Antes mesmo do “bom dia” nos corredores, ou de um leve aceno de cabeça, muitos alunos começam a manhã com intensidade: “Professor, o que você acha da megaoperação no Rio de Janeiro?”, perguntam meus estudantes do CIMATEC ou da UFBA. Como eu sou um sociólogo, perguntas assim não surpreendem, fazem parte da minha rotina, da mesma forma que o café e o pão com manteiga. Antes de começar a resposta, eu sempre tento estabelecer as regras do jogo (retórico). Afinal, o campo das ciências humanas e socias é pantanoso e um simples deslize é uma sentença de morte (simbólica). Diante da pergunta “o que você acha das megaoperações?”, eu sempre começo com um alerta, uma espécie de aquecimento, digamos assim: É preciso evitar dois extremos, cada um deles reproduzindo uma estrutura ideológica óbvia, sedutora, mas problemática. Da mesma forma que qualquer arranjo conveniente de linguagem, matrizes ideológicas simplificam tudo pelo caminho, retirando complexidade e contradições da mesa, como acontece com um algoritmo em seu feed de notícia.
Primeiro, nós precisamos fugir do extremo da esquerda psoleira, quando associa, imediatamente, policia com maldade e injustiça. Essa forma de pensar, reforçada na década de 60, compreende qualquer instituição vertical como um perigo imediato. Isso significa que “Polícia”, em certos setores de esquerda, com um destaque aos grupos pós-estruturais (PSOL e outros), é sinônimo instantâneo de algo ruim, antes mesmo do debate ser estabelecido. Existe um tipo de pecado original na palavra “Polícia”, uma verticalidade sufocante, ao contrário de modelos (aparentemente) horizontalizados, como as comunidades periféricas, quase sempre descritas com predicados estéticos… performáticos. Vamos chamar esse deslize de deleuziano, essa desconfiança imediata com qualquer tipo de relação minimamente vertical. Isso, sem dúvida, é uma pedra no sapato do sociólogo.
Segundo, precisamos evitar o outro extremo, o de direita, quando associa, imediatamente, policia com heroísmo, como se os policiais estivessem acima do bem e do mal, representantes perfeitos de uma instituição infalível. Esse modo quase hobbesiano de pensar também merece questionamento, já que distorce uma análise científica de mundo. Essa nostalgia conservadora, esse desejo por verticalização, como um tipo de fuga do caos cotidiano, é uma estratégia a ser evitada. Com um desejo absoluto por ordem, previsibilidade e eficácia, grupos conservadores aplaudem práticas rígidas e repressoras. Tudo isso acaba se tornando outra pedra no sapato de qualquer sociólogo sério.
Depois desse cuidado inicial, tentando, ao máximo, manter o tom cientifico da análise, agora é o momento de propor alguma coisa, alguma alternativa sociológica. A esquerda psoleira tem razão quando destaca os desequilíbrios da polícia, o seu lado racista, violento, o uso da força de forma desproporcional, mas tudo isso é apenas um efeito, não uma causa. Ou seja, é preciso evitar um dualismo problemático aqui, onde, de um lado, temos a polícia como uma instituição malvada e, do outro, a sociedade civil como um espaço super pacifico de criaturas amistosas. Em vez desse modelo dualista, de dois mundos irreconciliáveis, eu proponho um recorte monista, de apenas um único mundo.
A polícia brasileira é violenta, porque a sociedade é violenta, simples assim. Se não acredita, vamos aos números… Observem a nossa violência cotidiana, aquela materializada no trânsito (240% maior[1]), no futebol (20% maior), com as mulheres (200% maior), os idosos (250 % maior), as crianças (460% maior), a comunidade LGBTQIAPN+ (260% maior), em furtos e roubos (600% maior)… A nossa polícia é um sintoma de um solo violento, o que Žižek chamaria de violência ontológica, algo estruturando o nosso próprio senso de mundo. Em outras palavras, a violência não é um desequilíbrio na normalidade do cotidiano, mas o suporte alimentando essa mesma normalidade, naturalizada nos bastidores. Quando mostram estatísticas (nas democracias liberais) entre violências “cotidianas” (trânsito, gênero, etária, infantil, esportiva, etc.) e violência policial, existe uma correlação forte entre elas, eu diria até uma suposta causa escondida. Quanto mais violento é um país, mais violento é a polícia. Vamos a um exemplo oposto: O Japão. O policiamento é pacífico, porque essa sociedade é pacífica. Com regras mais sólidas, e comportamentos mais contidos, os policias trazem um outro perfil.
