A obra filosófica de Marcia Angelita Tiburi (Vacaria, RS, 1970), abrange diversas áreas do conhecimento como estética, epstemologia, filosofia do conhecimento, ética, feminismo e filosofia política. Tiburi é graduada em filosofia e artes visuais, com mestrado e doutorado em Filosofia, concentrando os estudos acadêmicos em torno de Theodor W. Adorno e dos filósofos da Escola de Frankfurt. Das primeiras publicações autorais de Tiburi em filosofia, pode-se citar a publicação do mestrado, Crítica da razão e mímesis no pensamento de Theodor W. Adorno (EDPUCRS, 1995) e doutorado, Metamorfoses do conceito – ética e dialética negativa em Theodor W. Adorno (PUFRGS, 2005), além da organização de As mulheres e a filosofia (UNISINOS, 2002) que se tornou referência dentro dos estudos feministas pelo ineditismo e pela consistência dos textos aí reunidos. Desde então, Tiburi publicou Uma outra história da razão (UNISINOS, 2003), Filosofia Cinza – a melancolia e o corpo nas dobras da escrita (Escritos, 2004), Filosofia em comum – para ler junto (Record, 2008), Olho de vidro – a televisão e o estado de exceção da imagem (Record, 2011), Filosofia prática: ética, vida cotidiana, vida virtual (Record, 2014).
Para compreender os procedimentos filosóficos mais originais estabelecidos por Tiburi os ensaios Filosofia cinza, Filosofia em comum e Olho de vidro podem ser pensados como uma boa amostra conceitual. O primeiro desses três ensaios, Filosofia cinza, é considerado por Tiburi como uma espécie de testamento filosófico. Julio Cabrera, filósofo argentino radicado no Brasil e Professor Titular aposentado do Departamento de Filosofia da Universidade de Brasília, fez uma consideração muito instigante a respeito desse pensamento traçado no limiar entre o preto e o branco. Para Cabrera,
Filosofia cinza é uma reflexão sobre a melancolia do filosofar, abrindo espaço para um filosofar de impressões, da finitude, da morte, do corpo, uma ciência triste e negativa nas antípodas da depressão ou da passividade. A ideia central é que, sendo a fotografia a própria cena da melancolia, a representação mesma da morte, o cinema – “fotografia em movimento” – seria como a chocante ressurreição do morto, o morto em movimento (e, nesse sentido, todo filme seria filme de terror). (CABRERA, 2013, p. 27)
Em muitos sentidos a obra de Tiburi deve ser considerada, de fato, como a constante superação do cansaço. O movimento de questionamento e reflexão praticado pela filósofa quase sempre vai na direção dos conteúdos desprezados no âmbito da filosofia acadêmica. A elaboração filosófica de assuntos negligenciados ou esquecidos constitui uma das principais inquietações de Tiburi, que se mantém vigilante quanto ao papel político desse mecanismo de ocultações e revelações. É possível afirmar que boa parte das preocupações da filósofa está no cotidiano, especificamente, naquilo que afeta a existência de todos, mesmo aqueles inconscientes e alienados da própria experiência de vida e de mundo.
Tiburi procura pensar e questionar o que se considera natural, normal e inevitável para problematizar, assim, o que parece indigno de análise reflexiva. Em cada diferente ensaio Tiburi reafirma com exuberância criativa, audácia e rebeldade crítica que, tão urgente quanto romper com as barreiras do senso comum ou destruir os blocos rígidos formados por convicções impostas sem exame, é desmantelar a filosofia de gabinete e o senso comum acadêmico.
Esse exercício de quebra de procedimentos determinados em relação aos parâmetros de pensamento à brasileira e de regras academicistas é um dos traços mais distintivos da obra de Tiburi. Ao mesmo tempo, a filósofa consegue destacar continuamente, com muita pertinência, o quanto a história da filosofia é composta justamente por filósofos e por pensamentos que fogem do padrão conceitual e da reflexão estabelecida. Se não for assim, a filosofia corre o risco de cair em mistificação, tornar-se um pensamento mimético ou mera erudição disciplinar. Em uma perspectiva mais próxima de uma autoavaliação Tiburi considera que
a filosofia que eu faço tem duas frentes: a experiência da escrita como esforço do pensamento (mais do que o simples trabalho do conceito de quem falava Hegel) e um momento performático em que privilégio a experiência do encontro com as pessoas (seja a sala de aula, seja o espaço público tout court) de um modo geral. Esta filosofia não é escrita, é diálogo. Mas uma não vivem sem a outra. Está última serve, inclusive, para mim, como militância e resistência direta em busca de emancipação para as pessoas e para mim, pois é um exercício de liberdade. E a liberdade? Dirá você, é a prática sem a qual não vale a pena viver. Para mim, a filosofia como encontro com pessoas é uma tarefa que me coloco à medida que tenho voz, que sou ouvida, que acredito na partilha da reflexão contra a alienação. (TIBURI, 2010, online)
Para os meios de comunicação de massa abertos, mas também para muitos estudantes de diversas áreas, Tiburi se destaca como uma das principais vozes da filosofia no Brasil. De fato, tanto nas aparições televisivas quanto nas redes sociais, desde o primeiro momento, Tiburi se apresenta como professora de filosofia/filósofa defendendo o acesso ao conhecimento e o direito à experiência de pensamento reflexivo. Tiburi afirma que se interessa especialmente por
tudo que se refere ao encontro entre ética, estética e política. Se eu tivesse que escolher dentre os meus interesses, um que aglutina, que concentra minha pesquisa e estudos, direi que é o corpo, não como objeto antropológico apenas, mas como concreto avesso da metafísica constantemente produzido por um sistema econômico-político. Quero compreender o corpo vitimado e o corpo como potência. (TIBURI, 2010, online)
Desde 2014, Tiburi dedica o núcleo duro dos ensaios que elabora a questões políticas. A realidade social brasileira tornou-se prioridade das investigações da filósofa, com ênfase em questões políticas conceituais e institucionais e como tais pontos ferem e mesmo ceifam a democracia, os direitos humanos e o exercício da subjetividade. Para pensar desde como as instituições, o estado, a governamentalidade atingem as pessoas (passando pelo jogo dialético entre singularidade e universalidade e por aspectos políticos de questões estéticas), até chegar no avanço de posturas opressivas e tirânicas no campo político e social do Brasil, Tiburi escreveu ensaios subsequentes que se erigem no campo das questões supracitadas. São eles Como conversar com um fascista – reflexões sobre o cotidiano autoritário brasileiro (Record, 2015); Ridículo político – uma investigação sobre o risível, a manipulação da imagem e o esteticamente correto (Record, 2017); Feminismo em comum: para todas, todes e todos (Rosa dos Tempos, 2018); Delírio do poder – psicopoder e loucura coletiva na era da desinformação (Record, 2019); Como derrotar o turbotecnomachonazifascismo (Record, 2020); Complexo de vira-lata – análise da humilhação brasileira (Civilização Brasileira, 2021) e Mundo em disputa – design de mundo e distopia naturalizada (Record, 2024). Em outubro de 2025, publicou, pela editora Planeta, o ensaio Ninfa morta – uma história do ódio às mulheres. Há, portanto, um corpus considerável para se pensar a política da linguagem nos textos referidos.
