos anteriores. Em uma distância temporal ainda maior, a exploração presente no século XIX conduziu em algum momento à extinção da humanidade.

É momento, portanto, de retornar ao passado e narrar aquilo que fora experimentado no futuro. Embora atônitos, os convidados da reunião noturna permanecem em dúvida acerca da veracidade da história. Como prova, o Viajante apresenta flores que lhes foram dadas por uma Elói. A incredulidade persiste e o homem que recolheu o relato retorna mais uma vez ao laboratório do Viajante e não o encontra. Ele havia partido para uma nova viagem disposto a coletar evidências de sua presença no futuro. No entanto, até aquele momento, o Viajante não havia retornado.

Ao pensar sobre o destino do Viajante, o homem revela a parcialidade do relato ouvido e transcrito. No epílogo, o homem elabora hipóteses:  sua viagem pode tê-lo levado “para a maturidade de nossa raça; pois, na minha opinião, não acredito que estes nossos tempos de experimentação fraca e teorias fragmentadas e discordância mútua são de fato o ápice da humanidade”. Afinal, “o Viajante tinha uma visão desanimada em relação ao Avanço da Raça Humana e via no monte crescente de civilização apenas uma estúpida pilha que inevitavelmente desmoronaria e acabaria destruindo seus construtores.” Mantendo o desejo de não crer no futuro anunciado pelo Viajante, o homem propõe seu diagnóstico final para o presente: “se isso for de fato verdadeiro, cabe a nós viver como se não fosse”. (Wells, 2021, p. 143)

O futuro como ficção

 

A narrativa de Wells, ao projetar um futuro longínquo para a humanidade, não pretende encerrar a atividade imaginativa. O relato do Viajante e sua transcrição marcam diferentes maneiras de projetar o futuro. A contemplação da catástrofe, como aponta Eva Horn, estabelece o sujeito em uma posição epistemológica privilegiada na qual o desdobramento último do passado adquire seu sentido. Todavia, a narrativa não se encerra por meio da verdade catastrófica. Mais do que não crer, é possível discordar e apontar a parcialidade de um relato supostamente oriundo do futuro. Outros futuros permanecem possíveis.

Nesse sentido, por meio da ficção, a narrativa elaborada por Wells apresenta duas modalidades de imaginação inseridas na historicidade moderna. Entre a esperança e catástrofe, o futuro modela os desdobramentos do presente do escritor. Com isso, o futuro ficcional, mais que influenciar o imaginário de uma determinada época, produz diferentes relações para com o presente. As ações tomadas no presente dependem daquilo que foi projetado para o futuro. Um futuro de progresso, requer a intensidade e aceleração do presente rumo ao desejo, enquanto o futuro como catástrofe implica impedir que os temores se realizem.

Para o século XXI, propor futuros ficcionais pode contribuir para criação de narrativas que desafiam a imaginação triunfante da ficção científica capitalista dos bilionários do Vale do Silício que, como demonstra Michel Nieva (2025), pretende ampliar os poderes de uma elite humana sobre a Terra e outros planetas. Nessa imaginação, o Antropoceno figura não como catástrofe, mas como oportunidade. Imaginar por meio da distopia, como afirma Júlio Bentivoglio (2019), é manter a desconfiança diante do que se apresenta como triunfo da humanidade. Ao contrário da conclusão do homem que transcreve o relato do Viajante, é preciso viver o futuro catastrófico como verdade.

 

Referências bibliográficas

BENTIVOGLIO, Julio. História e distopia: a imaginação histórica no alvorecer do século XXI. Vitória: Milfontes, 2ª edição, 2019.

HORN, Eva. Future as catastrophe: imagining disaster in modern age. Nova Iorque: Columbia University Press.

KOSELLECK, Reinhart. Futuro passado: contribuição à semântica dos tempos históricos. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC-Rio, 2006.

NIEVA, Michel. Ficção científica capitalista. São Paulo: Ubu, 2025.

SIMON, Zoltán; TAMM, Marek. The fabric of historical time. Cambridge: Cambridge University Press, 2023.

WELLS, Herbert George. Máquina do tempo. São Paulo: Darkside, 2021.

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