A polícia não pode ser compreendida como uma instituição alienígena, descolada do substrato do próprio mundo, como se fosse um corpo estranho manchando a pureza de uma suposta sociedade civil inocente. Não existe inocência aqui, apenas um fluxo ininterrupto de atos violentos. A polícia funciona como uma crise alérgica… quanto mais o indivíduo vive em ameaça (de um amendoim, leite, glúten, etc.), mais o sistema imunológico exagera seus efeitos como compensação, ameaçando muitas vezes o próprio corpo que jurou proteger. Em outras palavras, a violência da polícia é retroalimentada pela violência da sociedade em um círculo vicioso e agressivo. O problema nunca foi de ordem policial, apesar do que contam por aí. Não adianta resolver a febre com um tylenol, já que o estado febril é um sintoma, não a causa da doença. Não adianta desmilitarizar a polícia, reduzir o seu financiamento, ou fazer workshops antirracistas… não é esse o ponto. Não existem policias pacificas em sociedades violentas, ao menos é o que mostram os dados. Em vez de um modelo de análise dualista, onde polícia e sociedade civil são instâncias opostas (inclusive no próprio modelo de direita), é preciso avaliar tudo dentro de um monismo, digamos assim. Polícia não se opõe à sociedade, a polícia é a própria sociedade, seja com seus vícios ou suas virtudes.
Da mesma maneira que a mente não se opõe ao corpo, e a cultura não se opõe à natureza, é preciso também resistir ao dualismo do estado x sociedade civil ou polícia x povo. Esse “povo” não é abstrato, é concreto, incluindo aqui todas as taxas de violência descritas nesse ensaio, além de muitas outras. Quando “povo” é uma simples abstração, um significante vazio no bolso de figuras convenientes, esquerda e direita projetam os seus adjetivos preferidos, desde os mais adocicados, até aqueles ácidos e podres. O “povo” não é pacífico, mas também não é marginal. O “povo” não é pureza, mas também não é pecado. O “povo” não é Rousseau, mas também não é Hobbes. O “povo” é um conjunto complexo, contraditório e tenso de qualidades, personificado em séculos de formação histórica e cultural. Resumindo… “povo” não existe, ele é apenas uma moeda de troca simbólica em circuitos acadêmicos, políticos e artísticos. A tragédia das megaoperações no Rio NÃO reflete a falha da polícia ou o deslize de um governador reacionário específico, como alguns sugerem no Twitter e Instagram. Por exemplo, a Bahia lidera o número de mortes por policiais no Brasil, mesmo sendo comandada por Jerônimo, um político de esquerda, do PT.[2] É de um otimismo astronômico achar que o problema se resume a uma simples administração política ou instrucional. Não, meus caros, infelizmente o problema é mais grave, mais profundo… o problema é ontológico.
NOTAS
[1] Todas as estatísticas aqui são comparadas à Europa, com exceção das estatísticas do futebol (média global)
[2] Na verdade, a região Nordeste Inteira, quase toda liderada por grupos de esquerda em décadas, continua representando 1 terço das mortes por policiais do Brasil, 17% mais do que o Sudeste e mais do que o dobro do Norte, Sul e Centro-Oeste.
REFERÊNCIAS
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios – PNAD 2019: mulheres e violência. Rio de Janeiro: IBGE, 2019. Disponível em: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/en/agencia-news/2184-news-agency/news/30672-a-total-of-29-1-million-were-affected-by-violence-in-2019-with-women-youth-and-black-population-as-the-main-victims
EUROPEAN UNION AGENCY FOR FUNDAMENTAL RIGHTS (FRA). Violence Against Women Survey. Luxembourg: FRA, 2024. Disponível em: https://fra.europa.eu/sites/default/files/fra_uploads/pr-2024-eu-gender-based-violence-survey_en.pdf
CORREIO 24 HORAS. Brasil tem 50 mil casos a mais de violência contra idosos em 2023. Salvador, 2023. Disponível em: https://www.correio24horas.com.br/brasil/brasil-tem-50-mil-casos-a-mais-de-violencia-contra-idosos-em-2023-0624
WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). Elder abuse. Geneva: WHO, 2022. Disponível em: https://www.who.int/en/news-room/fact-sheets/detail/elder-abuse
OMAR INGA. Violência matou mais de 15 mil jovens no Brasil nos últimos 3 anos. 2023. Disponível em: https://omaringa.com.br/en/noticias/violencia-matou-mais-de-15-mil-jovens-no-brasil-nos-ultimos-3-anos-2/
WORLD HEALTH ORGANIZATION – EUROPE. European Region needs to scale up efforts to prevent violence against children, new report says. Geneva: WHO, 2021. Disponível em: https://www.who.int/europe/news/item/15-06-2021-european-region-needs-to-scale-up-efforts-to-prevent-violence-against-children-new-report-says
GRUPO GAY DA BAHIA (GGB). Observatory of violent deaths of LGBT. Salvador, 2025. Disponível em: https://grupogaydabahia.com.br/wp-content/uploads/2025/01/2024-Observatory-of-Violent-Deaths-of-LGBT.pdf
EUROPEAN UNION AGENCY FOR FUNDAMENTAL RIGHTS (FRA). LGBTIQ equality: crossroads, progress and challenges. Luxembourg: FRA, 2024. Disponível em: https://fra.europa.eu/de/publication/2024/lgbtiq-equality-crossroads-progress-and-challenges
MINISTÉRIO DA SAÚDE. Datasus – Mortalidade por acidentes de trânsito. Brasília: Ministério da Saúde, 2023. Disponível em: http://www2.datasus.gov.br/
Créditos na imagem de capa: Imagem feita por IA
Thiago Pinho
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