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Resenhas

Ave Carmen!

Muito tem sido dito e festejado em torno da recém-lançada coletânea de poesia de Maria do Carmo Ferreira (1938-), a Carminha. A edição, publicada pela editora Martelo, é apresentada ao leitor em três volumes que compreendem sua obra completa e inédita, e tem organização de Fabrício Marques, Silvana Guimarães e ilustrações de Caio Borges. 

A poetisa nascida em Cataguases, um dos berços do Modernismo Mineiro, é irmã da também poetisa Celina Ferreira e, ainda que tenha publicado cerca de 78 poemas no Suplemento Literário de Minas Gerais, Maria do Carmo vem chamando a atenção de críticos e suplementos, seja pelo caráter inédito de sua obra, publicada pela primeira vez em livro, seja pela fortuna crítica renomada que a acompanha e que traz nomes como Guilherme Mansur, Alice Ruíz, Décio Pignatari e Augusto de Campos 

Apesar de ressaltarem a forte poética alijada à Maria do Carmo, um dos aspectos mais ressaltados na propaganda e na crítica dedicada à obra da autora é a sua suposta vinculação ao Movimento Concretista. Entretanto, com exceção do poema “Meretrilho” (1967), tal afirmação, que embora não seja de todo errada, é um pouco forçosa, uma vez que o aspecto mais presente, ainda que por vezes em tom negativo, como no próprio Meretrilho, que de acordo com a própria poetisa é uma “litania ao contrário”, é o religioso.

Desta forma, embora se pareçam e ao mesmo tempo sejam de fato enormemente distintas, Maria do Carmo constrói uma poética no mínimo aparentada com a de Adélia Prado, não apenas por ser uma poética da “vida escondida” ou da “intimidade cotidiana” como ressaltaram até agora alguns professores e críticos, mas antes de mais nada por ser uma poesia que faz referência ao sagrado, que tanto em Maria do Carmo quanto em Adélia é o sagrado católico. Praticamente todo o terceiro volume, intitulado Coram populo, é construído com base nesse tipo de discurso que chamarei aqui de teopoético. 

Embora todos os três livros sejam prenhes de intertextualidade, já que a poetisa se refere a títulos, frases e obras de diferentes poetas e de diferentes épocas, a aproximação a Adélia Prado, para além da temática de fundo religiosa, fica mais clara ainda nos dois primeiros poemas de Cave Carmen: “Autorretrato” e “Cognominato”, respectivos intertextos de Carminha com os poemas “Com licença poética” e “Grande Desejo”, de Adélia Prado. Se o eu-lírico de Adélia não é “Cornélia, mãe dos Gracos”, o de Carminha é por sua vez “Carmenta, mãe-mulher. Têmis, Nicóstrata”, e por si poderiam seguir as comparações. 

Assim, em leituras que se façam acerca da poesia desta mineira devem ser analisados com mais atenção aspectos que não têm sido muito bem observados pela grande crítica. E aqui vale aquele ditado: nas menores coisas é que estão os grandes detalhes. Portanto, vale menos ler Maria do Carmo buscando uma concretista do que lê-la se atentando para outros aspectos que sejam ainda mais importantes para uma plena apreciação e compreensão da sua obra, como a religiosidade.

 

 

 


Crédito da imagem da capa: Reprodução.

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