No campo da filosofia brasileira, é possível situar Tiburi ao lado de nomes como Charles Feitosa, Viviane Mosé, Ricardo Timm de Sousa – filósofos que buscam o risco do pensamento autoral deixando em segundo plano, mas não totalmente, o comentário especializado acadêmico já bastante experimentado por uma tradição de filósofos brasileiros. Nesse sentido, inclusive, é possível aproximar vários aspectos da obra de Tiburi com o pensamento de Donaldo Schuller, Leandro Konder (1936-2014) e Carlos Cirne Lima.
Paulo Margutti, um dos principais nomes dos estudos da historiografia da filosofia brasileira, considera que, superada “a discussão ociosa envolvendo a escolha entre a filosofia do Brasil e a filosofia no Brasil” (MARGUTTI, 2019, 233), é possível ler a obra de Marcia Tiburi como parte da linha de “pensamento filosófico brasileiro considerado como autônomo, descolonial, fora dos padrões etnocêntricos europeus” (MARGUTTI, 2019, p. 136). Rodrigo Duarte, professor titular aposentado do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Minas Gerais e primeiro latino-americano a ocupar a direção da Associação Internacional de Estética, afirma que Marcia Tiburi é uma pensadora “inconfundível” (DUARTE, 2003, p. 08) e que a filósofa detém uma
intelecção potente e criativa. Essa marca denota não raro inquietações de cunho manifestamente pessoal, particular, que, não obstante, acabam por atingir a generalidade, a universalidade, (ainda e cada vez mais) requerida pelo pensamento filosófico. Desse modo, Marcia Tiburi realiza, à sua moda, aquela concepção de constelação, reivindicada por Adorno como procedimento privilegiado na filosofia contemporânea (DUARTE, 2003, p. 09).
Todas essas questões evidenciam a importância da obra de Marcia Tiburi que é intensa, corajosa e urgente tanto do ponto de vista da filosofia brasileira quanto dos problemas que marcam a atualidade no Brasil e no mundo.
REFERÊNCIAS
CABRERA, J; TIBURI, M. Diálogo/Cinema. São Paulo: Editora Senac, 2013.
DUARTE, R. “A recepção da Teoria Crítica no Brasil”. In: TIBURI, M. Uma outra história da razão. São Leopoldo: Editora Unisinos, 2003.
MARGUTTI, P. Filosofia brasileira e pensamento descolonial. Sapere Aude, vol. 9, n. 18, p. 223–239, 2019. Disponível em: <https://doi.org/10.5752/P.2177-6342.2018v9n18p223-239>. Acesso em: 06 abril 2025.
TIBURI, M. Como conversar com um fascista. Rio de Janeiro: Record, 2015.
TIBURI, M. Como derrotar o turbotecnomachonazifascismo. Rio de Janeiro: Record, 2020.
TIBURI, M. Complexo de vira-lata – análise da humilhação brasileira. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2021.
TIBURI, M. Delírio do poder. Rio de Janeiro: Record, 2019.
TIBURI, M. Feminismo em comum: para todos, todes e todos. Rio de Janeiro: Rosa dos tempos, 2018.
TIBURI, M. Filosofia cinza. Porto Alegre: Escritos, 2004.
TIBURI, M. Filosofia prática. Rio de Janeiro: Record, 2014.
TIBURI, M. Mundo em disputa – design de mundo e distopia naturalizada. Rio de Janeiro: Record, 2024.
TIBURI, M. Ninfa morta – uma história do ódio às mulheres. São Paulo: Editora Planeta, 2025.
TIBURI, M. O corpo como potência. Disponível em: <https://umbigodascoisas.com/2010/10/23/o-corpo-como-potencia-/>. Acesso em: 06 abril 2025.
TIBURI, M. Olho de vidro – a televisão e o estado de exceção da imagem. Rio de Janeiro: Record, 2010.
TIBURI, M. Ridículo político. Rio de Janeiro: Record, 2017.
TIBURI, M. Uma outra história da razão. São Leopoldo: Editora Unisinos, 2003.
Créditos na imagem de capa: Site de Marcia Tiburi http://www.marciatiburi.com
